Há muito venho discutindo sobre a questão do aborto, tenho recolhido opiniões diversas, algumas semelhantes a minha e outras nem tanto. A questão é que não expresso o sentimento de pró-aborto, assim como muitas quiçá a maior parte das mulheres que lutam por essa causa, a verdade é que vemos de maneira ampla essa descriminalização como forma de parar as mortes causadas pelo aborto ilegal, onde mulheres de “minoria” étnica tentam fugir de charlatões de fundo de quintal.

Fica de fácil avaliação social, quando nos perguntamos o motivo pelo qual essas mulheres desejam abortar (mesmo sabendo os riscos) que lhes são competidos. Será que de fato, nós mulheres queremos esse direito só para termos o poder de nossos corpos? Será que queremos abortar só para nos vermos livres de uma gravidez? Ou será que ao ver nossas condições sociais miseráveis nos fazem desistir de trazer novas vidas para o mundo?

Historicamente vemos que mulheres negras têm autoinduzido aborto (espontâneos ou não) desde os primeiros dias de escravidão por suas condições opressoras de vida cotidiana. Vale lembrar que em período escravocrata era comum também o infanticídio, uma forma desesperada motivada por essas condições. Um bom exemplo é o caso de Margaret Garner, uma escrava fugitiva que matou sua própria filha e logo após tentou suicídio quando os captadores de escravos a encontrou. Se comprazia pela morte de sua filha alegando que ela nunca iria saber o que uma mulher sofre sendo escrava e ainda implorava para ser julgada por assassinato dizendo que iria cantando para a forca em vez de voltar para a escravidão

(No momento em que eu estava escrevendo o relato sobre a preferencia da Margaret, me trouxe a memória relatos de mães brasileiras que trabalham como diarista o sacrifício que elas passam para que os filhos não tenham a mesma experiência que elas e por tal motivo tentam instruí-los com a educação)  

Voltando ao ponto inicial e nos teletransportando para o EUA por volta de 1970 tivemos uma forte onda de movimentos ligados aos métodos contraceptivos, vemos que o que era reivindicado pelas mulheres privilegiadas como ‘’direito’’ era ‘’imposto’’ a mulheres pobres para que elas tivessem um número inferior de filhos do que as privilegiadas por motivos de manter a supremacia branca/privilegiada. Comparando com as causas que nos cercam hoje no Brasil sobre a criminalização do aborto e com as informações que nós já temos, como o aborto irá continuar existindo quer queira quer não e mulheres não privilegiadas irão continuar a morrer nas clínicas (????) clandestinas enquanto as privilegiadas terão todos os recursos para tal ação, o que me dilata aos olhos é a semelhança no produto final, que é manter a supremacia privilegiada.