“Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive da felicidade”.
Charles Chaplin

Se Azoilda estivesse viva, completaria 60 anos no domingo, 10 de dezembro de 2017.

Este é o terceiro texto em sua homenagem a ser publicado aqui no Blogueiras Negras.

Escrever ou falar da importância de uma pessoa na nossa vida individual e coletiva é sempre um desafio, ao menos no meu caso, pois sempre acho que esqueci ou exagerei em algo!!!

Mas vamos lá, o ano era 1985 e foi criado para o quadro da educação pública nos CIEP’S, o cargo dos coordenadores de animação cultural. A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ) ainda não sabia onde entravam em seu Projeto Político-Pedagógico, esses artistas de teatro, de rua e da comunidade, como envolver todos esses novos atores no processo educativo escolar???!!!

Enfim aos poucos fomos construindo novos diálogos e dentro dessa comunidade escolar na equipe do Ciep Tancredo Neves, se encontrava a professora Azoilda Loretto da Trindade dentre outros, que também acreditavam numa educação igualitária.

Logo formamos um grupo participativo, nos sentindo incluídas, respeitadas e valorizadas, exercitando assim uma democracia na qual todas éramos ouvidas e respeitadas dentro das suas diferenças, nas nossas linguagens e ações, transformando a sala de aula num espaço mais acolhedor, crítico e criativo.

Dentro desse novo sentido etimológico a escola teve que renovar seu olhar.

Fora do trabalho nos tornamos amigas, companheiras de festas, de lutas e encontros. Passamos uma boa época sem trabalharmos juntas, mas nos víamos esporadicamente, pois ela estava fora do Ciep.

Assim no ano 2000, quando ela foi fazer seu mestrado e tinha que faltar na nova escola que dava aula, ela me contratava para substituí-la na E.M. Romão Duarte com a sua turma de educação infantil; e eu como arte-educadora planejava as aulas, que agradavam as crianças, dentro da linguagem plástica, musical e audiovisual da minha formação.

E então ela me dizia que elas, às vezes, lhe perguntavam: “Tia Zô, quando a senhora vai faltar para a tia das brincadeiras vir”. Nós caíamos na risada.

Essa foi mais uma das marcas que ela me deixou, a espontaneidade.

Então surgiu o projeto a Cor da Cultura! Estávamos outra vez juntas com outras pessoas diante de um desafio e de uma mudança no currículo escolar praticado, falando de um lugar que já nos pertencia, a educação para as relações étnico-raciais, a valorização da diversidade étnica e cultural brasileira, o racismo que nos cerca no dia-a-dia.

Ela transformando através dos seus estudos e textos a discussão da lei 10.639/2003 sobre a “História e a Cultura Afro-Brasileira” dentro da comunidade escolar, e eu através da minha vivência pessoal, fui então novamente me engrandecendo com a sua sabedoria e afetividade.

Ela veio me transformar e me fazer dar mais um passo em minha vida através da convivência com a galera da Cor, sendo a Cor da Cultura fundamental na minha trajetória profissional, pois fui me colocando e me vendo por minhas falas e pelas falas de cada um(a) participante desse momento de reconhecimento e transformação advindos da tríade Academia, Militância e Escola Básica. E assim finalmente cursei uma faculdade!!!

Gostaria que todos tivessem tido a oportunidade em estar e conviver com essa pessoa especial dentro da sua vida. Assim, posso falar com muito orgulho que tive essa felicidade em todos os sentidos do ter na pessoa da Azoilda Loretto da Trindade, minha mestra, minha musa e, mais ainda, minha simplesmente amiga.

A você meu carinho eterno e sinceros votos numa só palavra: – Gratidão.

LEGADO DE ZÓ

E ainda seguindo seu legado, continuo me construindo e me envolvendo nas Giras e nas Magias que você nos deixou de herança. Herança essa partilhada em textos, vídeos, falas de amigas. SIM, você foi uma mulher que soube agregar mulheres negras e não negras em sua celebração e na preservação de suas ideias de afetuosidade e generosidade para entender nossas humanidades múltiplas e diversas.

Com você, no dizer da amiga Ana Paula Brandão: “sou porque você foi!”.

Dessa trajetória que foi sua vida de viagens, sabedoria e afetos e, que marcou pessoas queridas com seus conhecimentos, também faço parte.

E eu estou junto a elas, que se autodenominam “Legado de Zó”, vivenciando as giras da Zó com a ampliação do universo criativo de crianças e jovens em espaços públicos com a doação do acervo recebido com mais de 1500 livros de literatura infanto-juvenil, distribuídos entre:

  1. Abrigos: Casa da Acolhida no Catete – Zona Sul Carioca e Programa de Acolhimento Institucional de Mendes – Casa da Criança, no município de Mendes, região Centro-Sul fluminense;
  2. Escolas Municipais: E.M. Etiene de Souza no município de Japeri – Baixada Fluminense, E.M. Chile em Olaria, EDI (Escola de Desenvolvimento Infantil) Azoilda Loretto da Trindade (Tia Zó) na Nova Holanda – Maré e Colégio Brigadeiro Newton Braga no Galeão, todas na Zona Norte Carioca.

Zó sendo espalhada através dos universos infanto-juvenis de suas escolhas literárias para esse público que ela amava e em espaços onde ela circulou com seus valores civilizatórios, legados a todas nós.

Em 25 de novembro de 2017, fizemos o segundo Passeio Afetivo – Giras da Zó no Centro do Rio de Janeiro e no Quilombo Bracuí, em Angra dos Reis.

Iniciamos o roteiro no Baobá, árvore centenária, cuja simbologia nos remete ao esquecimento que também é memória, e para nós, celebração da vida e de nosso caminhar com a potência legada por Zó.

Em sua narrativa acerca dessa árvore e suas simbologias, Azoilda comove e sustenta nossas alegrias e dores. Em torno do baobá, nos permitimos celebrar o ritual das sete voltas para mulheres e das nove para os homens, nos abraçando e girando e girando.

Nessa árvore sagrada existente no Passeio Público, possivelmente plantada por seu idealizador, Mestre Valentim, no final do século XVIII, retornarmos às histórias que vieram do além mar.

Após esse emocionante ritual, pegamos o caminho para a Estrada de Santos, onde Dona Marilda e sua família, ativistas e guardiões da memória do Bracuí nos aguardavam para suas histórias dos passados presentes de todas e todos nós. Histórias do mar e da montanha, territórios que guardam marcas do nosso povo negro. Um dia para se ter na memória!

Agora aguardando a Magia das próximas Giras da Zó para que possamos dar início a novas e contínuas convivências que permeiam nossas vidas e nossos corações.

E que venha um ano bom!!!!

Imagem destacada – Azoílda Loretto Trindade Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Colégio Dom Pedro II.