Incrível como o blackface ainda é encarado como brincadeira. Pintar a cara de preto, usar perucas feitas de palha de aço ou qualquer material “ruim” para representar nossos cabelos, ultrapassar o limite dos lábios com batom vermelho para aludir a uma boca maior, nada disso é caracterização, nada disso é “composição de personagem”, nada disso é inocente: tudo isso, junto e misturado, é uma das faces mais odiosas do racismo, porque se traveste de piada.

A página “Um sábado qualquer” postou no dia 09/07 uma foto em que um homem aparecia fazendo blackface fantasiado de sereia às margens do que parecia ser um valão.

Não bastasse o blackface por si só ser um problema, ainda temos que lidar com comentários extremamente maldosos e igualmente racistas sobre essa estereotipação do negro e de suas características. É um festival de horror ver as pessoas destilarem seu racismo disfarçado de comentários engraçados e espirituosos. Vejamos:

Walditônio Lopes: “Taca fogo antes que solte ovos!!!”
Vagner Borges:“Sereia depois do incêndio!!”
Rosemberb Saraiva: “É fake, da pra ver q essa água n é mto saudavel pra sereias”
Anderson Meireles: “É sereia e ainda tem direito a cotas”
Carlos Ang: “Isso que dá jogar lixo no rio”
Erika Santos:“Essa sereia, com certeza, caiu no lodo”
Heloísa Rafaela: “Se isso é sereia imagine o Satanás”
Victor Hugo Monitini: “A Sereia da Favela Atlatida Perdidona”
Washington Alves Ferrara: “google… vc quis dizer sumreia ?… é um misto de mussum e sereia.”

(Bom, esse texto foi finalizado por volta das 17hs; certamente o número de chorume aumentou de lá pra cá).

Vocês repararam nas associações do negro com incêndio, falta de saúde, lixo, lodo, satanás, favela, Mussum? Pois é, são essas mesmas pessoas que – se interrogadas – vão dizer que não são racistas, que foi apenas uma piada. Mas não nos enganemos: o blackface instiga e fomenta o racismo, coloca o negro e suas características no mesmo lugar de exposição de Sarah Baartman, incitando reações que quase nunca se furtam de serem perversas: vejam, riam, julguem!

Qual é, afinal, a graça do blackface? É a tinta preta? É a boca sem dente? É a boca hiperdimensionada? É o cabelo feito com esponja de aço? É a tentativa de estereotipação da mulher negra? É tudo junto? Certamente deve ser tudo junto…
Mas não desistamos: ao menos o blackface revela a trueface das pessoas.”

Imagem destacada – Um sábado qualquer.