Sobre Escalas, Colorismo e Padrões de Aceitação

 Escalas possuem o desígnio de fragmentar sub-tópicos afim de uma comparação sobre especificidades presentes em cada um deles, estabelecendo assim, parâmetros. Criadores de tal ferramenta -nós, humanos- somos também dotados de sub-tópicos físicos e intelectuais com especificidades que incluem em sua junção tão complexa, graus diferentes de pigmentação da pele e de fenótipos da face. Pessoas brancas são classificadas em loiras, morenas e uma infinidade de subdivisões, enquanto a pele negra é classificada exclusivamente diante de uma escala que mede a proximidade com o padrão eurocêntrico ou com o padrão negroide, o que influencia diretamente na visibilidade social de determinado indivíduo e a forma como ele será desenvolvido em nosso meio. Mas afinal, porque há uma escala separatista e o que a deixa firme dentro de uma sociedade tão “miscigenada”, “igualitária” e “livre de racismo”?

Colorismo. De modo geral essa nova e estranha palavra remete um debate sobre cor. E, de fato, é tudo sobre cor. A cor dos negros, a cor da dor. O colorismo nada mais é que uma escala fragmentada em diversas tonalidades entre os negros e que porta em suas extremidades as cores branca e negra. Ao longo de seu prolongamento, de um extremo para outro, há uma espécie de degradê com tons de cor e até mesmo diferentes fenótipos de rosto relativos a diferentes esteriótipos negros até se chegar a equiparação com o padrão eurocêntrico. Não, não é uma escala concreta, visível, tocável ou palpável. Isso é o que a deixa mais perigosa: sua presença é latente, mas sua visibilidade é subjetiva. Podemos afirmar que ela existe justamente por ela se fazer presente na vida e história de todo negro desde seu nascimento e de forma tão onipresente que se torna aceita e muito bem naturalizada. O colorismo, em termos práticos, é uma arma do racismo velado existente no Brasil para “embranquecer” os negros mais aceitos e ocultar os que possuem em sua conjunção traços e cores mais fortes, uma pigmentação e fenótipo que “denuncia” sua negritude de forma irreparável, do ponto de vista das táticas racistas. O objetivo da régua colorista é simples e direto: manter padrões estéticos inabaláveis… os padrões europeus de beleza. Quanto mais próximo do padrão vigente de beleza (cabelos lisos ou cacheados ondulados/definidos, pigmentação mais clara, traços estabelecidos como “mais finos/bonitos” em comparação com os traços de marco que são presentes na negritude, magreza e afins…) um negro for, mais aceito em sociedade e alvo de tentativas de embranquecimento ele será. O interessante mesmo é perceber que essa tentativa da branquitude de segregar belezas se baseando em seu próprio parâmetro europeu se faz errôneo e ilusório, a partir do momento em que temos povos da África que possuem em suas características físicas esses “traços finos/pele não tão negra” e o possuem por assim o serem, sem interferência branca em suas estruturas internas. Negros e negras devem ter sua beleza reconhecida por o serem, e não por se aproximarem de uma estética que não lhes representa e só tende a lhes deturpar.

É importante frisar, para melhor entendimento, o que dois termos presentes nesse texto representam:

Maior aceitação

É de conhecimento geral (ou deveria ser) que brancos possuem privilégios e predileções no que se trata de visibilidade social (e tantos outros aspectos que já não cabem em definições), tanto é que ainda hão inúmeros casos de negros capacitados que perdem vagas no mercado de trabalho para pessoas brancas que não são tão qualificadas assim, ou até mesmo não são admitidos numa vaga de emprego por não apresentarem o “perfil da empresa”. Esse perfil nós já sabemos de cor e salteado. A abertura para a ascensão negra no nosso atual sistema continua sendo reservada para os negros de pigmentação menos marcada, com cabelos de cachos definidos e sem volume ou alisados e traços próximos do padrão de beleza imposto. Isso é preocupante. A vastidão de armas criadas pela branquitude é extensa, indo de produtos alisadores de cabelo até processos de embranquecimento da pele. Ser negro é taxado como ser negativo no sistema atual, e quanto mais embranquecido um negro for, mais ilusoriamente aceito ele será.

Embranquecimento

É quase que surreal utilizar essa palavra para designar ações pífias de um território predominantemente negro, mas sim, o processo embranquecedor existe. O embranquecimento se baseia na negação da identidade negra de um indivíduo, fazendo-o adequar-se a um molde de beleza/costumes/trejeitos que muitas vezes não são de seu feitio. Vocativos como “morena”, “mulata”, índia” e afins são exemplos práticos de como nos é negada a todo instante a nossa consciência do que somos. Mulheres negras dotadas de características físicas “dentro dos conformes” (já discutidas anteriormente) tendem a, começando da infância, aceitarem ou não se darem conta da retirada de sua consciência negra que acontece em prol de um destaque racista e excludente (aparentemente magnífico) que as eleva ao patamar de um referencial de beleza negra, um espécime exótico/raro, um ser que tem sua beleza reconhecida somente diante do distanciamento de seu passado e identidade negra. Essa situação absurda tende a deturpar essas mulheres sobre suas respectivas identidades enquanto negras. Em consumação desse fato, constantemente passam a reproduzir discursos racistas e adorarem seus lugares de “quase brancas”. Isso compromete totalmente a mentalidade e a empatia dessas mulheres… seu auto-conhecimento fica comprometido.

De outro lado, surge uma tristeza das negras tidas como “inocultáveis” (excluídas em primeiro grau, por terem a cor latente e o fenótipo negro perfeitamente visível), por serem sempre reservadas ao silenciamento, chacota e solidão. De um lado da régua colorista temos a negação da identidade e fantasias/alienações sobre a realidade, enquanto de outro temos a dor da exclusão, das comparações destrutivas e da falta de representatividade.

O colorismo está aí presente na vida de qualquer negro, mesmo que o mesmo nunca tenha percebido. Ele encaixa negras contra negras (claras x escuras), aumenta a competição entre mulheres e o constante medo da solidão por ambos os lados, dissemina a ideia de maior aceitação para uns e menor aceitação para outros, dissemina a ideia da era escravocrata de negras para fornicar versus negras para trabalhar/usurpar, favorece a fluidez da massacrante e humilhante indústria da beleza que só faz enriquecer com a venda de cosméticos que funcionam como elementos apagadores de negritude, mantém uma classe de negros satisfeita com a ideia de quase-branquitude em detrimento de outra que é alvo de imposições sobre uma inferioridade que de fato não existe, mantém a liderança sobre o que deve ou não ser visibilizado/do que é ou não belo nas mãos de pessoas brancas… sua serventia para a branquitude ultrapassa os limites desse texto.

É preciso que nós, negros e negras, tenhamos em mãos a vontade de quebrar com essas estereotipações que só nos segregam e entristecem e levantemos com nossa voz para romper com quaisquer imposições que sejam desleais com nossas particularidades, jeitos e belezas. Somos fortes, por mais que tentem nos mostrar o contrário. O silenciamento e a ausência de representatividade com nossa cultura e beleza deve ser erradicado. No mundo da “teoria da miscigenação e tratamento igualitário para todos”, nós bem sabemos o que é não ter o mínimo de respeito pelo que somos e o quanto a falácia de igualdade independente de etnia, raça, cultura e religião segue sendo disseminada. Teorias bonitas que não agregam quem mais precisa. Liberdade negada para quem mais necessita voar.

 

 

Texto originalmente publicado em Desabafo Social, em 1 de março de 2015.

Imagem destacada: Samba (1925) – Di Cavalcanti