Por que isso não tem nada a ver com um corte de cabelo Manchete de um artigo da coluna de Patrícia Kogut de 19/10/2013: “Visual de filho de Niko é alvo de críticas e Walcyr Carrasco teme rejeição ao personagem”. O artigo é baseado na seguinte afirmação do autor:

“Tenho ouvido críticas pesadas ao cabelo dele. Quero um personagem bem aceito.”

Lamentável, pensei comigo, ver um autor ceder às pressões de racistas. Imediatamente pensei no menino, ao ouvir que iriam cortar seus cabelos, pois pessoas racistas haviam se incomodado com sua aparência. Imaginei como aquela pessoinha em formação receberia a mensagem (indireta?) de que, em um país como o Brasil, de igualdade racial, quando racistas mandam pular, a gente só pergunta quão alto. Como explicar àquele menino, que seria necessário consertá-­lo para que fosse aceito?

Como explicar que o autor, embora apoiado pela empresa de comunicação mais forte do país, temia, sentia medo, sentia-­-se acuado, pelas fortes críticas ao seu penteado, e que por isso, num gesto de eterna compaixão pelo seu personagem (não por temer que a pressão pudesse prejudicar a integridade psicológica do ator Kaiky Gonzaga) decidira recaracterizá-­-lo? Mal sabia eu que o pior ainda estava por vir… Poucas horas depois, o autor irritado com as reações e críticas a sua decisão, resolver deixar cair as máscaras, revelando uma mentalidade claramente racista:

“Eu acho o cabelo black lindo. Mas nenhum menino num abrigo usaria o cabelo assim. É irreal. Mas só digo. Não é porque alguém e negro que é obrigado a usar black power. Isso é preconceito ao contrário! Mas a verdade é essa: só pedi para mudar o visual de Jayminho porque ele foi adotado por alguém de dinheiro.É o que aconteceria no caso. Só quero lembrar que eu escrevi Xica da Silva, primeira novela com protagonista negra no Brasil. Isso sim é lutar contra o preconceito”.

Bem, se não estão felizes com o que estou fazendo contra o preconceito, tiro o personagem da novela e acaba a polêmica” “Amigos, eu sinto muito, mas quem escreve a novela sou eu. Tenho que fazer como achar melhor, inclusive a mensagem contra o preconceito. Não vou explicar mais porque vocês só reclamam. É impossível explicar ou debater um tema com quem já está contra mim e tem má vontade para ouvir. Desisto.Tem muita gente que só quer brigar” A primeira frase foi amplamente adotada e reproduzida por aqueles que tentam de todas as maneiras negar o próprio racismo, que veem nas críticas ao autor, um ataque às suas consciências limpas. O debate passou a reduzir-­-se à necessidade da verossimilhança. Um menino proveniente de um orfanato, jamais teria um cabelo afro tão comprido.

Verdade? Talvez, muito provavelmente. Há-se de admitir, porém, que o menino quando foi buscado no lar já tinha esse cabelo, e que posteriormente adaptá-­-lo à realidade seria no mínimo descreditante para a telenovela. Em segundo plano isso seria subestimar a capacidade do público, de redefinir o termo verossimilhança. Já que o mesmo mostra-­-se exímio nesse quesito, quando o assunto é percentual negro na sociedade brasileira, retratada na mesma telenovela.

Mas ainda que esse fosse o problema. Por que o autor afirma momentos depois que a mudança fora forçada pela rechaça alheia?

Na segunda frase o autor afirma que negros não são obrigados a usar black power. É verdade, eu concordo com ele, alguns nascem de cabelo liso. Mas um número enorme nasce com um black, que é uma imposição da natureza, assim como o liso; com a única diferença: o black, em sociedades racistas, é considerado ruim, feio, coisa que ninguém merece, coisa desprezível, a cara da pobreza. O último adjetivo dado aos cabelos crespos também não foi esquecido pelo autor, ele é mais um dos motivos para a mudança. Jaymizinho receberá uma mudança capilar para adaptar-­-se ao novo estilo de vida, agora rico. Quem achava que o fato de o faxineiro do hospital ser negro era pura coincidência, vê-­-se nesse momento forçado a desfazer-­-se dessa ilusão. Eu entendo o autor, no Brasil a negritude e a pobreza vivem em harmoniosa simbiose e para que essa simbiose seja decomposta, é necessário não só tirar Jayminho da pobreza, mas também a pobreza de dentro dele. Deixar os marcadores de pobreza no salão, eis a solução!

Terceira frase: Xica da Silva. Sim, Walcyr, Carrasco, sempre foi pioneiro no combate ao racismo televisivo e foi por isso que escreveu Xica da Silva, uma novela que perpetua a hipersexualização da mulher negra, com direito a oponente branca e frígida, para que os mais lesos no quesito sexismo, racismo e machismo, também pudessem entender.

Bem, se não estão felizes com o que estou fazendo contra o preconceito, tiro o personagem da novela e acaba a polêmica, a quarta frase… Grada Kilomba, professora da Universidade Humboldt em Berlim, escreveu o livro Plantation Memories, em que ela relembra, retrata e analisa vivências do racismo cotidiano. Segundo Grada Kilomba, essas experiências nos remetem ao passado escravocrata, aos tempos em que trabalhávamos nas plantagens. A essa luz, a ameaça de Carrasco, parece-­me uma ótima oportunidade de relembrar tempos passados, em que o senhor de escravos, num ímpeto de fúria diante da ingratidão de um servo, ameacava vender o escravinho de estimação (muitas vezes, filho do próprio senhor) a uma fazenda distante. Essa frase pode ser encarada como um verdadeiro “Vale a Pena Ver de Novo”.

Por fim, a quinta frase: o autor que não se deixa intimidar. A novela é dele , ele escreve como quer. Colocação aceitável. A única coisa que me intriga é o fato da novela não ter estado em sua posse, quando o assunto era deixar o cabelo do menino como está. Até ali, ele via-­se coagido, temia por seu personagem. Por fim, a pergunta que não quer calar: O que deslegitimiza a nossa crítica e faz a dos que se incomodaram com o cabelo crespo de Jayme pertinente? Muitos são os que acham esse assunto sem relevância. Afinal, isso é só novela, e novelas são produções culturais inferiores. Talvez sim, talvez não. Mas quem foi que disse, que eu estou falando de novelas? Eu estou falando de realidade. Da realidade dos telespectadores dessas telenovelas, majoritariamente constituída por crianças e adolescentes pobres e negros. Para eles, a televisão, as telenovelas, são as únicas opções de lazer acessível. Muitas delas, por motivos de segurança ou financeiros, nem podem deixar as próprias casas a busca de outras opções. Quantas crianças não têm a merenda escolar como única fonte de alimentação diária? Não, não sobra para o teatro, nem para o circo, nem para um livro. No máximo para um gibi, onde um dos personagens é um menino que nunca toma banho e que tem cabelos crespos…

Não, não é por um corte de cabelo, é por um direito mínimo à dignidade.

Links

  • http://kogut.oglobo.globo.com/noticias-­-da-­-tv/novelas/noticia/2013/10/depois-­-de-­- criticas-­-walcyr-­-carrasco-­-mudara-­-visual-­-do-­-filho-­-de-­-niko.html
  • http://caras.uol.com.br/especial/tv/post/walcyr-­-carrasco-­-mudar-­-visual-­-menino-­- jayme-­-adotado-­-niko-­-eron-­-acusado-­-preconceito-­-resposta-­-amor-­-a-­-vida
  • http://gradakilomba.com/