Eu tive a sorte (sim, MUITA SORTE) de ter escolhido, depois de muitas dúvidas, dores, sacrifícios e anseios, trabalhar com comunicação e arte, o que me permite ser negra sem muitos traumas. Quer dizer, sem adicionar mais aos que já possuo. Eis que, pela primeira vez na minha vida, fui trabalhar em uma empresa em que eu era a única pessoa negra.

Várias de vocês aí me lendo devem com certeza conhecer essa sensação. Eu já havia experienciado algo do tipo na escola. Estudei boa parte da vida em escola particular, em bairro de classe média, o que significa mesmo ser a “cota racial” da instituição. Aos 5 anos de idade, meu apelido era cocô. Era a única negra da turma e apenas mais duas crianças na escolinha falavam comigo e/ou me tratavam com algum respeito. Quando haviam mais dois na sala, ficava muito feliz. E fazia logo amizade, claro. Mas o ambiente escolar é diferente. Ou a criança/adolescente que sofre o racismo não o reconhece como tal e não se incomoda conscientemente, ou sente a dor, mas acredita que é assim mesmo, ou ainda responde logo na lata, xinga, briga, responde com ironia, se defende como dá.

No trabalho é diferente. Ainda mais em tempos como estes, em que emprego anda difícil e que as contas só aumentam, a gente engole muito sapo. Sei bem que nada disso é novidade. Sempre ouvi as histórias das minhas avós, ambas empregadas domésticas em algum momento de suas vidas (minha avó paterna foi feirante e funcionária da Santa Casa, também), e sempre soube que ser negra e não ser a patroa significa ser humilhada, maltratada, ou no mínimo ter uma história de abuso para contar.

Sei que sou privilegiada. Abri o texto falando disso, não é mesmo? Minha escolha de carreira me permitiu estar com mais negros (as cotas nas universidades públicas ajudaram muito nesse processo) e com brancos que, ainda que sem reconhecer privilégios, estavam mais acostumados com a diversidade. Por isso essa experiência me saltou aos olhos. Uma equipe de 10 pessoas. Onde na população do país, metade seriam negras e pardas. Eu era a única. E, talvez por isso, talvez por acharem que eu era “de paz” e “tranquila”, era obrigada a ouvir coisas do tipo “Madureira só tem gente feia”. Ou ainda “para que serve olho azul numa pessoa feia? ”.

A primeira vez que ouvi, fiquei em choque. Não pelo teor das frases. Não era primeira vez que eu ouvia que Madureira (para quem não conhece, um bairro do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro, onde a maioria da população é negra e pobre, onde ficam as quadras da Portela e do Império Serrano, escolas de samba tradicionalíssimas da cidade) tem gente feia. A associação população majoritariamente negra = pessoas feias não é novidade pra nenhum de nós, não é mesmo?

Meu espanto sempre foi “Como é que a pessoa tem a pachorra de dizer, na minha cara, que lugar com gente negra é lugar de gente feia? Eu sou invisível? ”. Sim, sou. Posso ser aceita por ser exótica (porque uso meu cabelo natural), por ser “bonita para uma negra”, mas a cor da minha pele é diminuída e torna-se invisível para que não precise ser discutida. Mas, e a raiva que sobe quando se escuta uma coisa dessas? Como faz para revidar sem perder o emprego, quando é o seu patrão quem está dizendo isso? Por que sim, é preciso responder, ainda que com comentários sobre outros casos de racismo. Caso contrário, se você for como eu, vai explodir de ódio. E não vale a pena passar mal e se podar por conta de ninguém, no final das contas.

Minha forma de lidar sempre é usar a ironia. Apele para a vergonha que as pessoas adquiriram individualmente de serem tachadas de racistas. Elas são. Mas rola uma vergonha social de admitir, sabe? Então, se acontecer algo do tipo, apenas comente, em tom casual “É, tem muita gente negra/pobre lá, né? ”. E continue o seu trabalho. Sugiro, também, caprichar no turbante. Ou no 4C. Ou ainda no lenço, tranças, brincão com o mapa da África.

É DIFÍCIL. FOI, PARA MIM QUE SÓ PASSEI POR ISSO AGORA, DEPOIS DE ANOS NO MERCADO DE TRABALHO. DEVE SER AINDA PIOR PARA VOCÊ QUE VIVENCIA TODOS OS DIAS HÁ ANOS. MAS POR FAVOR, NÃO SE CALE. NÃO ABAIXE A CABEÇA. NÃO DEIXE QUE PENSEM QUE ESTÁ TUDO BEM. NÃO ESTÁ NÃO. APROVEITE QUE ESTAMOS COMEÇANDO O NOVEMBRO NEGRO E IMPONHA (NA MEDIDA DO POSSÍVEL) A SUA EXISTÊNCIA. ESTAMOS COMBATENDO A INVISIBILIDADE DO POVO NEGRO. E ESSE É UM TRABALHO DE ANDORINHA. CADA UM LEVANDO A SUA GOTA.

Quanto à resposta, provavelmente, se o constrangimento coletivo for muito grande e todos começarem a te atacar de ver racismo em tudo, de que não é porque são negros, que até tem umas brancas que também são feias, blábláblá, retruque “Eu só vejo racismo onde tem”. É, eu sei que na maioria dos empregos, você não vai ter a liberdade de responder em voz alta. Nem mesmo de usar seu cabelo 4C, suas tranças, seus lenços e turbantes. Para não surtar, responda ainda que mentalmente. E caso fale em voz alta e se voltem contra você, posso te indicar um bom advogado. 😉