Ele me ama, mas tem nojo de mim. E isso é tão visível e pertinente na nossa relação, talvez pela minha maturidade mais pertinente ou talvez por descuido e falta de experiência da parte dele. É extremamente doloroso e constrangedor estar nessa situação. Eu tenho vontade de chorar e sinto minha autoestima se esvaindo gradativamente, mesmo estando no controle e conseguindo enxergar criticamente esse enredo. Eu estou vendo o que está acontecendo e sinto que ele não consegue dimensionar isso. Ele não percebe a maneira cruel que está a me afetar. Ele nunca se relacionou com uma mulher negra antes… Ele tem nojo de mim porque sou negra.

Eu nunca me relacionei com alguém mais jovem que eu. Muito pelo contrário, em todos meus relacionamentos sempre fui a ‘bem mais jovem’. Até que um belo dia, ele apareceu na minha vida. E, diferente de todos os outros, me fez balançar. Despertou em mim meus melhores sentimentos, me fez sorrir sinceramente. Ele era de verdade, era destemido, desprovido dos clichês e mesquinharias. Foi uma das pessoas mais irreverentes que já conheci, fazia questão de ser ele mesmo, de deixar claro que ‘os outros’ são só ‘os outros’ e que é a gente que sabe da gente. Era só um menino, mas que me acrescentou e me engrandeceu como ninguém. E amá-lo foi realmente fácil. Mesmo eu tendo quisto por diversas vezes ir embora daquilo ali que estava se consolidando, quando dei por mim já estava mergulhada até o pescoço naquele amor peculiar. E o amei cada segundo desde então.

Mas nem tudo são flores, ainda mais num relacionamento cujo qual eu faço parte. Quem conhece minha história sabe que significo basicamente uma ‘encrenca’. Sou um pacote difícil, complicado e tem que ter muita audácia para entrar nessa. Ele teve um pouco disso. Entrou e no meio do caminho reconsiderou, ficou, mas não por completo. O que eu mais admirei nele desde o inicio, foi a sua transparência, lisura. E talvez isso tenha nos levado a essa situação: ele jamais seria desonesto comigo, mesmo que isso significasse me magoar.

Ser mulher e ser negra. Duas vezes oprimida, duas vezes discriminada, duas vezes marginalizada, pelo gênero e pela cor. Não me representam em comerciais felizes, nem nas capas de revistas, nem em novelas ou filmes, minha beleza, minhas virtudes nunca estão em evidência. Não sou o ideal de beleza masculino e a maioria desses se decepciona bastante por eu ser negra e não ter uma bunda grande, pernas grossas, um corpo sexy. Porque aí parece que não me sobra mais nada. Não sou idealizada como uma mulher forte, sensual, bela, bem-sucedida. Geralmente me idealizam faxinando a casa dessas mulheres – ou seminua rebolando pra gringo. Então é comum que meus relacionamentos sejam rápidos e sexuais. Porque sempre vai haver alguém ‘melhor’ que eu para algo sério e duradouro. Eu sou na maioria das vezes apenas aperitivo. E dessa vez quase foi diferente, quase…

Para um cara loiro, olhos claros, classe média e na flor da juventude, é quase uma afronta se envolver com uma mulher negra. É um ato de coragem! Mas amor é intimidade e intimidade é você se doando, abrindo o seu íntimo ao outro. E algumas pessoas não estão preparadas para lidar. Ele não estava.

“Você já se relacionou com alguma mulher negra, além de mim?” – e eu ouvi algumas opções que nem na Alemanha seriam consideradas negras. E então eu percebi o motivo do incomodo todo: eu era a primeira. E ele, como a grande maioria, compactua da cultura racista velada da nossa sociedade. Onde ser negro é estar em um patamar inferior ao de qualquer outra pessoa. Então eu comecei a perceber que em meio a certa euforia de estar comigo, existia uma tensão, um anseio por saber como eu vivia, lidava e me sentia com relação ao que sou. E então, chegamos aos finalmentes: o sexo.

Essa era uma relação diferente porque não era sexual. Obviamente havia, sim, uma enorme atração física, mas tinha algo maior que tesão ali. Mas com o passar do tempo comecei a perceber que me sentia desconfortável nas relações sexuais, que eram bastante escassas inclusive. Eu adorava a companhia, queria estar o maior tempo possível junto e no começo nem prestei atenção. Mas claro, como venho de relações que eram necessariamente sexuais, comecei a perceber que ali alguma coisa não estava acontecendo. Fiquei bolada. Pensava: ‘estou gorda demais’ ou ‘sou péssima de cama!’ e isso começou a me intimidar. Nas poucas ocasiões em que transávamos, era um sexo extremamente casual. Era gostoso, mas eu sempre me sentia incomodada depois.

Comecei a analisar a situação. Ele estava me inibindo e a recíproca era verdadeira. O tempo ia passando e as relações sexuais, diminuindo. Fazíamos várias coisas juntos, estávamos na maioria das vezes sozinhos e mesmo assim, sexo era cada vez mais irrelevante. Pensei um milhão de pressupostos para que eu pudesse interpretar aquilo tudo, sem que fosse eu o problema. Mas os indícios iam me mostrando o contrário: um cara na flor-da-idade não gostar muito de sexo? Fora de cogitação. Porque se eu gostava dele, ele gostava de mim e estávamos juntos, tínhamos que no mínimo transar muito e gostoso. Então houve uma vez, um diálogo onde ele cita uma ex-namorada como sendo extremamente insuportável mas ‘gostosa e boa de cama’ e que por esse motivo delongava e tolerava a relação. Sim, quis vomitar no pé dele, mas parei de prestar atenção e comecei a me martirizar: era isso então, ele me achava péssima. Resolvi que precisávamos falar no assunto, dei a brecha e ele disse que gostava muito de mim e que gostava de transar comigo, mas também sentia essa tensão no sexo, como se eu o intimidasse e vice-versa. Era só relaxar. Ia rolar.

Então comecei a matutar sobre isso, sobre todas as vezes que transamos. Sobre como todas as vezes que transamos o sinal era um banho. Sobre como todas as vezes que transávamos, começávamos no banho. Sobre como até ali eu não tinha me dado conta de que o ponto de partida pro nosso sexo era um banho. Sobre como subliminarmente isso denotava algo que pela primeira vez na vida eu não queria entender. Sobre como que inconsciente ou conscientemente ele me achava suja… Por ser negra, por todos os tons da minha pele que não remetem ao rosa. Ao saudável e limpo rosa.

Então eu pude perceber, como uma faca em brasa entrando lentamente no vão das minhas costelas, que onde quer que eu fosse, quem quer que eu amasse, eu seria julgada. Eu seria estereotipada como sendo negra e ser negra nessa sociedade onde o racismo é culturalmente intrincado, é ser inferior, é ser suja, é ser vil, é não ter competência, não ter capacidade. É ser menos sensual, menos merecedora, menos evidente. É ser segundo plano, ser a outra, é ter que aceitar, é ter que aguentar. É ser meio-amada, mais ou menos digna. É ter que viver pela metade, as relações, a vida.

Mas eu digo não. Eu não vou baixar a cabeça e aceitar que eu seja mais uma nas estatísticas. Sou muito mulher, muito sensual, muito capaz. Não me revolto a essas manifestações individuais porque eu sei, é inerente a nossa sociedade, a nossa cultura. Mas ainda assim eu nado contra a corrente e digo não! Eu não me sinto suja porque não sou! Eu não me sinto sem sal, porque não sou! E não preciso que me digam o que sou porque eu sei melhor que ninguém. Eu sou inteira, eu sou livre. Posso não estar aqui pra ver uma sociedade justa e mais igualitária, onde a cor da pele não seja mais importante que a cor da alma. Mas enquanto eu estiver aqui, eu sigo lutando por essa ideologia, para que meus legatários se sintam inteiros e não tenham que, o tempo todo, juntar seus pedaços e se reconstruir. Para que sejam livres de corpo, mente e alma. Para que honrem todas minhas dores e enfim, para que toda minha vivência não tenha sido em vão.

E quem diria que sou só mais “uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer no planeta”!