Por Carla Ferreira para as Blogueiras Negras

“Quer saber, me amarro numa neguinha assim como você, ainda mais com essa bocarra toda linda!”

Foi esta a mensagem deixada por um homem, que eu nunca vi na minha vida.

A ira se fez presente instantaneamente, acarretando a certeza de que não é de hoje que a sociedade alienada encara a mulher negra de forma racista e sexista.

O corpo negro sempre visto como o mais sexy, quente. Aquela velha frase: “mulher preta na cama é o catiço”, daí para pior. Eu, como outras mulheres, já devem ter sentido na pele este tipo de agressão de alguns homens, que são cegos para a amplitude que cerca os valores da mulher negra.

Presenciei casos graves até de tentativa de suicídio, acarretado por depressão devido a situações parecidas. Não irei muito longe, eu sou um caso.

Tive um relacionamento com um colega de infância, no início eu não entendia o porquê da insistência de ficar comigo, já que ele poderia ter a menina que quisesse, ele era branco, alto, bonito e com uma ótima situação financeira.

De tanta insistência acabamos namorando, era um namoro escondido e eu aceitava normalmente, achava que ele não abria o namoro pois estava cedo demais.

Passaram-se seis meses, eu comecei a achar estranho, nunca gostei de esconder as coisas para minha mãe e terminei. Eu engravidei, contei para ele e ele decidiu abrir para a família, e como ele contou?

Disse que havíamos ficado somente uma vez e que não sabia ao certo se o filho era dele.

Foi uma tempestade, ouvi de tudo inclusive que eu queria dar o golpe.

Muito orientada pela minha mãe e sem entender patavinas o que estava acontecendo deixei o tempo passar, não sem me deprimir, sem compreender o porquê mentir daquela maneira sobre o que aconteceu se tínhamos namorado, por um bom tempo.

Como o tempo é pai de tudo e de todos, deixei o mesmo passar, sem absorver muito a vergonha que ele me fez passar, foquei na minha filha e vivi.

A verdade veio à tona um tempo depois, tanto para a família dele quanto para mim.

Eu entendi o que ele fez comigo, e o pior, o que eu fiz comigo, namorá-lo para os amigos e para mim era sinal de status e acabei envaidecida por um branco bem de vida estar afim de mim.

Eu não tinha a consciência negra que tenho hoje, fui adquirindo durante todo o processo da minha gravidez.

Hoje posso dizer que estou vacinada sobre este tipo de ilusão, o de “só poder ser escondido”, ou “sou louco para comer uma preta”, “nega da bunda grande”, “adoro uma preta da boca carnuda”…

Coisas ditas que alimentam ideal de superego de uma mulher negra alienada.

Sou mulher negra, de beleza particular que apenas alguns sabem apreciar verdadeiramente. Somos lindas, inteligentes, de consciência formada, prontas para o que der e vier, somos fortes.  Gosto de sexo sim, mas deixe-me falar por mim, pelo meu corpo, pelas minhas ideias.

Respeite-me! E nem peço por favor, pois já passou da hora!

É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra.

É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra.