Dia desses, recebi uma mensagem de um amigo em dúvida: “tem um nome específico pra essa prática recorrente entre homens héteros de sempre presumirem que sabem mais das coisas, de qualquer coisa, do que mulheres / gays, mesmo quando não sabem de caralho algum do que estão falando?”. Boa pergunta – e aqui consideramos que são muitas as configurações possíveis entre as pessoas envolvidas, mas num geral o problema reside no diálogo/disputa com o homem-hétero-no-comando (e que auto-estima invejável eles têm, convenhamos). Por ser uma prática comum, essa reflexão já tinha surgido entre meu amigo e eu em conversas anteriores – afinal, isso faz parte da nossa vida.

Posso citar um ciclo que se repetiu inúmeras vezes comigo nos últimos anos: O homem hétero expõe sua opinião. Eu discordo. O homem hetero supõe que eu não entendi o que ele quis dizer e se repete. Eu discordo. O homem hetero já está perdendo a paciência com minha lerdeza e explica irritado o seu argumento pela terceira vez (que pode ser malajambrado ou até sofisticado, vide casos dos esquerdomachos). Posso continuar discordando, mas para ele simplesmente não é possível que eu não veja razão no que ele diz. NÃO É POSSÍVEL. Se eu discordo, obrigatoriamente deve ter sido por pobreza de compreensão da minha parte, não é mesmo? Daí geralmente nós brigamos, porque é lógico que isso, minhas amigues, nunca foi um diálogo.

O fato de que em todas as vezes que isso aconteceu minha discordância era embasada em argumentos mais elaborados e/ou verdadeiros do que os do homem-hetero-no-comando só mostra que na verdade o que estava em curso era uma disputa de poder. Nunca, em nenhum desses embates vividos (foram muitos e desgastantes), me deparei com um homem que tivesse mais sabedoria ou experiência sobre os temas em questão do que eu. Quanto mais identidades de privilégio e normatividade acumuladas – branquitude, grana, alta escolaridade – no jogo, maior a tensão entre nós.

Atualmente, curso um mestrado interdisciplinar em gênero e feminismo. É interessante observar a reação das pessoas quando me perguntam o que estudo. Aparentemente, qualquer ocó num bar se sente autorizado a me explicar o que é feminismo, os problemas do feminismo ou porque eu deveria estudar outra coisa. Gostaria de acreditar que se eu estudasse física nuclear seria diferente, mas é bom não subestimar a arrogância do homem-hetero-no-comando. E sim, existe uma palavra ligada à esse tipo de silencionamento misógino das mulheres: chama-se mansplaining (homem explicando). Só que não era bem essa palavra que eu queria utilizar para responder ao meu amigo, por duas razões.

Primeiramente (#foratemer) porque essa palavra cabe bem nessas situações em que os homens nos menosprezam intelectualmente mas a pergunta dele foi sobre a presunção dos homens heteros, algo ainda mais amplo que as práticas de fala e que pode se expressar de outras formas. E comecei a pensar, por que esse tipo de vaidade machista não merece uma palavra específica? Aliás, quantas violências, sentimentos, práticas e situações permanecem sem nome? Mesmo as violências nomeadas, debatidas e até legisladas atravessam um processo perverso de deslegitimação quando são denunciadas. E quando nem podemos nomear o que nos acontece, como iremos dizê-lo em voz alta? O que pode existir, se não for dito?

A segunda razão é pessoal e nem por isso menos política. Sou uma mulher urbana, mas aprendi sobre feminismo na militância com as trabalhadoras rurais, pescadoras, quilombolas, assentadas. Sempre tiveram paciência com minhas (muitas) limitações urbanóides e ranços acadêmicos. Como posso chegar junto delas e usar uma palavra em inglês difícil de se falar e escrever? Tem que ser uma palavra que faça sentido para as minhas companheiras. Afinal, foi na convivência com elas que eu experimentei pela primeira vez, já adulta, a sensação de que, afinal, ser uma mulher negra era muito bom. Não por nenhuma vantagem que eu pudesse obter disso, mas simplesmente pelo prazer e a plenitude de ser uma mulher negra. Eu me senti feliz e orgulhosa de ser quem eu era. Qual é o nome desse momento?

Às vezes entro num lugar, percorro-o todo com os olhos, vejo muita gente, e percebo que sou a única pessoa negra nele. Sinto meu corpo ficar alerta. Qual o nome desse instante? Quando, no meio de uma discussão com pessoas brancas, trago uma perspectiva racializada e elas não acham que existe questão de raça ali porque o racismo não é uma realidade delas, qual é nome da pontada que eu sinto? Quando um homem está me manipulando emocionalmente e eu sei disso, mas não consigo interromper, como se chama esse sentimento humilhante? Aquela sensação de ferida reaberta quando uma situação do presente me remete à um abuso sofrido no passado, qual o nome desse sangrar que vem e volta? As lembranças das vezes que traí ou abandonei uma irmã quando ainda acreditava em algum tipo de vitória individual, como se chama esse tipo de vergonha?

A linguagem e a cultura não se dissociam, e sabemos que a linguagem é uma das formas mais eficazes de controle. Há uma frase do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o ao falar sobre o que ele considera a arma mais perigosa, a bomba da cultura: “O efeito de uma bomba cultural é aniquilar a crença de um povo em seus nomes, em suas línguas, em seu entorno cultural, em sua tradição de luta, em sua unidade, em suas capacidades, e, em último término, em si mesmxs”. Nós conhecemos a violência colonial que se propõe a aniquilar nossas línguas e culturas. E na verdade, não lembro a língua das minhas ancestras. Mas conheço canções de luta, beleza e resistência que atravessam os anos para nos encontrar. Muitas mulheres têm me ensinado essas canções antigas – e com algumas tenho caminhado e criado novas canções.

Nossos passos vêm de longe, nós não esquecemos dos nossos nomes. E nem de como ajudar as palavras a nascer.