Flores de Baobá mescla a linguagem poética e observacional ao acompanhar a trajetória de duas educadoras: Nyanza Bandele na Filadélfia e Priscila Dias em São Paulo. A cineasta, Gabriela Watson Aurazo realiza uma jornada a fim de estabelecer conexões entre as comunidades negras da Diáspora Africana no Brasil e Estados Unidos. Sob uma perspectiva feminina, o documentário pretende abordar as semelhanças entre as mulheres negras e a luta de cada local para alcançar a igualdade na educação.

Por que comunidades periféricas onde reside a maior parte da população negra apresentam uma enorme desigualdade ao acesso à educação de qualidade? Podemos construir uma escola que valorize nossa ancestralidade africana? Qual é a importância das mulheres negras como educadoras em nossas comunidades? Estas são algumas das questões exploradas em Flores de Baobá.

Entrevistamos Gabriela e suas respostas reveladoras mostram a luta por construir sonhos possíveis. Confere!

Adoraríamos saber mais sobre Gabriela Watson Aurazo. Quais eram seus sonhos de infância por exemplo?

Quando penso nos meus sonhos de criança, lembro que gostava muito de dança, música e esportes. Na primeira infância sonhava em ser ginasta e me inspirava na Nadia Comanesci, não conhecia nenhuma ginasta negra. Quando comecei a praticar vôlei e basquete me lembro de ficar feliz por ter mais esportistas parecidas comigo e virei fã da Marcia Fu e das jogadoras negras americanas. Por outro lado, quando penso em sonhos de infância não tem como não pensar em como filmes e programas de TV sempre me faziam ser transportada para um mundo mágico. Adorava assistir ao Castelo Rá Tim Bum, ou Contos de Fada, e depois recriar mundos imaginários nas minhas brincadeiras. Músicas, filmes sempre tiveram um poder enorme de ativar minha imaginação para escrever histórias, inventar músicas, então lógico que quando criança eu sonhava fazer algum tipo de arte, além de querer ser atleta, pensava em ser bailarina, atriz ou cantora.

Existe diferença entre os panoramas nas artes audiovisuais nos EUA, Brasil e Peru para uma mulher negra hoje?

De forma geral podemos dizer que o mercado para as pessoas negras e, por conseguinte, para mulheres negras é desigual seja no Brasil, Peru ou Estados Unidos. Desigual no sentido de termos menos oportunidades, existem poucas mulheres negras nas universidades de cinema, as poucas cineastas que conseguem entrar no sistema e produzir cinema autoral deparam-se com um sistema de financiamento que, via de regra, beneficia sempre as mesmas empresas produtoras, principalmente no Brasil onde o cinema é financiado em grande parte por editais e recursos públicos.

Nos Estados Unidos, onde o cinema é financiado principalmente pela iniciativa privada, pelos estúdios de Hollywood, organizações privadas que apoiam cinema através de editais, mas onde o cinema independente é mais forte também, notamos a escassez nas narrativas trazidas pelas mulheres negras. Apesar de os negros representarem em torno de 13% da população afro-americana, existe mais representatividade se comparado a países como Brasil e Peru. Se olharmos para os números no Brasil, um país onde 53% da população é afrodescendente, uma pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) vinculado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostrou que em 13 anos de estudo não há registro de nenhuma mulher negra dirigindo filmes comerciais. Entre 2002 a 2014, dentre os diretores dos filmes exibidos nas bilheterias, 84% dos cineastas são homens brancos, 14% mulheres brancas e, 2% homens negros. Encontramos diretoras negras em cinema independente, documentário e curtas-metragens como a Lilian Santiago, Yasmin Thayná, Larissa Fulana de Tal.

Já nos país, onde o último presidente eleito foi Barack Obama, temos um quadro mais positivo, principalmente quando olhamos para o cinema independente, além do conhecido Spike Lee, existem centenas de diretores afro-americanos, nigerianos, latinos. Ressalto a trajetória de Ava DuVernay, diretora do aclamado Selma e do documentário 13, Gina Prince-Bythewood, De Ree, Kasy Lemons, que na contramão das estatísticas têm produzido mais de um filme por década, que é a média das cineastas mulheres negras. Mas isso é cinema independente!

Ao olharmos para Hollywood, a disparidade também acontece. Um recente estudo da University of Southern California mostrou que entre os 407 filmes lançados no circuito comercial entre 2014 e 2015, apenas 53 eram dirigidos por não-brancos, e apenas 2 por mulheres negras, as diretoras Amma Asante e Ava DuVernay. Então, quer dizer quando se trata de um cinema que alcance massas e com retorno financeiro não estamos falando de diretoras negras.

No Peru, país dos meus pais, onde a população afro-peruana está conquistando alguns direitos efetivos somente nesta década, como a regulamentação da lei do racismo e da implementação de políticas públicas, a situação dos negros é ainda mais invisibilizada. Tanto que eu desconheço a existência de mulheres negras na produção e direção de cinema. Para aqueles que quiserem entender um pouco mais a situação dos negros no Peru, eu recomendo o primeiro documentário que dirigi: Nosotros, afroperuanos.

Como nasceu o projeto Flores de Baobá? Quem são suas personagens principais?

O projeto nasceu da necessidade de falar sobre a dificuldade enfrentada pela população negra em ter acesso a uma educação de qualidade. Partindo da minha própria experiência, em escolas particulares sendo quase sempre uma das únicas estudantes negras, onde alunos, professores e coordenadores tinham pouca sensibilidade para lidar com diversidade. Já na adolescência, no começo das minhas atividades mais vinculadas ao ativismo e ainda no período universitário, a constatação de que existe um sistema estrutural que torna difícil a ascensão social do negro e, caso seja possível, ela precisa existir de forma que o indivíduo se desassocie de sua identidade negra. A educação torna-se então a arma para que os negros possam de fato ter mais acesso à qualidade de vida. Entretanto, mesmo quando os negros têm a mesma qualificação que candidatos brancos, eles ainda ganham menos.

Dentro desse escopo a perspectiva escolhida e o olhar de duas professoras negras. As duas são educadoras do sistema público de ensino em regiões da periferia nas cidades onde moram, Priscila Dias Carlos, que dá aula no extremo sul da cidade de São Paulo, no Jd Vera Cruz, e Nyanza Bandele, que dava aula em escolas consideradas problemáticas, onde a maior parte dos alunos são negros e latino-americanos.

Priscila é historiadora, mãe de dois filhos e residente do Campo Limpo. Sua família migrou do Nordeste para São Paulo. O fato de sua mãe ter trabalhado como faxineira em uma escola particular permitiu a Priscila ter acesso a um ensino de qualidade. Tornou-se a primeira da sua família a obter diploma universitário e mais para frente tornou-se mestra pela PUC/SP. Identifica-se com a religião Candomblé e tem contato com um terreiro, localizado no Capão Redondo. Amante de Rap, Priscila está sempre envolvida com atividades comunitárias locais onde fala sobre racismo e questões de gênero.

Priscila lecionava História na Escola Estadual Amelia Kerr, uma escola pública localizada no extremo sul de São Paulo, no bairro do Jardim Horizonte Azul, uma das áreas com níveis de pobreza mais altos da cidade, onde a maioria dos estudantes são negros. Seu objetivo principal é o de descolonizar; a mente de seus alunos, promovendo o pensamento crítico com relação ao racismo e as condições sociais que os cercam. Sua intenção é criar um ambiente de aprendizagem, onde os alunos sintam-se orgulhosos de sua identidade. Priscila é separada e cria seus dois filhos com a ajuda de familiares.

Nyanza Bandele é norte-americana, nascida e criada na Filadélfia, Estados Unidos. Seu nome de registro é Storm Foreman, mas preferiu adotar o nome africano Nyanza Bandele. No plano pessoal, é filha de uma professora aposentada, tem três filhos e é separada, suas primas e sua mãe a auxiliam a cuidar das crianças. Adepta ao Ifá, religião de matriz africana, ela dedica grande parte de sua rotina as reuniões com o grupo no terreiro, onde também funciona uma homeschool – escola independente, para os filhos dos frequentadores do centro religioso.

Até o ano de 2014, Nyanza lecionava Inglês e Literatura na escola pública de Ensino Médio Overbrook High School. Em 2015, ela foi transferida para a Edison High School, ambas escolas lidam com a falta de recursos e a maioria dos seus estudantes são negros e latinos. Nyanza, ao longo dos anos, incorporou a cultura negra em seu currículo para conectar seus alunos às suas origens.

A linguagem que você usa para construir o documentário é a observação e a poesia. Você sentiu que essa escolha, como autora e mulher negra, te aproximou ainda mais do assunto e das personagens que foram abordadas?

Sim, a linguagem que eu optei para utilizar no documentário é a observacional, estamos falando de cinéma-vérité (cinema-verdade), da ideia de uma câmera parada que acompanha a rotina, a trajetória dessas mulheres, que traz a ideia de verdade e de realidade. E temos também a linguagem poética, que aparece na primeira pessoa, então toda a vez que eu me coloco no filme, procuro fazê-lo de uma forma menos convencional. Essas linguagens realmente me aproximaram muito dessas mulheres, me permitiu conhece-las melhor e entender os problemas e acho que tudo isso acaba transparecendo no filme.

Um documentário observacional, não necessariamente, mas uma boa parte, tem essa preocupação de acompanhar suas personagens por um determinado período de tempo. E acompanhando essas pessoas por mais tempo, a gente tem a possibilidade de entender o universo dessas pessoas, de se envolver e foi isso que aconteceu. Como estou acompanhando a Nyanza desde 2014, a gente já está construindo essa relação há algum tempo e, tudo isso, essa intimidade, essa relação, vai aparecer no filme. Para mim quanto mulher negra, é importante que as pessoas que estou documentando estejam à vontade, para eu poder captar cenas mais próximas do que a gente chama de realidade. E, além disso, poder captar a emoção, porque lógico que estou tratando de um tema duro, difícil, mas eu quero mostrar essas mulheres dentro da sua completude, não só como ativistas e heroínas, mas também quero mostrar elas como mulheres, seres humanos, multidimensionais, mulheres que têm seus conflitos, suas horas de felicidade, mas também suas horas de decepções e, sobretudo, que estão sempre lutando por melhorar o seu entorno.

Então esse tempo para poder acompanhá-las e esse estilo de documentar é muito importante enquanto realizadora negra que está falando sobre uma temática negra. Tenho a preocupação de me colocar em relação as pessoas do filme numa posição horizontal. Sei muito bem que a câmera às vezes exerce uma função que acaba sendo superior ao personagem, mas dentro do meu filme, eu quero me colocar como uma pessoa que se coloca de igual para igual. Eu estou aqui falando da vida de vocês e também estou aqui para aprender. O processo desse documentário é uma troca em todos os sentidos: de experiências, de culturas, entre a produção e as famílias. Acredito muito que quando a gente faz documentário, a gente também tem que se abrir, não só ir lá fazer aquele documentário quadradinho, não só constatar uma ideia, mas construir junto.

O documentário trata as semelhanças, mas certamente você observou também diferenças entre Brasil e Estados Unidos no que diz respeito ao tema das relações étnico-raciais. O que mais te surpreendeu nesse sentido?

É verdade que o documentário foca nas semelhanças, mas estamos também mostrando no filme as peculiaridades de cada grupo, então sim, estamos construindo uma narrativa que contrapõe a vida dessas duas mulheres, dessas duas culturas, mas a gente não quer de forma alguma unificar e igualar essas experiências, porque sabemos muito bem que duas pessoas, até de dois bairros diferentes, têm uma experiência completamente diversa. Sabemos quão diferente é São Paulo da Filadélfia, mas a gente quer propor uma uniformidade dessas duas realidades.

Com relação as diferenças, há muito o que ser dito, mas vou citar brevemente dois aspectos: o positivo é ver como as ações afirmativas aqui nos Estados Unidos já são muito mais implementadas e aceitas pela sociedade de forma geral. Por exemplo, eu vejo pessoas negras muito mais frequentemente em meios de comunicação, tanto em telejornal quanto em filmes. Quando eu vejo vaga de emprego, eles escrevem explicitamente “Nós somos a favor de uma representação diversa, nós estimulamos que pessoas negras se candidatem a essa vaga de emprego”. Me chama atenção só de ver essa solicitação tão explicita, porque no Brasil ainda estamos enfrentando um processo em que cotas são vistas como esmola e não como um processo de reparação histórica de uma sociedade em que ainda existem privilégios coloniais.

Agora outro fator que me chamou atenção foi ver essa segregação, que acontece de forma bastante forte. A Filadélfia é uma das cidades mais segregadas dos EUA, esta entre umas das 10 mais segregadas do país. Aqui é notório você ir em um bairro, onde vai ser difícil encontrar pessoas negras, e outro, onde será difícil encontrar pessoas brancas. Existem também os guetos, latinos e asiáticos. E também é interessante observar que os guetos mudam, porque bairros onde moravam pessoas negras no passado, hoje em dia é um bairro central de onde as pessoas negras estão sendo expulsas, porque elas não têm como pagar aluguel, então os bairros vão aos poucos se tornando mais brancos. Ou seja, um bairro que antigamente era considerado gueto, hoje em dia é um bairro popular, um bairro em ascensão. E isso é algo que acontece em São Paulo também, eu moro na Bela Vista, um bairro historicamente negro e italiano, que hoje em dia as pessoas não conseguem mais morar, porque esta passando por um processo de especulação imobiliária muito forte.

Essa falta de integração racial é muito diferente do Brasil, onde podemos ter amigos de todas as cores. Alguns dizem aqui que trabalham num lugar onde existe diversidade, mas os amigos pessoais são só de uma raça. Isso é um pouco surpreendente, ver que existe a tolerância, mas que existe quase como uma resistência para uma integração completa. Mas eu ressalto que essa integração que temos um pouco mais profunda no Brasil não quer dizer igualdade, sabemos muito bem que na escola de samba existem pessoas de todas as raças, mas nas empresas de melhores posições a gente vê pessoas de uma raça só e essa raça é a etnia branca. A gente não pode cair no mito da democracia racial, porque isso é irreal.

Como o Flores de Baobá mudou sua vida? Quais seus próximos projetos?

O Flores de Baobá mudou minha vida tanto. Até me emociono ao falar do processo do Flores, que ainda não acabou, mas tem sido maravilhoso em todos os sentidos. Acho que tem vários aspectos quando a gente fala do documentário para mim. Primeiro tem a questão do aperfeiçoamento fílmico, de eu procurar me aperfeiçoar enquanto cineasta. É uma busca de entender a linguagem cinematográfica, de buscar entender artisticamente o quanto estou evoluindo.

E tem o outro aspecto que é o Flores enquanto continuidade desse trabalho relacionado à cultura negra que eu comecei na faculdade em 2006 por meio de um programa de rádio, de grupo que se chamava Dandara formada na Cásper Líbero com o apoio de um professor de filosofia. Quero que minha carreira e o ativismo se encontrem e o Flores de Baobá representa uma continuidade dentro dessa luta de dar visibilidade aos problemas da população afro-brasileira.

Agora, pensando dentro de uma perspectiva transnacional, para mim como uma mulher negra imigrante, filha de pais peruanos, é como se eu sempre me sentisse um pouquinho conectada com outros povos que falam espanhol ou que falam inglês. Meu sobrenome é Watson porque meu avô foi de Barbados para o Peru, então é muito interessante essa história de imigração dentro da minha família, que reúne essa diáspora africana e faz parte do que eu sou, de como eu me sinto. Poder amadurecer e trazer esse elemento também é muito satisfatório. Eu simplesmente estou muito feliz e impressionada com a repercussão que o Flores de Baobá está tendo, está sendo um processo longo de fato, mas estou tendo a oportunidade de realmente construir algo bom, um produto com conteúdo que vai avançar dentro da discussão com relação às mulheres negras, à educação e, principalmente, ao conceito do que é educar. Eu não quero fazer alguma coisa que vai chover no molhado, então quanto mais específico, mais tempo você vai precisar e fazer isso de forma independente é um desafio maior ainda.

Bom, como artista que sou, tenho muitos projetos, é só abrir lá a gaveta. Projetos imediatos são dois curtas-metragens, que são histórias de amor. Sim, sou uma pessoa muito romântica. Um deles se chama “São Paulo Melodias” e fala de uma adolescente que mora na Bela Vista – lógico, que estou sempre trazendo meu universo – e ela esta para prestar vestibular e conhece um ator negro que nunca consegue arranjar emprego e no filme eles vão se conhecer melhor. O outro filme, que se chama Say Yes, conta historia de duas amigas aqui na Filadélfia, cuja amizade é posta à prova depois de um fato marcante na vida delas e vocês terão que assistir para saber o que é. Esses são os dois projetos que quero realizar num futuro próximo e têm outros que estão bem menos maduros, então conto mais para frente. Ah, também tem uma websérie que estou em fase de edição. Se chama AfroTrip, são pílulas com ativistas e músicos que não estão sendo divulgados pela grande mídia, são entrevistas super despojadas e a gente vai veicular na web. Está um pouco parado por causa de falta de recursos, sempre um problema no audiovisual independente.

(…)

Saiba mais em:

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