Recentemente nos deparamos com uma possibilidade que nos encheu de esperança: a de Conceição Evaristo, escritora mineira, ser a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na consagrada Academia Brasileira de Letras(ABL). No entanto, ao final do processo barreiras históricas oriundas do racismo, do preconceito de classe e do machismo fizeram com que a autora recebesse apenas 1voto de um total de 40, um dado extremamente significativo que comprova que a literatura de autoria negra segue dificuldades para encontrar legitimidade na sociedade brasileira, embora seja amplamente estudada em países como Estados Unidos e outros países da Europa.

A literatura de autoria negra em nosso país é ampla, mas infelizmente muitos autore(a)s seguem sem reconhecimento, além de encontrarem dificuldades de encontrar uma editora que publique suas obras. Basta notar que faz pouco tempo que figuras como Maria Firmino dos Reis, autora do primeiro romance abolicionista, e Lima Barreto, escritor que já denunciava o racismo em sua obra, têm sigo resgatados pela historiografia literária e recebido o devido reconhecimento.

A própria Conceição Evaristo afirmou que só conseguiu reconhecimento aos 71 anos, e que é preciso questionar as regras que contribuíram para isso. Embora a autora esteja desfrutando os frutos de sua dedicação à escrita, infelizmente muitos escritores e escritoras negros ainda seguem sendo invisibilizados pelos meios acadêmicos e literários e apontados como produtores de uma literatura de menor valor.

Embora tenha sido fundada por um escritor negro, Machado de Assis, e outros intelectuais brasileiros, a Academia Brasileira de Letras tem se mantido um espaço de exclusão da diversidade, consistindo em uma agremiação de políticos e intelectuais que gozam de prestígio na sociedade. A candidatura de Conceição Evaristo foi uma oportunidade de constatar que os critérios para escolha vão muito além do mérito dos candidatos e que ainda há muitas barreiras a serem transpassadas para que escritores e escritoras negras ocupem um espaço nesse lugar, um fato que seria muito simbólico.

Conceição Evaristo é doutora em Literatura e autora de contos, poesias e romances, e apesar de ter começado a escrever muito jovem, sua primeira obra, o romance “Becos da Memória”, foi publicada apenas 20 anos após sua escrita. Sua obra é baseada principalmente em memórias, e as personagens são geralmente mulheres negras que são protagonistas de sua própria história, são sujeitos e não objetos de análise retratados de forma distanciada e estereotipada.

Ao longo da obra de Conceição, observamos a valorização da ancestralidade, a importância que se dá ao resgate das vozes oriundas do imenso continente africano, do qual todos somos descendentes, para promover um discurso de valorização de nossas raízes afro-brasileiras. A autora nos encanta com personagens diversificadas que lidam com questões como racismo, machismo, preconceito de classe, abandono, violência de gênero, mas que ressurgem qual Fênix, se emancipando dessas amarras sociais que buscam manter a população negra na subalternidade.

Sendo assim, é importante questionar o que motivou a opção por um homem branco diante da possibilidade de promover uma mudança estrutural imortalizando a figura de uma escritora negra brasileira de grande notoriedade e relevância. Infelizmente ficou mais uma vez constatado que essa instituição não nos representa e não está disposta a contribuir para erradicar o racismo e o machismo que estruturam nossa sociedade. Essa instituição é fruto de uma sociedade marcada por desigualdades, preconceitos e continua excluindo a população negra.

Resta-nos perguntar: quem lê literatura de autoria negra? Hoje em dia, a literatura produzida por negro(a)s é conhecida como literatura negra, e esse é um dado importante para marcar que os textos produzidos, seja em verso ou prosa, têm o compromisso de romper com o mundo nomeado pelo branco, construindo personagens negras complexas que são retratadas de forma digna e são sujeitos do discurso. Podemos afirmar que o(a)s leitoressão pessoas que estão em busca de alternativas contra-hegemônicas, ou seja, de alternativas que não sejam eurocentradas e que representem personagens negras em suas múltiplas complexidades, para além da mãe preta, do negro de alma branca, do negro subserviente, da mulata hiperssexualizada ou animalizada, como é o caso de muitas obras escritas por autores majoritariamente homens.

Outra pergunta importante é: a Academia Brasileira de Letras está preparada para promover um discurso literário que questiona a sub-representação ou a representação simplista de segmentos da sociedade historicamente marginalizados (mulheres, negros, população LGBTQI+, por exemplo)? Sabemos que não, pois o cânone de nossa literatura, embora tenha sua exceções, imortaliza escritores que reproduzem um discurso que cristaliza estereótipos e, portanto, legitima o preconceito e contribui para a manutenção de uma mentalidade conservadora, uma visão reducionista que vê a diversidade como uma ameaça.

É importante destacar que entre as obras literárias da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) para ovestibular deste ano está a obra “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, e para o ano de 2020 está previsto entre as leituras obrigatórias as músicas do álbum “Sobrevivendo no Inferno” da banda Racionais, uma conquista importante da luta de movimentos sociais pela inclusão de autore(a)s negros em obras de Vestibular.

Sendo assim, quem lê literatura de autoria negra precisa estar disposto a encontrar novas narrativas, estando preparado para um possível desconforto pois, como a própria Conceição nos diz, “nossas histórias não devem servir para ninar os da casa grande, mas para incomodá-los em seus sonos injustos”. Dessa forma, é muito importante que leiamos cada vez mais obras de autoria negra para que possamos construir um outro olhar sobre o sujeito negro para além do viés europeu. É uma literatura que nos envolve e que subverte as lógicas que estruturam nossa sociedade.

Imagem destacada- O ciclorama