Em um trecho do discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres (Women’s March) ocorrida no dia 21 de janeiro em Washington nos Estados Unidos, ela afirma que:

“Não podemos esquecer que vidas negras realmente importam. Este é um país que foi ancorado na escravidão e no colonialismo, o que significa, para melhor ou pior, que a própria história dos Estados Unidos é uma história de imigração e escravização”. (DAVIS, 2017).

A marcha que levou milhares de pessoas às ruas é um reflexo das incertezas que incorrem naquele país, após a chegada de Donald Trump ao poder. Os discursos sexistas, racistas e xenófobos do presidente estadunidense, apontam o caminho da sua maneira de governar em termos regional e global.

Se pensarmos o curso da história, este não é linear, muito menos evolutivo. Direitos conquistados por meio das lutas de movimentos sociais, sempre estarão sob ameaça, ainda que expressas em legislação vigente. Isso porque em uma sociedade patriarcal-racista, o Estado não garante que todas as pessoas com diferentes necessidades acessem, de forma equânime, as políticas públicas de educação, trabalho, previdência, saúde, entre outras. Por isso, Davis lembra que vidas negras importam, em referência ao movimento “Black Lives Matter”, em um contexto em que o encarceramento em massa, a pobreza, a violência e o genocídio tem como alvo a população negra.

O discurso da ativista também considera outras questões que dizem respeito à diversidade de experiências de mulheres, ao trazer para a superfície da discussão política a questão da islamofobia, do anti-semitismo, da transfobia e da importância de se pensar tais eixos de opressão no contexto neoliberal de exploração capitalista. A resistência e a luta por justiça social são feitas nas ruas, as mulheres em marcha representam um contingente significativo da população estadunidense em prol da garantia e preservação de direitos. É preciso valer-se do potencial de mobilização para deter possíveis retrocessos ao que diz respeito à assistência social, aos direitos sexuais e reprodutivos e aos direitos trabalhistas, os primeiros a serem atingidos.

É possível apontar o caráter interseccional da marcha, uma vez que, imigrantes, imigrantes lésbicas, refugiadas, muçulmanas, muçulmanas negras, latinas e trabalhadoras desempregadas de todas as raças fizeram coro contra a intolerância e a perda de direitos. Isso mostra que as mulheres são constituídas por diferentes marcadores sociais indissociáveis uns dos outros. É impossível pensar qualquer levante de mulheres sem considerar suas diferentes visões de mundo. Também é importante lembrar que a maioria das/os eleitoras/es de Trump são homens brancos que veem seus privilégios ameaçados quando os direitos das mulheres, das/os negras/os, das/os LGBTs e das/os imigrantes avançam.

Nós pertencemos a este lugar. Nós vamos defender umas as outras – tradução livre.

Uma oportunidade à autocrítica feminista

Mulheres organizadas em coletivos, ou não, estiveram nas ruas de diferentes cidades dos EUA para protestar contra aquilo que consideram uma ameaça aos seus direitos civis, políticos, econômicos e sociais. Na contemporaneidade, houveram mudanças na forma em que as mulheres se organizam, pois, embora reinvindicações somente apresentem resultado se tomarem o espaço público, a Internet tem sido um instrumento de disseminação da informação para um grande número de pessoas. Certamente o êxito da marcha do dia 21, se deu pela capacidade de organização das mulheres com o auxílio das redes sociais. Além desta mudança na maneira de se organizar, é notório que os grupos de mulheres, outrora esquecidos pelo feminismo hegemônico, criaram suas próprias estratégias de luta e defesa de suas pautas prioritárias.

bell hooks (2013) nos lembra que, no final dos anos 1960, não havia proximidade entre mulheres negras e brancas, principalmente no sul dos EUA. O que havia era apenas uma relação hierárquica em que negras eram vistas como servis e brancas como senhoras. Não havia esforço dessas últimas em reconhecer sua diferença de status racial, ao contrário, reforçavam essa diferença a fim de afirmar sua superioridade, mesmo entre aquelas que compunham a mesma classe social. Nesse sentido, o feminismo como movimento de resposta ao poder patriarcal e o desejo de transformação da realidade, não foi capaz de romper com o próprio racismo, se recusando a refletir sobre seus privilégios.

Ainda persiste a arrogância por parte de algumas feministas brancas em não considerar o racismo como estruturante das relações sociais, tratando-o apenas como uma questão “específica” ou “transversal” à discriminação de gênero. Na atualidade, a autocrítica se faz necessária, assim como o reconhecimento de que é inviável transcender as relações hierárquicas entre homens e mulheres, sem considerar as diversas formas de ser mulher. A realidade é que qualquer que seja a mobilização frente ao patriarcado, se não considerar a solidariedade política com mulheres negras, indígenas, camponesas, lésbicas, trabalhadoras, entre outras, contará apenas com ganhos residuais e temporários.

A Marcha das Mulheres Negras e as lutas contemporâneas
Com o intuito de dar maior visibilidade às suas pautas, mulheres negras de todas as regiões do Brasil saíram em marcha em 18 de novembro de 2015 em Brasília. Na ocasião, foi lançado o Manifesto da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que em seu texto traz a assertiva:

“Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras”. (MANIFESTO, 2014).

Como todas as mulheres negras da diáspora nas Américas, experimentamos a negação da nossa identidade e a exclusão social e econômica que nos confere um “não lugar” nas estruturas de poder. As exclusões respaldadas por discursos de inferioridade gerados pela exploração colonial fez com que as ideias negativas sobre determinadas características fenotípicas fossem aprendidas e reiteradas pelas sociedades, configurando um componente detonador de dominação, estigmas, preconceitos, opressões e explorações de um grupo sobre outro.

Historicamente, mulheres negras não conhecemos outra realidade que não seja a do trabalho e, apesar da nossa fundamental importância no desenvolvimento econômico do país, não vemos retorno do que produzimos convertido em benefícios. O racismo e o sexismo nos expõe a todo tipo de violência e nossa experiência histórica constituiu uma trajetória de luta e resistência que não se assemelha ao discurso clássico de opressão das mulheres. Assim, a discrepância entre negras e brancas não se deve apenas ao passado histórico, mas à manutenção do racismo que sustenta as disparidades sociorraciais recentes.

Considerando que assistimos ao avanço de mulheres brancas em suas carreiras profissionais e acadêmicas a partir da cozinha de suas casas, considerando nossa ação política na manutenção da própria sobrevivência e a de nossas famílias e considerando que correspondemos aos piores indicadores sociais se comparado à população total, ainda não foi possível deitar em berço esplêndido. Por isso, mulheres negras brasileiras em seu Manifesto, ressignificam o conceito de “bem viver” para afirmar seu desejo por melhores condições de vida. Como afirma Lemos (2016), o bem viver é um conceito em construção pensado por povos andinos do Equador e da Bolívia e que se pretende uma alternativa a ideia ocidental de progresso, pautada na recuperação de saberes próprios e de respeito à natureza.

Diferentemente do que ocorreu na cobertura da Marcha das Mulheres nos EUA, a Marcha das Mulheres Negras não viu a merecida repercussão do seu protesto na comunicação de massa. Também não houve adesão de apoiadoras/es, na compreensão de que o racismo é um mal que afeta toda a sociedade. Mais que isso, a marcha foi acometida pelo desrespeito e violência de um manifestante que utilizou rojões e uma arma de fogo na tentativa de causar tumulto. No atual contexto político de golpe à democracia em que direitos trabalhistas e previdenciários estão em risco, mulheres negras continuam a resistir e a insistir que aqui vidas negras também importam.

 

Referências:
DAVIS, Angela. O discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres contra Trump. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/23/o-discurso-de-angela-davis-na-marcha-das-mulheres-contra-trump/. Acesso em 15 de fevereiro de 2017.

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

LEMOS, Rosalia. Mulheres negras marcham em 2015 pelo bem viver. SER Social, Brasília, v. 17, n. 36, p. 207-224, jan.-jun./2015.

Manifesto da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. Brasília, 2014.