Carla Ferreira para as Blogueiras Negras

Há exatamente um ano e seis meses atrás tomei a uma decisão que provocou uma reviravolta totalmente positiva na minha vida. O meu Big Chop (1) foi a chave para uma elevação tanto pessoal, intelectual e política. Assumir meu cabelo foi um processo solitário e árduo, o que me fez atentar para as mutilações sociais, pessoais e psicológicas que a mulher negra sofre quando e obrigada a se embranquecer .

No início, assim que cortei todo o cabelo quimicamente tratado acredito que a pior fase era me olhar no espelho e não me enxergar como uma mulher negra, natural e linda, foi hard!!! Não conseguia de maneira alguma me achar bonita, não compreendia a forma e a textura do meu cabelo. Agonia, desespero e medo eram os sentimentos que me definiam no início do processo. Tanto que chorava ao me olhar no espelho, não queria sair, me sentia mal com os olhares, a minha vontade era me trancar dentro de casa e não sair mais ou alisar o cabelo novamente.

Como sempre fui curiosa, e este processo não conseguiu anular esta característica, comecei a pesquisar leituras que tratassem do assunto até para tentar compreender o que estava acontecendo comigo, estava a beira de uma depressão. Bell Hooks, Sueli Carneiro e Neuza Santos me ajudaram a compreender que não era a primeira e nem a única a passar por este processo. Comecei a entender o que estava acontecendo comigo, nós, negros/as não somos preparados para nos amar, amar o que somos realmente, amar nossa cultura, nossos defeitos para a sociedade são defeitos e só, não enxergam qualidades em nós e quando enxergam é revestida de racismo. Somos preparados para nos espelhar em um ideal de ego branco.

Pesquisas e mais pesquisas, leituras e mais leituras, e ainda cercada de um povo preto maravilhoso que é o Leafro da UFRRJ, pessoas com plena consciência do que é ser negro e militantes pela igualdade me ajudaram intensamente nesse caminho, consegui obter total compreensão do que queriam que eu fosse e o que realmente deveria ser.

No campo familiar, não tinha tanto apoio assim, todos questionavam o porque abandonei tantos anos de henê quente, se eu ia deixar meu cabelo “duro” assim mesmo, se não ia “passar” nada pra amansar meu cabelo ou se eu relaxasse um pouquinho a raiz ia ficar show de bola… Por aí vai. Luta dentro de casa, luta fora de casa, mas o que não cessava era a minha luta interna, compreendia, mas ainda não me achava bonita, me questionava, brigava comigo mesma tentando descobrir o que era, quem eu era na frente daquele espelho.

Até que um dia, dentro do metrô uma senhora me fez o seguinte elogio : – Nossa! Que cabelo lindo! Está muito na moda né ?
Eu, imediatamente respondi: – Não sei, está? Mas, meu cabelo é assim não é por causa da moda não, é porque eu sou assim. ( Risos).

Na mesma hora a senhora fechou a cara, me bateu um sentimento de culpa por respondê-la tão agressivamente, entretanto me foi surgindo uma segurança indescritível e após uma felicidade imensa, sorri quando me olhei no vidro do metrô, descobri ali o melhor amor de todos… o amor próprio, enfim conseguia me enxergar, enxergar o amor pela minha cor, minha herança e pelo meu cabelo, não era conveniência e nem modismo, era eu negra me descobrindo, me cicatrizando (ou tentando) e enfrentando e dizendo não a o que queriam me impor, me transformar.

Segui inquieta até a estação de Botafogo, meia sem ar, meia engasgada e chegando no trabalho, segui direto para o banheiro, lá sorri, chorei, isso tudo na frente do espelho, porém era pura felicidade, me olhei e me identifiquei, me encontrei no que sempre insistiam e insistem em apagar, a minha raiz.

A medida que minha segurança e certeza cresciam, meu cabelo também cumpria o mesmo processo e fomos e estamos crescendo juntos, e isto é extremamente fantástico.

Como pesquisei muito na internet, como cuidar do cabelo crespo, encontrei páginas extremamente maravilhosas que realizam um verdadeiro trabalho de terapia. Eu, em particular enchi o saco das Meninas Black Power e elas me ajudaram muito neste processo, era verdadeiramente uma terapia online, porém notava que não era a única e veio a necessidade de fazer algo por nós, que passamos por este processo, criei a Indiretas Crespas, que no início era somente para fazer as indiretas para quem tinha cabelo crespo, já que não via nenhuma indireta que sequer mencionasse a valorização do cabelo crespo, só que foi tomando uma proporção enorme e comecei a receber mensagens de amigas, segue abaixo o trecho de uma conversa com uma fã da página, que autorizou a publicação desde que sua identidade fosse mantida em sigilo:

“Mas venho me questionando: está errado não achar o MEU tipo de crespo bonito? Acordar de manhã e ver a bagunça é terrível. Tenho dores de cabeça se dormir com ele amarrado (com tranças tudo bem), acordo sem lenço ou touca. Ele ainda está curto.”

Somos anuladas, obrigadas a nos moldar e encaixar em um ideal de ego branco, por tantas várias vezes li a seguinte frase: ”Eu nem sei mais como meu cabelo é de verdade!”

Nós não nos conhecemos, eu quando cogitei a ideia de me livrar de vez do henê foi um pouco antes de entrar para faculdade, eu simplesmente não queria mais meu couro cabeludo queimado, ferido e resolvi cortar e por implante, ainda não satisfeita, porém amando o volume do cabelo cacheado, tirei o implante e fui tentar fazer o permanente, sentindo o meu cabelo percebi que ele só ficava no volume que eu queria quando eu não passava a química, foi então que resolvi cortar tudo, debati com a minha família, alguns amigos a minha posição, e me redescobri como parte de um todo que tem liberdade de ser o que realmente é, sigo sedenta pela minha cultura e história, além de lutar para que a mulher negra possa se achar linda ao natural, que não negue suas raízes e que se ame plenamente e é claro, amando me olhar no espelho .

(1) Quando uma negra corta os cabelos bem curtos para que cresça ao natural.