Nos corredores e salas de aula da universidade em que sou professora, no município baiano de São Francisco do Conde, quase 100% dos alunos e alunas são negros. Um cotidiano que raramente se vê no Brasil. Estou na UNILAB, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira, desde 2015. Criada pelo presidente Lula em 2010, é uma instituição federal com uma proposta bem revolucionária: além de levar a universidade pública para o interior do país, propõe uma integração com os países africanos membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Somos professoras e professores, alunas e alunos da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, de comunidades quilombolas da Bahia, de cidades do Recôncavo, do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará.

Há algumas semanas, com uma simples canetada, o projeto da Unilab foi colocado em risco: um aditivo ao edital de seleção de estudantes estrangeiros cortava os auxílios que possibilitam sua permanência no Brasil. Um duro golpe na proposta de internacionalização da universidade. Felizmente, a medida foi revogada. E mesmo com todos os problemas e desmontes que cercam o ensino superior público, especialmente nestes tempos de governo golpista, seguimos “transgredindo”, a cada dia, muitas fronteiras.

Como historiadora tão acostumada às pesquisas solitárias em arquivos, há mais de um ano tenho saído do “gabinete” para realizar, junto com um grupo de alunas e alunos da Unilab, pesquisas de campo e algumas primeiras experiências audiovisuais pelo Recôncavo Baiano. Nesse percurso, a professora-historiadora vem virando aluna. Em um dos nossos projetos, procuramos acompanhar e registrar as experiências e as memórias de marisqueiras de São Francisco do Conde, que são também sambadeiras em um grupo de “samba-chula” da cidade. Quase sempre como as únicas responsáveis pelo sustento da família, essas mulheres se embrenham pelos úmidos e lamacentos manguezais e tiram dali os siris, guaiamus, ostras e sururus que garantem (ou complementam) a alimentação e a renda familiar. Para catá-los, permanecem por longo tempo curvadas ou agachadas, quase sempre com pernas, abdômen, braços e mãos imersos na água e na lama.

Como dependem das oscilações da maré, elas costumam sair de suas casas por volta de quatro ou cinco horas da manhã, só retornando após o meio dia. Para catar os mariscos e peixes, utilizam facões, ganchos e outros instrumentos que elas mesmas confeccionam. E retornam da labuta diária carregando os balaios de cipó e baldes pesados nos ombros ou sobre as cabeças. Quando chegam em casa, as tarefas continuam: lavam, cozinham e catam os mariscos. Muitas vezes contando com o auxílio de filhas e filhos. Cotidiano pesado, que desgasta seus corpos e sua saúde.

Nos últimos anos, as jovens já não querem mais seguir essas atividades. Ainda assim, como os índices de desemprego nos municípios da região são bem altos, o trabalho na maré acaba sendo a principal opção para muitas mulheres e suas famílias. Em São Francisco do Conde, a cerca de 80 km quilômetros de Salvador, e com uma das maiores ocorrências de manguezal da Baía de Todos os Santos, as marisqueiras se espalham por quase todas as áreas da cidade, como na comunidade quilombola de Porto Dom João, nos bairros de São Bento, Roseira, Baixa Fria, Monte, entre outros.

Eu e os estudantes da Unilab, Dona Joca, Fabrício e Ramiro, em evento na UFRB, na cidade de Santo Amaro, Março/2017

Num dos nossos muitos papos informais, uma delas, mulher negra e liderança na sua comunidade, nos chamou atenção para alguns sinais que identificam e dizem muito sobre as diferenças de classe, raça e gênero que caracterizam a sociedade brasileira em geral, e o Recôncavo Baiano em particular. No meio de uma conversa sobre o trabalho no mangue, ela lembrou de uma apresentação que assistimos em um evento acadêmico na UFRB, na cidade de Santo Amaro, e criticou umas das pesquisadoras por ter apresentado em seu trabalho a foto de uma marisqueira com as unhas pintadas de esmalte. Ela comentou como isso vinha atrapalhando as “verdadeiras marisqueiras”, pois, na hora de solicitarem o seguro-defeso, benefício pago nos períodos em que ficam impedidas de pescar/mariscar, os funcionários da prefeitura desconfiavam que mulheres com unhas limpas e pintadas não eram marisqueiras “de verdade”. Ou, pelo contrário, algumas marisqueiras eram privilegiadas justamente por terem uma “melhor aparência”. No final das contas, essa situação acabou levando às “verdadeiras marisqueiras” a também se “arrumarem” mais quando precisam ir até a administração municipal. Na sequência, ela emendou uma outra história para continuar a explicar a primeira. “Antigamente”, quando ela e outros moradores negros da região iam até Salvador e eram parados no caminho pela polícia, também eram divididos de acordo com o “estado” de suas mãos: aqueles que tinham calos nas palmas das mãos, e portanto eram notoriamente trabalhadores, eram liberados; já aqueles cujas mãos não tinham calos ou marcas eram considerados “vagabundos” e apanhavam.

Polícia e estado determinam, a partir das marcas e identidades de seus corpos negros, os “lugares” e as violências físicas e simbólicas que acabam sofrendo.  Historicamente, negros e negras vêm sendo vitimizados nos mercados de trabalho e da “aparência”, tão marcados pela construção de esterótipos negativos associados aos fenótipos negros, principalmente nos contextos em que há fortes e significativas desigualdades étnico-raciais. Mas algumas nuances corporais pareciam nos escapar. Eu, por exemplo, apesar de negra, mas professora e de outra classe social, nunca precisei me preocupar se as minhas mãos (finas e sem calos) poderiam “denunciar” quem sou ou mesmo determinar que tipo de vida poderia levar. E assim, o nosso desconcerto diante das palavras daquela “legítima” marisqueira nos levou a pensar em mais um tema para nossas discussões e registros audiovisuais.