“A voz de minha mãe
Ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
Debaixo das trouxas
Roupagens sujas dos brancos
Pelo caminho empoeirado
Rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.”
(Conceição Evaristo, Vozes-Mulheres)

 

O nome dela é “NOW”. Aos 79 anos e transbordando vitalidade, Elza Soares encarna a força e a capacidade de se reinventar com a turnê “A Mulher do Fim do Mundo”. Primeiro disco patrocinado, no alto de seus 60 anos de carreira, somente com músicas inéditas, é um retrato do agora, não só para ela, mas para uma geração de mulheres negras que conquista mais espaços, mais voz.
Um caminho que já fora aberto, com dores e renascimentos, por mulheres como Elza.

Subindo as ladeiras da favela de Água Santa, no Rio de Janeiro, ao som do movimento da lata d’água na cabeça, a menina Elza ia cantando. Vinda do “Planeta Fome”, como chegou a responder quando, em sua primeira apresentação aos 13 anos no programa de Ary Barroso, motivada pelo sonho e pela necessidade de ganhar o prêmio em dinheiro para garantir a alimentação dos filhos prestes a morrerem de fome, foi perguntada de que planeta vinha. Vestida por roupas simples, respondeu ao escárnio com altivez e cantou, inebriando a todos com sua voz rouca inconfundível.

Nas ladeiras da vida, perdeu a mãe e dois filhos, foi execrada pela opinião pública ao se casar com o craque Mané Garrincha – acusada de ser algoz do primeiro casamento do jogador -, e, nos Anos de Chumbo, foi forçada a sair do país. Não há muito tempo, esquecida pela indústria da música, passou anos sem a oportunidade de gravar.

Mas não à toa Elza tem uma fênix tatuada na perna, o pássaro mitológico que renasce das cinzas com seu canto estrídulo, penetrante.

Tantas Carolinas Maria, Ninas, Ellas, vozes-mulheres que ceifaram barreiras como a fome, a rejeição imposta pelo racismo, por tantos e tantos perversos “nãos” e silenciamentos. Mas o nome dela é NOW, ela faz questão de repetir. E, no presente, é difícil ter em mente alguém que tenha encarnado tão plenamente o verso “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. A letra é de Paulo Vanzolini que, por sua vez, foi ressignificada na voz de Elza como “mulher de moral não fica no chão nem quer que ninguém venha lhe dar a mão.”.

Hoje, a “Voz do Milênio”, eleita pela BBC de Londres, quer apenas “cantar até o fim”. Nós, do Blogueiras Negras, tivemos a honra de conversar com ela. Confira.

Em seu último trabalho você sente como se tivesse renascido?
Quando pensamos neste último trabalho, sendo muito sincera, não tinha a mínima ideia o que ia acontecer. Quando o (Guilherme) Kastrup me convidou para o projeto, fiquei muito feliz… Quando decidimos que seria um álbum de inéditas, eu fiquei louca porque seria tudo novo, e eu sou assim, gosto de me arriscar.

A matéria-prima de “A Mulher do Fim do Mundo” ressoa para muitas mulheres negras, ao que acredito, como que forjada na dor, na potência e na superação. Em tempos nos quais as discussões acerca do feminismo negro e as demandas das mulheres negras conquistam cada vez mais força e voz, essa mulher do fim do mundo é uma nova mulher? Quem é essa mulher?
A Mulher do Fim do Mundo são todas as mulheres que apesar de todas as dificuldades que nos impõe, não desistimos nunca, não calamos nunca! São todas as mulheres inconformadas com seu papel neste sistema machista.  Como artista, mulher e negra, eu vou lutar até o fim, porque sou atrevida e não me conformo com o que me dão, sempre acho que merecemos mais!

O que você sente nos shows, sempre repletos de mulheres, quando as ouve cantar em uníssono “Maria de Vila Matilde”?
Fico feliz de constatar que a mensagem chega até elas, eu quero que cada uma saia dos meus shows transformada, desejo somar na vida delas, lógico!

Vivenciamos atualmente um quadro político crítico a nos assombrar enquanto mulheres negras. Você, que já sentiu as dores de vir do “Planeta Fome” e, inclusive, passou por uma ditadura militar, como encara o retrocesso político que estamos vivendo?
Estamos vivendo tempos difíceis… Não podemos perder a fé e o amor jamais! Vamos nos unir, nós somos agentes transformadores. Sempre digo em meus shows: “Vamos gritar para acordar quem está dormindo!”

Benedita é uma canção que traz os dilemas do corpo, da existência transexual. No país onde mais se mata travestis e transexuais no mundo, como é para você ver essa geração de artistas trans e LGBT’s que estão dando uma nova cara à MPB atualmente?
Eu adoro! Gosto de saber o que esta acontecendo NOW! Ja cantei com Jhonny Hooker, amei! Foi de um carinho comigo que fico emocionada quando lembro. Já estivemos juntas no palco eu e a Liniker, outra que tenho enorme carinho. Outro dia conheci a Mc Linn também gostei muito!

“Comigo” é uma música que revela a permanência de sua mãe em si, Elza. O que você carrega de sua mãe?
Carrego sua força, seu amor e seu olhar, sempre comigo!

Você acredita que há uma solidão afetiva imposta às mulheres negras?
A mulher negra não pode deixar ser vista somente como objeto de desejo. Tem que exigir respeito para não cair nessa cilada de solidão.

Que foi o amor na sua vida?
Mané Garrincha!

Vou até o fim cantar”. Você tem novos projetos? Quais são?
Agora estou totalmente entregue à Mulher do Fim do Mundo. Sou inquieta, não sossego, já estou começando a pensar em algo novo, mas não posso falar ainda…

Elza, que já foram muitas, do samba ao punk, da mulher que subia as ladeiras do morro equilibrando uma trouxa de roupas na cabeça à “Cantora do Milênio” (eleita pela BBC), que conselho você dá ao artista negro de hoje?
Não desista nunca! Acredite em teus sonhe e caminhe, siga em frente!

E hoje, Elza. A que planeta você se vê pertencer?
Eu sempre digo isso, “Eu não sou desse planeta” (Risos)