“A invisibilidade é a morte em vida”. Azoilda Loretto da Trindade.

Esta frase dita pela professora Dra. Azoilda Loretto da Trindade, presente! Nos leva a pensar o quanto um corpo preto é invisibilizado na sociedade brasileira. As violências sejam elas as mais diversas, executam os nossos sentimentos, o nosso corpo físico, os nossos sonhos. Ela, a Zô, com toda sua trajetória, sempre construiu uma proposta de educação dialógica, afetiva e que permitisse as crianças, jovens, homens e mulheres negras pudessem sonhar e torna-los realizados. Foi com ela que aprendi que dar visibilidade a nossa ancestralidade através dos Valores Civilizatórios Afro-brasileiros, a nossa intelectualidade negra e constituir uma proposta de afrobrasilidade e de DIÁLOGOS ENTRE POVOS. E com a sua passagem a Escola Municipal Professora Etiene de Souza Oliveira, localizada no município de Japeri na Baixada Fluminense, onde reside a segunda população mais negra do Estado do Rio de Janeiro, onde é visível a invisibilidade na educação publica, recebeu parte do acervo de sua biblioteca infanto-juvenil. Um acervo rico, potente para todos os territórios que o receberam e o receberão para dar continuidade, fortalecer esta luta e dar o direito à vida a esses corpos negros.

As Giras da Zó tem promovido várias atividades para fazer reverberar o legado desta intelectual negra tão fundamental na vida de mulheres e homens, em especial, na minha vida pessoal e profissional.

Neste momento, após a execução sumária da vereadora Marielle Franco, presente! Que com todo fervor denunciava o extermínio da população negra me fez lembrar de ti, Azoilda! Fiquei muito chocada, pois pensei em minhas alunas e meus alunos que tem os seus sonhos executados de diversas formas, pois as mesmas e os mesmos estão distantes desses sonhos, por serem privados de acessar o que há de mais lindo neste mundo. Seus e suas responsáveis que usam o trem a partir das 3h da manhã, muitas vezes as (os) deixam sós, pois trabalham a semana toda para assim levar um pouco de dignidade a eles e a elas, já que o município não oferece oportunidades. O trem que durante a semana leva esta mão-de-obra para os bairros nobres da cidade do Rio de Janeiro e no final de semana os horários de tráfegos são destinados a não possibilidade de estarem neste mesmo território para o lazer, a cultura, etc. É com esse legado e outras literaturas, em especial Carolina Maria de Jesus, que eu em parceria com outras colegas tentamos todos os dias mostrar-lhes que este mundo é nosso.

Nas Giras da Zó lemos as literaturas recebidas e promovemos rodas de leitura para sentir e escutar dos discentes os seus sentimentos em relação aos conhecimentos descritos nos livros.

A transversalidade sempre presente em nossas práticas vem não somente promovendo uma reflexão crítica das nossas alunas e dos nossos alunos através da escrita, assim como das rodas de conversas, mas fazendo-as (os) perceberem como seres em movimento e potentes. Foi nessa brilhante atividade que vivenciaram os Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros que permeiam o cotidiano escolar e muitas vezes são invizibilizados.

As frases grafitadas nos muros da escola em 2017, possíveis por conta da parceria com a Rede Nami e com a presença da afrografiteira Bia Arruda, demonstram todo um debate promovido pelas professoras envolvidas que cotidianamente discutem temas como racismo, homofobia, transfobia, feminicídio, intolerância religiosa e outras violências tão presentes neste território onde localiza-se a escola.

Depoimentos como: “Professora, foi a melhor aula que já tive” e observar o comportamento de uma aluna que em todo ano letivo pouco se manifestava, movimentou o seu corpo com sorrisos e sem vergonha do que é. Esse é o nosso propósito! Uma escola transgressora, que acolha a diversidade e respeite as diferenças mesmo que tentem nos silenciar nos dando uma escola precária e desrespeitosa. Azoilda Loretto, Marielle Franco, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Dandara, Antonieta de Barros, Janete Santos Ribeiro, Júlia Moraes, Ângela Ramos, Elane Barreto, Graziele Lira, Denise Guerra, Soraia Arnoni e todas e todos que não desejam a execução dos sonhos das nossas meninas e dos nossos meninos, GRATIDÃO!

Afeto e prática pedagógica

Tarefa difícil dar continuidade à reflexão de Marta neste artigo escrito a quatro mãos. E igualmente desafiadora, já que meu olhar é de fora do no chão da escola – embora já tenha tido passagens por lá quando dei aulas numa escola municipal da Cidade de Deus, em Jacarepaguá (RJ). Não trago, portanto, o relato de quem está no enfrentamento diário por uma nova educação. Meu depoimento é mais um testemunho do legado de Azoilda (presente!) a partir dos primeiros passos desta intelectual rumo à construção do seu pensamento na academia até a concepção de um legado de práticas no cotidiano escolar. Nossa querida Azoilda deixou sua contribuição para o universo acadêmico com a produção de conhecimento comprometida com uma escola livre do racismo, da ideologia do embranquecimento, da dominação dos corpos e do controle da fala. Ela investigou o que, de fato, acontece no chão da escola que dá condições para a produção e reprodução do racismo, abordando-o numa perspectiva microssocial e micropolitica. Os primeiros passos desta produção intelectual é a sua dissertação “O racismo no cotidiano escolar”, defendida em 1994 no Instituto de Estudos Avançados em Educação, da Fundação Getúlio Vargas (RJ).

Do seu legado de práticas no cotidiano escolar, destaco no pensamento desenvolvido por Azoilda a escola como espaço onde se vivencia na prática os princípios dos Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros, como já lembrou Marta acima. A escola imaginada, sonhada e experimentada por Azoilda é a escola que valoriza a história da ancestralidade do\a aluno\a negro\a; é a escola que não expulsa, mas acolhe; é a escola que reconhece o\a aluno\a trans; que não julga ou condena e sim, apoia o desenvolvimento da sexualidade. A escola sonhada, imaginada e vivenciada por Azoilda é uma escola que engrandece a criança ao invés de perpetuar maneiras de aniquilá-la.

Ao sugerir e resgatar dez dos Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros, Azoilda repensou a maneira pela qual a escola deve basear suas práticas cotidianas e priorizar a inclusão e o acolhimento. A circularidade, a religiosidade, a corporeidade, a musicalidade, o cooperativismo, a ancestralidade, a memória, ludicidade, a energia vital (axé) e a oralidade são valores vivenciados a partir da experiência africana e, posteriormente, dos negros nascidos nas terras brasileiras. São valores aptos a resgatar a humanidade, o respeito e o afeto entre as pessoas que os vivenciam.

Para Azoilda, a escola deve interromper o ciclo de reprodução do racismo, das discriminações e todos os tipos de desigualdades sociais para se tornar um espaço de reconhecimento e acolhimento das diferenças.

“Se o racismo produz problemas de afetividade nas pessoas, e se ele está em toda a sociedade, todas as pessoas, independente da cor da pele, são, a priori, passíveis de sofrer suas mazelas. Nosso enfoque passa a ser as crianças e jovens estudantes e seus/suas professores/as. Afinal, a afetividade e seus complicadores e facilitadores não se limita a tal e qual grupo social, mas a todos que fazem, conscientemente ou não, o cotidiano escolar”, afirmou Azoilda, para enfatizar sua percepção sobre a relevância do afeto, da emoção e dos sentimentos nas trocas pedagógicas.

Outro marco no legado de Azoilda: a sua proposta pedagógica transgressora e inovadora que apoiou a formação de professores do ensino fundamental e médio em todo o país e foi incorporada no Projeto A Cor da Cultura, coordenado pela Fundação Roberto Marinho\Canal Futura, no contexto da Lei 10. 639 – a lei que obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira no ensino médio e fundamental. Em diálogo com os Valores Civilizatórios Afro-brasileiros, Azoilda criou uma pedagogia da mobilização do sensível que insere e aprofunda uma leitura do mundo a partir da perspectiva afro-brasileira, além de incentivar que o Outro – neste caso, o/a professor/a inserido num sistema racista e excludente – se permita transformar a si mesmo e, posteriormente, a escola e também a sociedade.

Esta pedagogia possibilitou a formação de professores aptos a compreender os sentidos da oralidade, da circularidade, da corporeidade, e demais Valores Civilizatórios Afro-brasileiros, e a incorporá-los aos modos de ver, saber, sentir e estar no mundo escolar. Participei deste processo de formação em algumas cidades brasileiras e testemunhei momentos inesquecíveis e enriquecedores proporcionados pelo Projeto A Cor da Cultura em vários estabelecimentos de ensino espalhados pelo país. Há um rico material pedagógico disponível na página online do Projeto A Cor da Cultura.

Nesta breve reflexão sobre o legado de Azoilda, é importante ainda destacar o papel do afeto na prática pedagógica desta intelectual dentro e fora da escola. Em 2008, impactada com a morte prematura da psiquiatra, psicanalista e escritora negra Neusa Santos, autora do livro “Tornar-se negro” (1983) – que se suicidara naquele ano – Azoilda convidou um grupo de amigas, igualmente impactadas – e eu era uma delas – para compreender o que havia acontecido com a vida de Neusa Santos. Uma centelha poderosa foi acionada naquele encontro que mais tarde se materializaria no encontro anual das Rainhas Magas no dia de celebração dos Reis Magos, em 06 de janeiro. Atualmente são mais de 50 mulheres que contam suas histórias, vivências e as oferecem como um presente umas às outras nesta data emblemática, também transformada em espaço de homenagem à nossa mentora intelectual.

Os tempos, contudo, andam sombrios no atual contexto sócio-político brasileiro. Nestes anos de polarização e radicalização política, de fortalecimento do conservadorismo, a escola tornou-se alvo preferencial dos ataques conservadores, como a Escola Sem Partido, uma perigosa ameaça ao processo democrático brasileiro. Fazer os enfrentamentos necessários, combater o racismo em suas várias dimensões e garantir as bases uma sociedade igualitária e democrática são os grandes desafios nos dias atuais. Mais do que nunca, é preciso saber aplicar este conhecimento deixado por Zó. A nossa luta continua. Azoilda, presente!

Imagem de destaque: Arquivo pessoal