Jessica Santos, nascida em Botucatu, interior de São Paulo, pisciana, já morou em Abu Dhabi, Emirados Árabes e agora vive em Seattle, nos Estados Unidos. Uma brasileira  que aprecia um bom feijão com arroz e bife, mas também adora sushi. Na infância queria ser dançarina, e sonhava em ser a dona do mundo! E hoje é a maior representação negra  brasileira do jiu jitsu feminino. Ela se faz presente num espaço no cenário mundial do jiu jistu pouquíssimo ocupado por meninas negras brasileiras e conquistou o mundo do jiu jitsu com seu carisma e simplicidade. Meu primeiro contato com a Jessica foi lutando com ela no Rio de Janeiro em 2012, o prêmio era uma passagem pros Emirados Árabes, era uma competição onde as atletas faixa roxa, marrom e preta lutavam juntas na mesma divisão. Eu era faixa roxa e a Jessica faixa marrom e ela mostrou seu talento com um belo estrangulamento em poucos minutos de luta, ganhou aquele titulo e faturou a passagem para Abu Dhabi. Quem quiser conferir nossa luta, clique aqui.

Meu segundo contato com a Jessica foi no ano seguinte no campeonato brasileiro em Barueri em SP, onde ela sentou atrás de mim na arquibancada e conversamos um pouco. Lembro que falamos de privilégio e preconceito.

Jessica sempre uma menina doce que lutou pelos seus sonhos dentro do esporte, deixou o pais a alguns anos e dona de um jiu jitsu espetacular. Seu maior ídolo e inspiração é sua mãe. Se não fosse atleta de jiu jitsu seria professora de Educação Física.

Aline Paes – Quem é a Jessica?

Jessica Santos – Jessica é uma menina do inteiror de São Paulo, nascida e criada na cidade de Botucatu de uma família humilde, com 5 irmãs.
Sonhadora, determinada, que vai atrás do seus sonhos!

Aline Paes – Conte sobre sua infância…

Jessica Santos – Quando eu tinha 10anos meus pais se separaram, e eu fui morar com minha mãe, com 12 anos de idade passei a morar com meu pai e fui criada pela minha tia e primos, na vizinhança tinha outras crianças nos eram no total 12 crianças brincando de pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, pulando muros subindo em árvores. Uma infância que qualquer criança poderia desejar!

Aline Paes – Como foi seu primeiro contato com jiu jitsu?

Jessica Santos – Meu primeiro contato foi quando eu tinha 13 pros 14 anos de idade através de um projeto comunitário (Ginásio Mario Covas) na cidade de Botucatu, onde há muitos esportes e na época eu fazia: dança, futebol, vôlei e Jiu Jitsu.
Meu Prof. Anderson Banana fez uma propaganda dizendo que o corpo e a mente entram em trabalho nesse esporte e que também nos deixávamos lindas!
Eu, minha irmã gêmea e minhas primas começamos a fazer hahahhahaha. E de lá pra cá só foi sucesso!

Aline Paes – Quais os benefícios que o jiu jitsu trouxe para sua vida?

Jessica Santos – Auto confiança, passei a ser mais segura nas coisas que eu quero pra minha vida, mais determinada, me trouxe uma disciplina o respeito. A vontade de ser cada vez melhor pra mim e para os outros, Minha faculdade, aprendi outra línguas e culturas.

Aline Paes – Pode contar um pouco sobre sua experiência afetiva com homens brasileiros?

Jessica Santos – Não tenho muita, minha adolescência toda fui voltada só para o esporte! Coisa da qual eu não me arrependendo, eu sempre tive minha cabeça 100% voltada só para o esporte o único homem com quem passei parte da minha vida foi meu professor Anderson Banana que sempre foi que nem um Pai, que cuidou de mim e da formação do meu caráter, foi o pai que eu não tive.

Aline Paes – Pode falar um pouco sobre seu atual relacionamento?

Jessica Santos – Atualmente eu estou me relacionando com Josh,  ele é americano,  personal trainer, super me apoia no esporte, me auxilia e é ótimo nas massagens hahahahhaha. E é uma excelente pessoa <3

Aline Paes – Compare o homem brasileiro e o homem estrangeiro, quais as diferencas entre eles no relacionamentos?

Jessica Santos – As diferenças são gritantes!
Muita coisa  se perdeu no Brasil assim como o respeito, o querer que de certo, o vamos crescer juntos, entre outras coisas!
É a primeira vez que eu estou me relacionando com um homem estrangeiro, e eu até estranhei porque a primeira vez quando tivemos relação sexual foi só depois de estar namorando, depois de 1 mês e meio saindo juntos, ele tem toda atenção comigo, me trata como rainha, entre outras coisas que é segredo! Rs
Os brasileiros não tem mais isso, acho que brigamos tantos por direitos iguais, e queremos direitos iguais mais quando falamos de relacionamento eu acho que o homem tem que tratar a mulher como tal, como a rainha que ela é! E nos mulheres somos rainha, merecemos o que acrescenta na gente; e eu achei o que vem me acrescentando no meu eu!
E a mulher tem que ser assim, se impor mostrar que: Eiii meu filho eu só a mulher que você nunca mais vai arranjar na vida.
Isso o que eu penso.

Aline Paes – O que significou para sua carreira a experiência de ter trabalhando nos Emirados Árabes?

Jessica Santos – Muita muita muita! Eu vi que eu posso fazer acontecer em qualquer lugar que eu tiver, que o meu sucesso vai depender do que eu fizer pra ser sucesso.
O meu crescimento como pessoa, atleta, o meu amadurecimento, as pessoas que eu conheci convivi, o quanto as pessoas podem ser boa ou más.

Aline Paes – Voltando a sua vida no Brasil já se sentiu prejudicada no jiu jitsu em função de alguma outra menina apenas pelo fato dela ser branca e você negra?

Jessica Santos – Já, foi umas das fase que eu pensei em desistir porque era desanimador! Não sei se foi pelo fato de ser negra ou branca, de se vestir bem, ou de não se vestir….
Eu nunca e nem quero o sucesso só pra mim, o mundo é tão grande e tem espaço para todos.  Da academia onde eu venho na minha época a que mais ia para as competições era eu e na época eu tinha conseguido passagens pra ir lutar o mundial em Abu Dhabi, daí comecei a correr atrás de patrocínio. Falei com 3 pessoa mais bem sucedidas na minha cidade, eles eram tão bem sucedidas que poderiam pagar a viagem de ida e volta para Abu Dhabi quantas vezes eles quisessem, um deles nem me retornou e os outros ficaram só com a promessa, depois de um mês eles fecharam o patrocínio com um atleta da academia que nunca nem se quer tinha lutado, eu fiquei muito triste porque eu estava trabalhando, estava tendo os melhores resultados e porque um que nunca lutou estava recebendo patrocínio!
Pensei em até desistir porque todos que eu estava buscando deram preferência pra outro. Nessa hora o meu professor foi fundamental, ele sentou comigo e conversou com e disse: Jessica a gente chegou até aqui trabalhando, lutando fazendo o nosso melhor. Tenha paciência que o Sol vai brilhar ainda mais pra você…. E o sol só tem brilhado pra mim.

Aline Paes – Tem alguma experiência de racismo que gostaria de compartilhar?

Jessica Santos – Olha se eu tive alguma experiência de racismo não sei lhe falar, porque eu tenho um jeito de lidar com a situação que não dá nem tempo da pessoa ser racista.
A primeira coisa é sempre ser eu em qualquer circunstância. E o segundo sempre chegar sorrindo. Você desarma qualquer um até mesmo um racista.

Aline Paes – Em relação a sua auto-estima, como era antes de ir morar fora do brasil e depois que foi morar fora do Brasil?

Jessica Santos – Cresceu muito. Quando eu morava no Brasil eu ia atrás dos meus sonhos, não tinha muita condições mais sempre dava um jeito de estar lutando, não tinha muita voz ativa. Hoje eu falo, imponho o que eu penso.
Quando a gente passa a caminhar com a nossas próprias pernas a gente passa enxergar o mundo com outros olhos, as pessoa, as atitudes!
Hoje em dia eu brigo pelo que acredito e sempre procuro ouvir pessoas sabia!
Porque nos temos duas formas de aprender.
1 – vivendo a situação
2- ouvindo a experiência de alguém.

Pra minha vida eu prefiro ouvir e observar.

Aline Paes -Você se vê representada por atletas negras dentro do seu esporte?

Jessica Santos – Sim, na verdade eu me sinto representada por todas as mulheres!
Eu amo o progresso que nós tivemos no esporte. Ainda temos um longo caminho pela frente, mais estamos no caminho certo.

Aline Paes – Pode falar um pouco de como foi a vida nos Emirados e como está sendo aqui nos USA?

Jessica Santos – A única coisa que posso usar pra dizer é a liberdade de trabalho!
A liberdade de fazer o que eu tenho de mais bonito, o meu Jiu Jitsu!
Algumas pessoa não vão concordar mais o esporte é extraordinário, e isso ninguém vai poder tirar de mim.

Aline Paes – Deixe uma mensagem para todas as meninas negras no Brasil que tem um sonho, mas que são oprimidas por um sistema racista estruturado, deixando esse sonho cada vez mais impossível de realizar.

Jéssica Santos – Um dia estava conversando com uma amiga muito querida o nome dela é Miriam Cardoso, ela é dona da Equipe Elite Brazilian Jiu Jitsu, e uma dia ela me disse uma frase que fez a diferença na minha forma de pensa.

PRA SER BEM SUCEDIDO, ISSO DEPENDE DE NÓS.

Tudo vai depender o quanto você se deixa tocar por uma situação, o quanto aquela situação te atinge. E o quanto queremos ser sucesso, deixando pessoas bem sucedidas ao seu redor e se empurrando para ser bem sucedido também!  Faz 9 meses que estou no US e essas palavras mudaram minha forma de pensar, e espero que mude a sua também!