Talvez, apenas talvez, você não tenha tido tempo de explicar para sua filha aos 5 anos o que é eugenia. E que o autor daquele livro sobre a boneca falante na realidade nunca teve uma boa intenção. Aquele que, não por acaso, continua a ser ensinado nas escolas como cultura, coisa inocente.

Muitos dirão que a nova versão do “Sítio do Pica-pau Amarelo” é de fato uma novidade. Mas a Dona Benta continua a dona da fazenda, Tia Nastácia e Tio Barnabé seguem trabalhando sem perspectiva de aposentadoria enquanto crianças brancas tem direito à uma infância de sonho. Um mundo onde as crianças negras são apenas as “negrinhas”, que a literatura maltrata como coisinhas sem propósito.

Estamos falando de uma violência simbólica, assim como aconteceu em Charlottesville. Uma estátua, um livro… Um sistema de ideias que tem como principal propósito eliminar, destruir ou escravizar todos os que não são brancos. A mesma estrutura que vigora nesse país desde a sua fundação.

Há muito tempo vivemos uma onda, onda não, um tsunami conservador. O mundo inteiro tem dado sinais, desde o final do século XX e início do século XXI que alguma coisa bem sinistra vem sendo esboçada. Se formos buscar lá atrás, um panorama das independências africanas, dos conflitos e guerras entre Israel e Palestina e dermos um salto histórico para as ditaduras na América Latina junto com a incursão norte americana pesando sua mão em países como Colômbia, Argentina e Brasil, a gente vai perceber que o que aconteceu sábado passado não é novidade pra ninguém (que seja preto, é claro!).

Uma simples questão talvez seja a resposta – porque o mundo (infelizmente) agora conhece o nome e o rosto de Heather Heyer  mas não os de Alicia Garza, Patrice Cullors e Opal Tometi [Black Lives Matter] se todas elas são irmanadas por “um forte senso de justiça social”? O que a primeira fez que a diferencia das demais? Ou ainda, o que as aparta e as aproxima?

Amanhã podemos estar diante de um retrocesso que tem a mesma lógica supremacista que construiu o Estado e a sociedade brasileira, logo beneficia você, pessoa branca que acha que não tem nada a ver com isso, afinal você até está construindo um projeto com ou sem a candidatura do ex-presidente Lula, propondo um novo país. Sem crianças, jovens ou pessoas negras, nada poderia ser mais claro que isso.

Hoje estamos no dia 17 de setembro de 1850, véspera da assinatura da Lei de Terras que retira do povo preto a possibilidade de acesso ao chão após a abolição incompleta que aconteceria décadas mais tarde. Somente em 1964, façam as contas, tal lei seria revogada com o Estatuto da Terra que prevê a função social do território. Agora o decreto lei 4887 de 2003 que regulamenta a titulação das terras quilombolas corre risco de ser derrubado. Por um sistema construído que privilegia os grandes netos dos homens brancos que construíram o dia 17 de setembro de 1850. #NenhumQuilomboAMenos !

opinião no facebook sobre a reação da branquitude: grande novidade!

Não foi falta de estilo ou erro de editoria, mas nada menos que o modo de operar da supremacia brasileira, que fez e faz leis Jim Crow ou leis sexagenárias sem sequer mencionar a palavra raça. O nome disso é estrutura. Uma estrutura que isenta o escravizador e os seus de quaisquer responsabilidades, seja esta o direito à aposentadoria, moradia, hospital ou terra. Ou qualquer medidas afirmativas, como cotas.

Ou ainda, na construção de um projeto político que nem ao menos considera que somos a maioria desse país. Deixamos ao seu critério o fato de que nem todo partido é igual, mas todas as alternativas que se colocam, são. E não se iluda preta, nenhum desses projetos difere daqueles que são abertamente supremacistas.

Porque ele está em todos os lugares. Até no congresso sobre o argumento feliz de que há apenas pessoas Negras – uma ou duas – como protagonistas enquanto as demais varrem o chão ou terão construído as paredes onde pessoas felizes podem conversar sobre a própria sorte e como os outros poderão alcançá-la.

Vamos economizar seu tempo e dinheiro: num sistema supremacista basta nascer branco. Você não precisará pedir licença para passar, basta esperar que os outros façam a sua vontade. Você poderá fingir que não sabe de nada, que os “nazistas voltaram” ou fazer vídeos no youtube dizendo que racismo é intolerância: Eis o privilégio branco, esse de não saber que o racismo nunca foi embora!

O nosso querido e defendido Estado Democrático (sic) está aí há 300 anos aniquilando negros e indígenas, os únicos capazes de pensar num projeto político viável para um país invadido, roubado e violentado. Se isso não é racismo, meus queridos, vos dizemos: Charlottesville é aqui. Bem aqui, onde somam 47 o número de trabalhadores rurais mortos, dentre eles a maioria quilombolas.

A verdade é que estamos diante dessa “ameaça” há muito tempo. Desde que o projeto sempre foi o que fazer com negros e indígenas, desconsiderando nossa autonomia e capacidade de decisão; desde que todos os passos dados excluem pessoas negras e indígenas das articulações políticas, dos projetos da sociedade civil e das organizações, das mesas de debate universitárias ou nos partidos políticos. A ameaça agora parece evidente porque saiu no g1, mas o movimento de mulheres negras, as feministas negras tem denunciado desde que a Irmandade da Boa Morte foi criada que a supremacia branca mata gente preta!

Genocídio tá na nossa boca não porque é uma palavra bonita, mas porque, como nos disse Abdias do Nascimento, há um projeto mascarado e sistemático de nos eliminar; e como bem nos pontua Sueli Carneiro: tem morte por todos os lados – inclusive a  epistêmica.

Então meus caros, não nos venham com chorumelas porque nós sabemos quem são vocês e como opera esse racismo mascarado que parece só ser chocante quando iluminado por tochas da KKK. Bem parecido com as pessoas que criaram o perfil no twitter YES YOU’RE RACIST nós podemos apontar, printar, reconhecer, espalhar quem vocês são. Ds Bolsomitos às Sinhas Prendadas, nós podemos e vamos fazer um levante e todos os racistas vão implorar que Charlottesville não seja o bairro de nenhum de vocês.

Imagem destacada: Projeto Um olhar sob as raízes, de Sarah Assunção e Ana Carolina Ahó.