aviso de gatilho: narração de estórias de assédio; violência.

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Hoje em dia temos observado pessoas que se consideram militantes contra o machismo, o racismo, a homofobia, entre outros, fazendo afirmações taxativas e equivocadas que comprometem a luta contra a opressão em nossa sociedade, e é interessante perceber como a voz dessas pessoas ecoa rapidamente e logo encontra apoio dentro de estruturas marcadamente preconceituosas.

Sabemos que não existe unanimidade no movimento feminista, no movimento negro e em nenhum outro movimento social. Existem pontos de vista diferentes, pontos de partida diferentes e isso se reflete nos diversos segmentos que há dentro de cada um desses movimentos.

Apesar das diferenças que podem existir, é importante refletir sobre o discurso veiculado em cada um desses movimentos e buscar entender as entrelinhas, o dito e o não dito. Sabemos que vivemos em uma sociedade que constantemente veicula discursos que desqualificam a luta contra a opressão, tentando enfraquecer a luta contra as injustiças sociais, apelando para conceitos como democracia racial, igualdade de oportunidades e respeito à diversidade.

A maior arma de que os opressores dispõem é a palavra, o discurso. E é por meio dela que mentes são colonizadas e discursos de ódio são reproduzidos diariamente. Hoje, por exemplo, o racismo é mascarado pelo discurso da meritocracia. As pessoas são levadas a acreditar que não há necessidade de políticas de afirmação como as cotas, por exemplo, já que o que determina o sucesso no trabalho e no mundo acadêmico é o esforço pessoal e não o racismo institucionalizado, que dificulta o acesso de pessoas negras a espaços de poder.

Quando os africanos aqui chegaram escravizados, fez-se uma tentativa de apagar sua cultura, sua história, sua língua, sua identidade, de forma a coibir qualquer forma de resistência, introduzindo conceitos considerados “civilizados” para aqueles que eram considerados pagãos, pessoas fora do eixo da civilização. Sabemos que essa era uma forma de tentar esvaziar culturas ricas e extremamente complexas para subjugar os diferentes povos africanos.

Hoje ainda vemos uma tentativa de apagar as diferenças, de dizer que o Brasil não é um país marcado pelo racismo, mas pela desigualdade social, sem considerar que a cara da pobreza é negra e os dados que apontam o genocídio da juventude negra. Há tentativas por parte dos opressores de esvaziar o discurso da militância chamando-o de “mimimi”, dizendo que somos todos iguais, temos as mesmas oportunidades.

Audre Lorde, uma das mais importantes figuras do feminismo interseccional, disse que devemos utilizar as ferramentas do mestre para desmantelar a casa branca. Sendo assim, nosso discurso não deve soar como música aos ouvidos da sociedade racista, machista, homofóbica. Nossa militância precisa ser questionadora e estar sempre atenta aos discursos veiculados na tentativa de nos silenciar e diminuir nosso protagonismo.

Reconhecer privilégios é um grande desafio e poucos estão dispostos a fazê-lo, por isso nosso papel enquanto militantes é incomodar, pôr o dedo na ferida dos privilegiados, é mostrar que não, não temos as mesmas oportunidades, que temos o direito a políticas públicas porque o país tem uma dívida histórica com os grupos de maior vulnerabilidade social, que são chamados de minorias não porque são poucos, mas porque são a parcela mais afetada pela desigualdade por seu gênero e pertencimento étnico-racial.

Por que nos calamos diante do assédio

Sabemos que, como mulheres vivendo em uma sociedade machista, racista, homofóbica, marcada por desigualdades, estamos sujeitas a toda sorte de preconceitos de acordo com nossa estética, nossa posição social, nossa cor, nossa orientação sexual e, claro, nosso gênero. Infelizmente o assédio está constantemente presente em nossas vidas, marcando-nos e limitando nossa atuação na sociedade.

Somos ensinadas desde pequenas a nos comportar e vestir adequadamente para não dar margem a investidas masculinas. Aprendemos que o sexo masculino é predador e que nós é que devemos afastar esse instinto predador, já que nós é que temos o poder de despertá-lo por meio das “liberdades” que damos e da imagem que possivelmente podemos passar de mulheres “fáceis”, à disposição.

Quando sofremos assédio, independentemente do lugar e da situação, muitas de nós nos sentimos coagidas e não conseguimos agir rapidamente para inibir quem nos assedia. Lembro de uma vez em que estava voltando do trabalho e um homem me abordou. Achei que ele fosse me pedir uma informação, mas ele na verdade me perguntou como ele fazia para entrar em mim. Fiquei tão chocada que não consegui responder, saí de perto dele e comecei a chorar.

Em outra situação estava sentada no ônibus voltando do trabalho e um homem sentou ao meu lado apesar de o ônibus vazio. Ele estava olhando insistentemente para mim, mas não dizia nada. Estranhei porque percebi que havia algo estranho. Ele estava com uma pasta preta no colo. Na hora em que me levantei pra descer, percebi que na verdade ele estava se masturbando. Novamente fiquei chocada e não consegui reagir. Apenas desci do ônibus me sentindo um lixo.

Em outra situação, estava indo trabalhar e um homem começou a me seguir de carro. Ele ficava me chamando e tentando me encurralar, atravessava a rua e ele vinha atrás. Nunca tive tanto medo e toda a minha vida. A rua estava cheia, mas a impressão que eu tinha era que eu estava sozinha e que ninguém poderia me ajudar. No final entrei em um boteco que estava lotado e ele foi embora.

Hoje, refletindo sobre essas situações e muitas outras que nós mulheres em geral passamos, percebo como geralmente somos educadas para aceitar o assédio como se ele fosse algo corriqueiro e não uma violação de nosso espaço, de nossa intimidade. Os homens agem conosco como se nosso corpo fosse um território livre.

Sendo assim, uma das possíveis saídas para que as mulheres se emancipem de fato e sejam donas de seus próprios corpos e de sua própria mente é uma educação pautada pelo feminismo, sem reproduzir estereótipos de gênero. Devemos ser educadas não para a aceitação e o silêncio, mas para o questionamento de estruturas que legitimam a violência contra nossos corpos.

O machismo está nos mínimos detalhes e devemos sempre fazer ecoar nossa voz para que ela não seja abafada. Devemos ocupar espaços de poder, que historicamente nos são negados, e nos tornar protagonistas para que nosso movimento não seja esvaziado por homens que se acham no direito de serem porta-vozes do movimento feminista.