oa tarde, em primeiro lugar, gostaria de pedir a benção aos meus mais velhos e mais novos presentes aqui, como uma reverência religiosa, mas não só. É importante dizer que nesses três dias de Seminário pude ouvir, assim de pertinho, mulheres negras e homens negros que inspiraram toda minha trajetória acadêmica e de militância. Compartilhar esses dias com Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, Anna Maria Canavarro Benite, Carlos Benedito Rodrigues da Silva, Helio Santos, Rachel de Oliveira, Zélia Amador de Deus, Ivair Augusto Alves dos Santos, Nilma Lino Gomes, Sidnei Barreto Nogueira, dentre tantos outros e tantas outras referências negras foi uma grande honra para mim. Espero carregar esse bastão da luta antirracista com a capacidade e coragem dos que me antecederam e continuar passando essa missão para gerações futuras. Estou bastante nervosa diante da responsabilidade que carrego aqui: pensar sobre avanços, problemas e esperanças desses 30 anos do debate sobre Raça e Educação no Brasil.

Esses 30 anos de história dos quais falamos aqui nesses dias representam também meus quase 30 anos de trajetória de vida. Por isso, pensando em uma perspectiva de oralitura, ou mesmo escrevivência, citando Conceição Evaristo, programei esse texto a partir das minhas próprias histórias, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas com as histórias de muitos colegas presentes aqui. Longe de pretender ser egocêntrica, apenas coloco meu coração aqui, por sinal, bastante emocionado por tudo que esse momento representa.  Havia escrito muitas coisas para apresentar, com vocábulo erudito, dados bem escolhidos, prescritos dentro das normas da ABNT e embasados em muitos autores importantes para academia, mas desde que botei meus pés nesse teatro, só consigo pensar na história da minha vida.

Meu nome é Carolina Rocha Silva, filha de Alfredo Fernando da Silva, ambulante, com pouquíssima experiência na escola formal, mas muita inteligência e perspicácia adquirida na vida. Fugiu de casa por causa da violência doméstica praticada por seu pai. Morou na rua, passou muita fome, foi para orfanatos, ganhou um par de sapatos já adulto, foi engraxate, ambulante, serviu a Pátria no militarismo como uma alternativa para fugir da pobreza e, finalmente, frequentou a escola. Fugiu da escola, saiu do exército. Não se enquadrou em nem um e nem em outro. Na verdade, dizia que, no pós-abolição, como não era possível matar, a princípio, todos os negros e negras do Brasil, restava domesticar seus corpos nessas e em tantas outras instituições. Sempre foi nego rebelde, fujão e arisco, com muito orgulho. Depois de carregar muito caixote de feira nos ombros, e encontrar muita gente pra ajudá-lo nesse processo, tornou-se feirante, comerciante e administrador de muitas feiras no Rio de Janeiro. Meu pai tinha uma grande paixão: o samba. Foi faxineiro, servente, chefe de harmonia, fundador da Velha Guarda e depois, finalmente, Presidente, da escola de samba que ajudou a construir: a União da Ilha do Governador. Dentro da sua escola de coração foi também chamado de macaco, nego imundo, preto merda, muitas vezes…

Estamos falando de um negro vencedor, muitos diriam, inclusive ele, obedecendo a lógica da excepcionalidade, da qual, me parece, eu também não escapei. Diriam outros, que foi a meritocracia a grande responsável pela ascensão social do preto, que trabalhou duro e chegou lá. Lá aonde? Lá aonde o racismo também está, perverso e aniquilante. Alfredo militou em muitas frentes antirracistas, ajudou muita gente, e contribuiu para um mundo menos injusto, acho eu. Também não foi um pai presente, nem para mim e nem para os meus sete irmãos, mas morria de orgulho de nós e sempre enfatizou o quanto a educação era importante, sem, contudo, deixar de nos lembrar que o racismo faria de tudo para nos afastar da escola e que ela não era a única forma de vencer na vida.

Outro dia, estava almoçando com minha irmã mais velha, Thatiany, e resgatando algumas memórias da infância nas quais nosso pai estava presente. Ela lembrou quando sofreu racismo na escola e ele foi no colégio tirar satisfação sobre o caso. Chegando lá, disse para diretora, que não “conseguia” enxergar atitudes racistas em sua escola, o seguinte: “onde a senhora nunca vai pôr o dedo, eu sento a bunda”. Rimos por muito tempo e louvamos essa “bunda” ousada, que ocupou muitos espaços, destinados a uma elite branca e rica.  Dentre os meus irmãos, fui a primeira a ter um diploma de graduação, e não me orgulho disso. Hoje, me orgulho de dizer que mais uma irmã fez faculdade. Faculdade privada, porque a universidade pública ainda é muito restrita aos pretos e pretas desse país.

Minha mãe, Maria Eugenia da Fonseca Rocha, começou a trabalhar aos 14 anos, ao longo da vida foi datilógrafa, secretária, balconista, vendedora, ambulante e empregada doméstica. Nunca fez faculdade, porque a prioridade era trabalhar para sustentar a casa e ajudar a criar as irmãs, mas sempre me dizia que seu sonho era me ver formada, doutora: “minha filha, você é preta e pobre, portanto, precisa ser a MELHOR”. Ela trabalhou duro, em dois e até três empregos de uma vez, para me fazer ser a melhor. Contei a história dos meus pais, hoje meus ancestrais, porque tem tudo a ver com a futura doutora que sou hoje. Saudei, no início, as minhas mais velhas e os meus mais velhos, que lutaram contra o mito da democracia racial, contra o genocídio do povo preto, contra toda violência que incide sobre as mulheres negras, e que conquistaram as cotas e a lei 10.639, porque sem eles eu não estaria aqui.

Estudei até o fim do primário em escola pública municipal e depois fui para o Colégio Pedro II, fiz prova e entrei na “recla”, da “recla”, da reclassificação. Na época, a gente tinha o grêmio e as lutas pelo passe livre, mas nenhum coletivo preto ou feminista na instituição, como hoje. Fiz parte dessas lutas, mas não via, todas as minhas questões, enquanto mulher negra, representada nelas. Eu era então, apenas a Carol Macaca da escola, chamada assim mesmo pelos amigos mais queridos. Nessa época, um professor de história negro, Célio Generoso, que me incentivou a fazer vestibular. Entrei na UERJ em 2005, o cenário era de uma turma noturna de serviço social, majoritariamente preta e cotista, na qual vi muitos colegas desmaiando de fome, depois de um dia intenso de trabalho. Havia muita solidariedade e ajuda entre nós e também muitas pautas em disputa, nos questionávamos, por exemplo, sobre como manter os alunos cotistas na universidade e pedíamos a bolsa permanência, ameaçada hoje pelo Governo do Estado.
Saí da UERJ e fui para UFF cursar história, meu grande sonho. Descortinava a minha frente, a partir de então, outro contexto: curso diurno, pouquíssimos pretos e pretas. Depois veio o mestrado, nenhum preto ou preta no corpo discente, nenhum professor preto ou professora preta. Adoeci no mestrado e depois veio trabalho e mais trabalho. Até que finalmente o doutorado, de novo na UERJ. Esse ano, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, o IESP, fundamos um coletivo de alunas pretas e alunos pretos, infelizmente com quórum reduzido, mas muita coragem e vontade de ver mudar a cor da pós-graduação nesse país. Criamos, aos moldes do que foi feito pelo coletivo de pretas e pretos do Museu Nacional, um curso preparatório para o ingresso no mestrado de alunas negras e alunos negros. Lembro-me do primeiro dia de aula, turma cheia, preta, trabalhadora, e com idades mais avançadas do que se costuma a ver na universidade. Desses, três alunos/alunas passaram na prova, o que para nós foi uma grande vitória.

Hoje faço parte da Comissão da Diversidade de Gênero no Colégio Pedro II, que agrega vários coletivos de alunas negras e alunos negros, vou às reuniões para ouvir e aprender com eles. O quanto tem nos ensinado os coletivos autogestionados nas escolas? O que significou ver escolas de todo Brasil ocupada por alunos e alunas em busca de melhores condições e menos opressões? Estamos aprendendo muito com essa nova geração que nos indaga: a escola é de quem mesmo? Pensando em tudo isso comecei em 2015, enquanto doutoranda, a dar oficinas em escolas públicas para falar de racismo religioso e intolerância religiosa. Porque não acredito em uma universidade que não é capaz de dialogar e fazer sentido na educação básica. Existe uma hierarquia verticalizada, trazida, inclusive, no nome do tal “ensino superior”, que nos distancia e desagrega. Assim, em dúvida, o movimento negro, os tantos movimentos de reivindicação que tem se mobilizado pelo país, o Candomblé e minha família, para além da escola formal, foram os grandes educadores da minha vida. O cenário atual, é de muita opressão e desânimo, mas a resposta a esses tempos difíceis tem se mostrado, igualmente, potente. A Marcha das Mulheres Negras nesse ano, em Copacabana, foi um desses momentos lindos e fortalecedores das nossas lutas.

Infelizmente, a realidade educacional brasileira continua confirmando o caráter estrutural da desigualdade racial no país. Segundo os dados estatísticos do censo de 2010, mais de 800.00 crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos estão fora da escola, e cerca de 500 mil destas são negras. De acordo com os dados do IBGE (2010), sete em cada dez negras e negros não completam o Ensino Fundamental e, somente 2,2% ingressam na universidade, contra 80% dos alunos brancos e alunas brancas. A maioria de nós, alunos negros e alunas negras, estão na escola pública, que além de enfrentar dificuldades referentes a recursos e infraestrutura, costuma ser despreparada para lidar com o racismo e com a implementação da Lei Federal 10.639/03, atualizada na lei 11645/08, que se refere à inclusão do ensino de História da África, das questões raciais e da cultura afro-brasileira na grade curricular. A aplicação da lei é de suma importância para recuperar em sala de aula tensões raciais silenciadas, recuperar a autoestima e a história de nosso povo e repensar o papel da negra e do negro no Brasil como sujeito protagonista na construção social.

Ainda que o duro golpe da pretensão de uma escola sem partido nos assole, precisamos continuar a luta para que alunas negras e alunos negros tenham representatividade na história do Brasil, para além de uma população escrava homogênea, passiva e submissa. Dessa forma, precisamos pensar em formas outras de pedagogias que atendam de forma melhor a realidade dos nossos alunos de favela e periferia no Brasil, majoritariamente negras e negros. Azoilda Loretto da Trindade, importante professora e ativista negra brasileira, ao enfatizar a importância do uso dos “valores civilizatórios afro-brasileiros” para a educação infantil traz novas perspectivas sobre os saberes africanos, constantemente silenciados, que herdamos: “Valores inscritos na nossa memória, no nosso modo de ser, na nossa música, na nossa literatura, na nossa ciência, arquitetura, gastronomia, religião, na nossa pele, no nosso coração”.  Assim, destaca princípios como energia vital, oralidade, circularidade, corporeidade, musicalidade, ludicidade e cooperatividade. Trazer essas narrativas e memórias, e compartilhar com outros educadores traz alternativas para superar o racismo, e colabora com o projeto que luta por uma educação inclusiva e crítica, na qual o racismo, o sexismo, a homofobia, os conflitos e os preconceitos de classe, não fiquem esvaziados em um discurso de universalismo cego às diferenças, mas sim, sejam objetos a se desconstruir em uma luta por igualdade.

Referências

  1. Comunicação apresentada no Seminário Raça Negra e Educação 30 anos depois: E agora do que mais precisamos falar? no dia 24 de agosto de 2017, na UNIFESP, em São Paulo. O evento foi dedicado ao resgate das temáticas publicadas na revista Cadernos de Pesquisa n. 63, intitulado, “Raça Negra e Educação”, que completa em 2017, 30 anos. A proposta foi realizar o encontro da geração propositora dos textos de 1987 com atores e atoras que, na atualidade, discutem as temáticas das ainda persistentes desigualdades educacionais para negras e negros no país. Resultou de um esforço conjunto entre o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Paulo (NEAB-Unifesp), a Fundação Carlos Chagas (FCC) e a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN).
  2. Carolina Rocha Silva é mulher negra, escritora, militante feminista e professora. Mestre em história pela UFF e doutoranda em Sociologia no IESP/UERJ. É pesquisadora da Coordenadoria de Experiências religiosas africanas e afro-brasileiras, racismo e intolerância religiosa, vinculada ao Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER-UFRJ). Autora do livro: “O Sabá do Sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí Colonial”, Paco Editorial, 2015. Membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e do Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros (COPENE). E-mail para contato: carolinarocha18@gmail.com.
  3. TRINDADE, Azoilda Loretto da. Valores civilizatórios afro-brasileiros na educação infantil. In: Valores Afro-brasileiros para a Educação. Salto para o futuro. Disponível em: http://www.diversidadeducainfantil.org.br/PDF/Valores%20civilizat%C3%B3rios%20afrobrasileiros%20na%20educa%C3%A7%C3%A3o%20infantil%20-%20Azoilda%20Trindade.pdf.

Imagem – Rachel de Oliveira, Carolina Rocha, Nilma e Zélia Amador de Deus, Arquivo pessoal.