Zora Neale Hurston (1891-1960) “gênia do sul”¹, foi aluna de Franz Boas – o pai da antropologia culturalista-, primeira antropóloga a pesquisar o negro e a religião vodu de uma perspectiva não racista nos EUA, mulher e negra. Como ainda pouco (ou nada) conhecemos, estudamos e discutimos sua obra no Brasil?

Hurston, assim como inúmeras figuras negras importantes em termos de contribuição acadêmica, foi vítima do apagamento imposto à história, trajetória de vida e do epistemicídio em relação a sua produção intelectual.

Nascida na pequena cidade negra de Eantoville na Flórida em 1891, Hurston foi antropóloga – estudando com Franz Boas-, romancista e folclorista. Como literata participou de movimentos como o movimento intelectual e artístico negro Harlem Renaissence, publicou nada menos que quatro romances, diversos contos, peças e artigos, além de dois livros. Apesar disso, apenas um de seus livros foi publicado em língua portuguesa no Brasil, seu romance mais conhecido Seus Olhos Viam Deus (1937), escrito enquanto Zora realizava um trabalho de campo no Haiti para uma de suas pesquisas antropológicas sobre vodu. É inclusive este trabalho que lhe rendeu a consideração de primeira antropóloga afro-americana a pesquisar a religião vodu a partir de uma perspectiva não racista, além de ter se tornado, “a mais importante coletora de folclore afro-americano na América”².

Apesar do grande sucesso de suas obras nos EUA em meados dos anos 1940, nas últimas décadas de sua vida Zora foi lançada ao esquecimento, morrendo solitariamente no ano de 1960 num asilo. É só nos anos 1970, a partir da descoberta de Alice Walker (famosa autora da “A Cor Púrpura”) que a obra de Hurston é resgatada do esquecimento e a venda de seus romances dispara nos EUA. Como nos conta Rafhaella Oliveira, esse resgate feito por Walker parte de uma estratégia de difusão solidária dos saberes produzidos por mulheres negras nos EUA. (Oliveira, 2014:77)

Mesmo tendo dedicado boa parte de sua vida à pesquisa antropológica, sua contribuição foi e continua sendo praticamente ignorada pelas (os) antropólogas (os) brasileiras (os). Podendo tranquilamente afirmar que para a antropologia brasileira, Zora Neale Hurston (e sua contribuição) é desconhecida. Comparativamente, como bem pontua o antropólogo brasileiro Alex Ratts: “A antropóloga e escritora afroestadunidense Zora Neale Hurston, pesquisadora das culturas negras do sul dos Estados Unidos e caribenhas, especialmente da religião, orientanda de Franz Boas, não é traduzida para a língua portuguesa e pouco ou nada é lida ou citada na Antropologia brasileira, ao contrário de Ruth Benedict e Margareth Mead, que tiveram o mesmo orientador.” (RATTS, 2006:31) E que eram brancas.

 

“Pode a Subalterna Falar?… e Ela Escreve?”

Sobre sua trajetória como antropóloga, Hurston ao pesquisar as manifestações religiosas do vodu no sul dos EUA e no Haiti (país de origem do vodu), pretendia desconstruir visões estereotipadas e racistas sobre essa religião e o negro, até aquele momento, difundidas e perpetradas em obras como os livros: Canibal Cousins (1934) e Black Baghdad (1933) de John H. Craige, publicados apenas dois anos antes da pesquisa de Hurston.

Hurston recebeu muitas críticas tanto em relação a sua obra literária – em que é acusada por homens negros de construir uma imagem caricaturada do negro ³-, e na antropologia – em que ao narrar em primeira pessoa, Zora romperia com uma formação antropológica acadêmica e formal, explicitando uma relação [indesejada para a área na época] de proximidade da antropóloga com seu objeto de pesquisa, desmascarando assim, a inexistência de uma suposta objetividade, além de escrever seu material em uma linguagem que misturava “mito” e antropologia, onde seu trabalho transitaria entre uma “verdade” antropológica e um conto, isso segundo seus críticos (Dutton, 1993).

Outra questão diz respeito ao objeto de pesquisa de Hurston, em que supostamente haveria um conflito entre fazer uma antropologia que teria como objeto de pesquisa o vodu (religião de negros) e o folclore, sendo a antropóloga também negra, posição que parece querer desclassificar uma perspectiva do negro sobre si mesmo, só podendo ser descrito aos olhos do branco*. Muitas dessas críticas foram e são importantes à problematização da obra de Hurston, mas o quanto elas não estavam relacionadas ao fato dela ser mulher e negra, é difícil dizer.

Em relação a esse processo de mostrar o vodu fora de uma perspectiva racista (além de observar o poder feminino dentro da religião), Serena Volpi afirma haver um processo baseado na ideia de Paul Gilroy de Roots e Route [Raízes e Rotas] por parte da autora, em que a antropologia seria uma forma de buscar as raízes africanas e uma rota [alternativa] para enviesar uma crítica afro-americana.

Nos anos 1920 nos EUA, haveria uma explosão de mulheres negras produzindo nas mais diversas áreas (produção nesse momento ignorada pela academia), apesar disso, os estudos sobre raça eram sempre atrelados aos homens [brancos], os estudos de gênero às mulheres brancas, e os de raça e gênero aos homens negros – que eram os porta-vozes oficiais desses grupos-, cenário que começa a mudar nos anos 1970, quando essa produção se sistematiza e é incluída na academia, o que teria resultado em um processo de quebra de hegemonia branca e masculina dentro da literatura.

É interessante notar, que esse movimento diz respeito à área específica da literatura, pois, quando tratamos da produção de mulheres negras na antropologia, a questão se torna mais complexa. No Brasil, muito pouco da produção literária de mulheres negras é estudada dentro da academia, na antropologia então, o estudo da produção de mulheres negras é praticamente inexistente.

É claro que Hurston pode ter tido posições ambíguas que merecem críticas, mas negar a produção antropológica desta mulher negra estadunidense que tanto teve e tem a contribuir para a antropologia, é perpetuar o epistemicídio e racismo aos quais sua obra e trajetória estiveram/estão sujeitas. Como disse Maya Angelou: “Não há maior agonia do que ter uma história não contada dentro de você”, creio que Zora achava o mesmo.

Notas de Rodapé

  1. Parte da descrição de Alice Walker na lápide de Hurston. Disponível em: http://www.reitoria.uri.br/~vivencias/Numero_010/artigos/artigos_vivencias_10/li9.htm
  2. Em: Hurston, Zora Neale 1891–1960.
  3. Onde esses homens viram comicidade na imagem da pop. Negra, mulheres negras nos anos 1970 viram uma imagem de autonomia, descobrimento, liberdade e auto-afirmação (Em relação a Seus Olhos Viam Deus)
  4. *Não desconsiderando é claro, a vantagem social de Hurston como antropóloga, em relação às pessoas negras participantes da pesquisa.

 

Referências Bibliográficas:

Hurston, Zora. “Hoodoo in America.” The Journal of American Folklore, vol. 44, no. 174, 1931, pp. 317–417. JSTOR, JSTOR, www.jstor.org/stable/535394.

Dutton, Wendy. “The Problem of Invisibility: Voodoo and Zora Neale Hurston.” Frontiers: A Journal of Women Studies, vol. 13, no. 2, 1993, pp. 131–152. JSTOR, JSTOR, www.jstor.org/stable/3346733.

HURSTON, Zora Neale. Seus Olhos Viam Deu. Editora Record, 2002.

Cohen, Gustavo Vargas. Uma Parábola Extraordinária: as Linguagens de Zora Neale Hurston, 2010. Disponível em: http://www.reitoria.uri.br/~vivencias/Numero_010/artigos/artigos_vivencias_10/li9.htm#_ftn1

Oliveira, Raphaella. Alice Walker e Zora Neale Hurston: Resgate e Circulação de Escritos Invisibilizados.

Hurston, Zora Neale 1891–1960.” Contemporary Black Biography. . Encyclopedia.com. 7 Feb. 2018 <http://www.encyclopedia.com>.

Volpi, Serena Isolina. Body, time, and the others: African-American anthropology and the rewriting of ethnographic conventions in the ethnographies by Zora Neale Hurston and Katherine Dunha. Disponível em: http://bura.brunel.ac.uk/handle/2438/8302