Quando o assunto é alisar ou não os nossos cabelos, ouvimos uma série de justificativas que procuram legitimar o processo de alteração da sua estrutura natural, conduzindo ao apagamento daquilo que é parte de nossa representação identitária. Durante muito tempo meu cabelo foi pauta de inúmeras crises em relação a minha identidade e autoestima. O desconforto com relação a ele atingiu as mais diversas esferas: desde a noção de toque à abertura para a intimidade. Meus lugares de pertencimento tinham como medida o grau de exposição a que meus cabelos estariam submetidos. Eu quase nunca tinha coragem de ir ao clube, à praia ou a passeios em que a moldura estabelecida previamente em casa corresse o risco de ser desfeita por adversidades inerentes a existência de qualquer indivíduo. Os espaços eram interditos e a tensão sempre me acompanhava com um “se” latejando em minha cabeça: “e se de repente…”. Das respostas sobressaíam um arcabouço infinito de objetos caso as ideias de meu imaginário se concretizassem. Dormir na casa de uma amiga exigia uma intimidade prévia só atingida com anos de convivência. E nem sempre esses anos existiam. O que existia, portanto, era a minha ausência em inúmeros lugares.

Lembro-me de sempre ir à escola com o mesmo penteado. Foram anos e anos deitando a cabeleira no colo de minha mãe para que ela a trançasse. Eu gostava do penteado. Gostei até o dia em que pude me deparar mais concretamente com os penteados das outras meninas. Sobressaíam os cabelos lisos sempre. Do contraste, a resolução: alisar o cabelo. No início eu achava que o alisamento seria uma simples escolha pessoal e que esta deveria andar a par do que eu almejava: um rabo de cavalo. Essa foi na realidade a minha primeira justificativa e muitas de nós se agarram a este argumento na tentativa de impregnar autonomia a algo que muitas vezes não é tão autônomo. Alisar não foi e nem sempre é uma simples escolha, menos ainda reduzida às confabulações pessoais. Não é por acaso que o cabelo liso, o ‘controle’ do volume ou a neurose com relação a um penteado permeiem tanto nosso cotidiano. Quando eu era pequena, a toalha de banho comprida colocada em cima da minha cabeça não estava lá por uma simples escolha pessoal, eu a colocava daquele jeito para imitar não só o formato dos cabelos lisos, mas todas as outras performances que eu havia observado ao longo de minha primeira infância atribuindo a ela o devido status. Simular um rabo de cavalo, jogá-lo de um lado para o outro e imaginá-lo deslizando em meu rosto, não foi resultado de algo íntimo, pelo contrário, culminou a partir das pressões exercidas pelo meio em que eu estava inserida, um meio cheio de Xuxas, Maras, Angélicas, paquitas, amiguinhos da turma da Mônica. Eu definitivamente não o fazia por uma simples escolha, eu queria aquilo porque me fora apresentado como representação do ‘belo’. Aos treze anos de idade eu alisei o meu cabelo não porque aleatoriamente achei que seria interessante. Eu o fiz porque tinha isso como referência e só parei quando as consequências foram mais drásticas do que a suposta recompensa pela tentativa de adequação. Perdi cabelo e permaneci sem ser poupada pelos colegas dos apelidos estigmatizantes. Os apelidos e as comparações não me impulsionavam a compreender e amar a minha identidade e, consequentemente, o meu cabelo natural, pelo contrário, me faziam enxergá-los como ´defeitos´ de meu corpo. A questão não era ter ou não cabelos lisos, era apagar o que me afastava do padrão de beleza constituído pelos cabelos que as meninas brancas tinham.

Naquele momento, as experiências com o cabelo crespo tinha sido quase sempre traumatizantes. Pudera: vivemos em um país racista que passou por um processo profundo de embranquecimento da população. O tempo todo somos apedrejadas com os padrões de beleza que colocam a mulher branca, de olhos claros e cabelo liso como algo a ser alcançado. Além disso, somos quase sempre responsabilizadas pela nossa aparência e cobradas a respeito da quantidade de esforço empreendido para alcançar as exigências dos padrões estéticos. Alisar o cabelo não foi uma simples escolha portanto, foi, na realidade, uma tentativa de me aproximar inconscientemente desse padrão. Hoje vejo como é imprescindível problematizarmos esse processo uma vez que ele carrega consigo e tentativa de esconder a textura natural dos nossos cabelos crespos.

Ainda naquele contexto de minha adolescência eu insisti na lisura e acreditei por um largo período que o objetivo era apenas agradar a mim mesma. Ledo engano. Geralmente nos sentimos bem quando o coletivo reage de maneira positiva e de acordo com a nossa expectativa. Assumir o cabelo crespo geraria expectativa negativa porque vivemos em uma sociedade racista que o entende como ‘feio’. Nossas especificidades nunca são consideradas. Quando afirmamos que pretendemos alisar para “ficar mais bonita”, afirmamos junto com isso que o cabelo crespo é o oposto. Agradar a si nem sempre é algo aleatório, pelo contrário: a dinâmica de nossa sociedade nos condiciona a agir de acordo com a expectativa coletiva. No mundo da Xuxa, eu não queria o distinto daquilo.

Por fim, achei que o alisamento também facilitaria minha vida. A dinâmica relacionada à forma como cuidamos de nossos cabelos é muito influenciada pela estética que somos condicionadas a alcançar. Quantas horas por dia ou por semana dedicamos aos nossos cabelos? Quantas tensões sofremos ao longo do dia por conta deles? Alisar não é uma ação isolada, ele exige uma manutenção constante que não facilita em nada nossas vidas. Quando eu era adolescente, ao sair de casa com o cabelo abarrotado de um misto de creme de pentear e gel, eu carregava comigo um kit de precauções caso chovesse, caso eu precisasse de mais presilhas, mais lacinhos, mais creme, mais contenção, mais tudo. Percebam como conter o cabelo de alguma forma era sempre a meta. Esta tensão nunca facilitou a minha vida, pelo contrário, sempre restringiu minhas escolhas e os espaços em que eu me sentia à vontade para estar, afetando por completo minha autoestima e meu processo de sociabilidade.

Das tentativas frustradas e contradições, vieram à tona novas referências. O processo de entendimento de minha identidade negra me fizeram ressignificar o que o cabelo crespo representava. Para além disso: consegui descortinar em minha cabeleira “a surpresa de mil espertas espirais”, contrariando a “monotonia da lisura”[1]. Meus cabelos crespos não são ‘defeitos’ de meu corpo, eles fazem parte da minha identidade negra.

O poeta Cuti, em seu poema “Ferro” afirma: “Primeiro o ferro marca/ a violência nas costas/ Depois o ferro alisa a vergonha nos cabelos”. Sim, antes ele nos açoitava deixando marcas em nossas costas, depois, esse mesmo objeto passou a alisar os nossos cabelos. São formas de violência que nos coagem a rejeitar quem somos e aquilo que caracteriza nossa identidade. Precisamos sim, jogar o ferro fora e “quebrar todos os elos dessa corrente de desesperos”. Precisamos deixar essas dores com o cabelo. Precisamos amar a nós mesmas.

Ferro

Primeiro o ferro marca
a violência nas costas
Depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
e quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos.

 

[1] Poema “Cabelos que negros” de Márcio Barbosa. Disponível em <http://oraliturafro.blogspot.com.br/2010/02/oliveira-silveira-cabelos-que-negros.html>. Acesso em 20 de maio de 2015.

Imagem destacada: Revista Afro.com