A luta pela emancipação feminina caminha pari passu ao desenvolvimento e evolução da humanidade na busca pelos seus direitos e liberdades cidadãs. Da Roma antiga chegando ao século XVIII muitas mulheres deixaram seu nome na história da civilização, adentramos o século XIX e XX com a atuação das mulheres cada vez mais consolidada na vida pública, enraizando conquistas que possam garantir voz e vez em todas as esferas da vida cotidiana, em especial na visibilidade das suas reivindicações e inserção política.

A esfera pública política desde tempos imemoriais é um lugar reservado ao privilégio masculino, branco, heterossexual e de alto poder aquisitivo; adquirido através de terras, escravos e ações na bolsa de valores. Essas são as características dos donos do poder, proporcionado através da detenção dos meios de produção, meios comunicação e num fenômeno mais recente a partir do tráfico de influência.

A mulher foi reservado o universo privado aquele conhecido como do lar, do cuidado e dos filhos, espaço esse onde as habilidades, a inteligência, a sagacidade e a formulação do pensamento eram, e ainda o é, abafado pelo choro das crianças, o farfalharem da vassoura e a urgência das panelas.

A partir da metade do século XVIII com a entrada das mulheres no trabalho fabril por causa da Revolução industrial esse lugar passou a ser questionado, já que agora a força do trabalho feminino é considerada parte da cadeia produtiva, ainda que mal remunerada e sujeita a todo tipo de humilhação, é parte da força de trabalho que aumentava os lucros da burguesia, além de ser um complemento à renda familiar da época, não diferindo muito dos dias atuais.

Essa entrada nos processos industriais transportou a mulher para o mundo “extra lar”, ou seja, ao universo masculino, esse ingresso ao mundo do trabalho proporcionou a elas consciência e valorização do seu lugar nesse contexto enquanto força colaborativa de desenvolvimento social, essa nova perspectiva leva as mulheres a outro patamar de participação exigindo desse mundo historicamente masculino seu lugar e mais, direitos como igualdade na jornada de trabalho, nos salários e também ao voto.

Da mesma forma que os espaços de poder estavam destinados aos homens brancos, os empregos fabris, ainda que mal remunerados e sujeitos a condições insalubres, estavam reservados as mulheres brancas.

As questões relacionadas a trabalho, política, acesso e efetivação de direitos perpassam os conceitos de gênero e raça, porque tanto as mulheres negras quanto os homens negros estavam acostumadas ao trabalho desde o inicio da escravidão nas Américas.

A época da escravidão exige uma dimensão mais profunda do quanto às forças de trabalho masculino e feminino foram igualadas, ou seja, mulheres negras e homens negros exerciam o mesmo tipo de trabalho nas lavoras, realizado de sol a sol com a mesma violência que caracterizou o regime escravista, com o acréscimo das mulheres negras estarem expostas ao estupro sistemático tanto de senhores como de capatazes.

O trabalho é fator central na construção, formação e atuação na vida das mulheres negras na história contemporânea no que se refere à luta e conquista de direitos, o que exige de nós entendimento de que as conquistas feministas foram e são fundamentais para a emancipação da sociedade, mais que parte desse contingente feminino esteve à margem do processo de construção dessas lutas e mais ainda, estão na atualidade longe de poder usufruir da grande maioria delas, além de empatia pela história luta dessas mulheres invisibilizadas pela história, mais que mesmo assim permanecem sobreviventes.

A transformação do papel da mulher na sociedade acontece quando há o reconhecimento de todas as pessoas como indivíduos dotados de direitos civis, políticos e sociais e a conquista do voto é um exemplo desse direito básico para o pleno exercício da cidadania.

Nos EUA o caminho das mulheres pelo direito do voto, teve seu inicio na luta antiescravagista, quando elas se opuseram ao machismo da época porque perceberam que a opressão contra os negros era o que dava suporte a sua própria opressão. Foi em 1948 na convenção pelos direitos da mulher de Seneca Falls, que pela primeira vez foi apresentada a proposta de voto para as mulheres.

Enquanto as mulheres brancas buscavam através da luta pelo voto a afirmação da sua autonomia fora de das tarefas do lar e as mulheres trabalhadoras reivindicaram o direito ao voto como uma possibilidade para a luta de classes, as mulheres negras, apesar da sua disposição em juntar forças para alcançar a vitória nesse pleito e te-lo feito em muitos momentos, foram preteridas do “movimento sufragista” pelo receio da suspensão de apoio ao movimento.  

Mesmo depois de aprovada a 19º Emenda que concede as mulheres americanas o pleno exercício do voto, as mulheres negras foram impedidas de exercer seu direito de forma violenta, principalmente nos estados do Sul dos EUA.

No Brasil varias foram as mulheres que lutaram pela emancipação feminina de Nísia Floresta que responsabilizava a ignorância em que as mulheres viviam como a causa de suas dificuldades; passando por Amélia Rodrigues e Maria Tomásia Figueiredo de Melo que respectivamente lutavam pelo ingresso de mulheres na luta do Paraguai e pela abolição; Pagu que em 1889 denunciava as condições dos imigrantes aportados por aqui.

Berta Lutz foi o grande expoente da conquista do sufrágio feminino no Brasil, conquistado através do Decreto-Lei 21.076, de 24 de fevereiro de 1932 pelo então Presidente Getúlio Vargas, mas somente às mulheres casadas, desde que tivessem a autorização dos maridos, viúvas e solteiras que tivessem renda própria podiam votar. No entanto somente em 1946 que se efetivou obrigação do voto as mulheres.

A situação das mulheres negras no Brasil pouco se diferencia das mulheres negras americanas, a não ser pela forma com que se caracterizou a escravidão, embora a violência e as condições de subjugação dessa mulher tenham sido a mesma, nos EUA as mulheres negras tiveram “melhores” condições de subverter a ordem social e se colocar como sujeitos de direitos, porque o racismo americano não é estrutural como no Brasil.

O combate ao racismo enquanto elemento estrutural da sociedade, somente terá eficácia quando instrumentos legítimos como o voto chegaram ao mesmo tempo para homens negros e mulheres negras.

O feminismo negro nasce da necessidade de transversalizar as lutas cotidianas que oprimem as mulheres, a conquista do voto feminino no Brasil só será efetiva quando parte de parcela significativa dessa população tiver pautas como equiparação salarial, exploração da mão de obra, a efetivação das leis, aborto, genocídio da juventude negra discutidas nos espaços de poder onde se constroem o planejamento e os programas de governo, até nós mulheres negras ainda temos muito que caminhar.