Dulci Lima para as Blogueiras Negras

Dia desses recebi de um amigo o convite para um seminário sobre raça e gênero que levava o nome de Maria de Lurdes Nascimento. Uma pequena nota de rodapé descrevia brevemente quem teria sido Maria Nascimento: assistente social, primeira esposa de Abdias do Nascimento, uma das fundadoras do Teatro Experimental do Negro e do jornal Quilombo onde assinava a coluna “Fala a mulher”. Também foi fundadora do Conselho Nacional de Mulheres Negras (1950).

Imediatamente me interessei por ela e saí ao seu encalço. Após rastrear alguns de seus passos, me entristeci ao notar que Maria desaparece no ar. Algumas tímidas menções aqui e acolá, mas nada além do que acabei de mencionar. Nem mesmo o importante livro “Mulheres Negras do Brasil” (da REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano) dá conta de fornecer mais informações sobre ela (felizmente há pelo menos uma fotografia).

Fiquei me perguntando: o que teria acontecido com Maria Nascimento?

Se até muito recentemente praticamente não existia nada sobre a história da população negra após a abolição da escravatura, a lacuna em relação à história da mulher negra especificamente é ainda maior. No caso de Maria Nascimento há o agravante de ter sido esposa de um dos maiores expoentes do Movimento Negro Brasileiro: Abdias do Nascimento. Esse fator pode ter sido um dos elementos determinantes para seu “esquecimento” se considerarmos a imponência da figura de Abdias. Mas, não há informação suficiente para sustentar essa afirmação, razão pela qual não vou me ater a esse aspecto.

O fato é que a invisibilidade na historiografia oficial é mais uma entre as muitas dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras. Por isso o Feminismo Negro mantém entre seus temas fundamentais a salvaguarda de uma memória feita de resistência e de lutas onde a mulher negra tem seu lugar como protagonista.

É fato que a historiografia deixa muito a desejar quando o assunto é a história da mulher. Os livros de história – especialmente aqueles utilizados em salas de aula – insistem em contar uma história feita de grandes acontecimentos e protagonizada por homens (em sua maioria jovens, heterossexuais e brancos). A história que os livros didáticos oferecem aos seus usuários não contempla a multiplicidade da população brasileira. Aliás, não contempla nem mesmo outras regiões do mundo (permanecemos intoxicados pela tradição europeia).

Claro que seria necessária uma análise mais aprofundada sobre a ausência da mulher nos manuais de história, mas não é o caso aqui. O importante é mencionar que é recente, muito recente o estudo da mulher na ciência histórica. Só nos anos 1980 é que se definiu um campo de estudos sobre o assunto e, embora o número de pesquisadores que se debruçam sobre o tema venha crescendo, ainda existem poucos trabalhos e há pouca abertura de espaços para essa discussão nos programas de pós-graduação. As feministas têm sido as grandes contribuintes para mudanças nesse cenário, por questionarem a centralidade masculina nas narrativas históricas e por assumirem, elas próprias, as pesquisas, escrita e divulgação da história das mulheres. Acredito e defendo que as mulheres devem sim tomar a dianteira dessas pesquisas. Isso não significa que pesquisadores do sexo masculino não possam ou devam se envolver nessas discussões. Podem e devem! Mas, o papel desempenhado pelas mulheres nesse caso é fundamental!

Quanto à Maria Nascimento e outras tantas mulheres negras que tiveram suas histórias esquecidas ou tratadas de forma leviana – como é o caso de Chica da Silva -, elas seguem aguardando que nós tomemos a dianteira de pesquisas sérias sobre suas vidas e façamos vir a público suas lutas diárias em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.