Por muito tempo a gente ficou feliz por nos “darem uma chance”’ na universidade – depois de muita luta, claro – porque, afinal, nosso lugar também é lá. Daí graduação, mestrado, doutorado, pesquisas, ong’s, trabalhos precarizados e aquelas chamadas familiares que nos convocam ao nosso lugar. Aí a gente perde as agendas e compromissos, chega atrasado, a porcaria do transporte não ajuda. Daí a gente vai percebendo que se conecta com o mundo e contribui com ele a partir de nossas trajetórias e vivências, mas têm umas coisas que não vão mudar.

Sabe aqueles tempos que nunca ficávamos na primeira fila guiando a turma de mãos dadas com a professora? Aquele lugar de ‘puxar’ a turma não era nosso. O lugar do toque na mão da tia passava longe. Não era em nosso o carinho nos cabelos. O comprido rabo de cavalo liso de laço era quase um símbolo platônico de uma sensação que não seria a nossa. Aquele balançar leve de cabelo na frente da fila não seria alcançado, nem mesmo se a mãe alisasse ou passasse produto “relaxante”. Em geral, a testa estava esticada porque os cabelos estavam bem puxados para trás. Os coques dos dois lados da cabeça e a puxada para o penteado faziam doer a testa nos primeiros minutos. Depois a gente esquecia, brincava feliz no recreio até voltar para fila e, ver de novo, lá na frente, a menina com o rabo de cavalo balançando sendo acariciado pela tia.

Com o tempo a gente vai percebendo que a tia é nossa professora e que pode nos ensinar coisas muito importantes. Muitas tias vão aparecendo, algumas conseguem olhar para gente e nos encorajar a seguir em frente. Depois vêm os “tios” que logo percebem antes de nós as coisas esquisitas que estão acontecendo em nosso corpo. Daí você percebe que eles podem criar situações para que possamos dar as costas para eles. Com o tempo a gente percebe que o balançar do nosso andar está sendo observado e, que , há um peso esquisito em carregar nosso corpo por aí.

A gente segue, descobre que tem coisa boa nesta fase. Tem aquele menino lindo, mas já sabemos que vamos nutrir por um bom tempo a observação de longe, até que um dia ele olha pra gente indo embora com as amigas. Ele sussurra com os colegas com riso escachado que somos diferentes da menina do laço. Daí a gente até fica animada, se percebe bonita e acha que nosso corpo é uma marca de distinção que deve ser exibida, mas alguma coisa fica esquisita  quando nos atentamos que não é assim que as coisas acontecem na frente dos amigos. É dolorido.

A gente conhece uma tia bacana que mostra que outras gerações fizeram história. Tá certo que as figuras nos livros da escola nunca foram nada inspiradoras, mas era bom ficar imaginando como era viver num espaço coletivo resistindo a quem achava que éramos sua propriedade. Aqueles rostos sofridos com grilhões até impressionavam, mas dava uma sensação de impotência que foi sendo desconstruída depois que a gente descobriu as disciplinas de história, geografia, sociologia, filosofia – essas duas quando tinha professora e quando era um assunto que nos fazia perceber que podíamos ser alguma coisa a mais do que o olhar dos outros dizia.

Com o tempo a gente cresce e aprende que a gente pode, a gente é! Mas o olhar da tia sempre está lá. O olhar de quem precisa verificar se você realmente é capaz de fazer a tarefa, o lugar que diz “que bonitinho” quando seu desenho fica visivelmente ‘fora dos padrões’. Ela sorri com aquela pupila que não acompanha o riso. Depois percebe também que há muitos “tios” criando situações para que a gente ande antes deles enquanto nos observam. É um caminho tão tortuoso aprender a lidar com eles, mas depois percebemos que podemos fazer muitos outros movimentos para além daqueles em que só estamos na frente para sermos observadas por trás.

A gente cresce e percebe que certas estruturas não mudam e parecem que não vão mudar.

Hoje estamos em muitos lugares e devemos estar! Mas eu fico pensando se disputar a atenção da tia, e mesmo dos tios, parece não fazer mais sentido. Aquele capital cultural vai custar muito mais tempo para chegar (se chegar), aquela remuneração vai ficar fixa por um bom tempo, vamos demorar para aprender todos os novos tipos de frios servidos no coquetel e a como se comportar numa cafeteria. O espaço do café da livraria também pode ser nosso, mas às vezes desistimos de comer aquele bolo por conta dos olhares esquisitos acompanhadores de nossos movimentos bucais.

Sim, às vezes você os ignora e saboreia, mas tem dia que nem quer passar perto disso. Daí a gente demora entender que não precisa se obrigar a estar ali para estar no mundo, mas também fica se perguntando porque está se sentindo desconfortável em sentar e comer um bolo. São estes questionamentos cotidianos, por vezes solitários, outras vezes compartilhados que nos permitem ir seguindo e, sobretudo, crescendo quanto mais amplos vão sendo as formas de contato e relação com quem não é tratado tão desigualmente no mundo. Daí há um horizonte nebuloso que pode nos conduzir a sedução da aceitação e reconhecimento de quem parece que descobre nossas experiências agora como num susto ou surto de que raça existe!.

A gente vai percebendo que a aceitação e o reconhecimento podem ser a face de uma dimensão muito perversa do mundo atual, aquela que nos coloca dentro de enquadramentos que não absorvem nossas múltiplas possibilidades de ser.

Eu acho que estar perto da tia da escola pode ser muito dolorido e que a gente tem que seguir onde quiser na fila, na livraria e em qualquer lugar onde nos dar prazer, sobretudo, onde podemos ser muitas e muitos nesse mundo bizarro. Vamos seguindo!

Imagem de destaque – LiveStrong