“… Gente, só é feliz
Quem realmente sabe que a África não é um país
Esquece o que o livro diz, ele mente
Ligue a pele preta a um riso contente
Respeito sua fé, sua cruz
Mas temos duzentos e cinquenta e seis Odus.”
(EMICIDA, Mufete)

Hoje, sabemos a importância de representatividade para a construção da identidade de crianças negras. É durante a infância que moldamos nossa autoestima, construímos a noção do “eu, do outro e da família”. É neste período que nos localizamos na sociedade. Nos diversos territórios frequentados durante a primeira infância, interagimos e trocamos com o outro e, por isso, é tão importante que a educação infantil tenha práticas institucionalizadas e implemente normas para igualdade racial e um espaço de aprendizado livre de racismo.

Falamos muito sobre a escola e a necessidade das práticas pedagógicas. Falamos muito da programação disponível na grande mídia. Falamos muito das propagandas das grandes lojas. E estamos certos! O que quero fazer aqui, agora, é uma provocação para juntos refletirmos e dialogarmos sobre a educação das nossas crianças negras:

– Para além destes espaços, você tem levado às crianças negras à lugares negros?

Lugares frequentados por pessoas negras. Exposições que contam histórias negras. Para brincar com outras crianças negras. Para serem cuidados por pessoas negras. Para comerem em restaurantes de culinária negra (africana, afro-brasileira). Para dançarem danças negras.

É muito difícil educar uma criança negra fortalecida em espaços majoritariamente brancos. A lógica é simples; precisamos oferecer elementos negros, espaços negros, cultura negra para que crianças negras se construam de forma sólida, positiva e grandiosa.

Não raro, oferecemos um leque de opções eurocêntricas para crianças negras. Esta exposição frequente de espaços, programação cultural, referências corporais, espaciais e artísticas – inclusive fora dos espaços escolares – é nociva para nossas crianças. E esta prática aliada ao racismo neste país, onde nossas representações negras nos foram negadas por tanto tempo, resulta na rejeição de “SER” negro.

Quantas pessoas relatam que se descobriram negras na Universidade? Ou ainda, após a vida adulta? Ou ainda, após um episódio de racismo? Fico me questionando quais referências foram ofertadas a essas pessoas ou mesmo quais as referências negras que lhe foram negadas até fora da escola?

Precisamos realçar a importância da autorreflexão sobre os estímulos oferecidos aos nossos pequenos, porque “educação e formação” não são práticas restritas ao espaço escolar. É preciso romper com essa alienação provocada pelo mito da democracia racial brasileira e contribuir de maneira positiva e decisiva na formação da identidade racial de nossas crianças.

Segundo Janet Helms (1990), “identidade racial é um sentimento de identidade coletiva ou grupal, baseado em uma percepção de estar compartilhando uma herança racial comum com um grupo racial particular […]. É um sistema de crenças que se desenvolve em reação a diferenciais percebidos no pertencimento a grupos raciais”.

A identidade racial é fundamental para o pertencimento a um grupo. E um dos mecanismos desta sociedade é invalidar nossas histórias e negar referências. Trata-se de um processo que vem sendo questionado e quebrado há muito tempo.

Há décadas, o Movimento Negro Brasileiro já se atentava a importância do papel da educação para promoção da igualdade racial. E para isso, é necessário fortalecer e saber a sua identidade racial.

Mas afinal, o que temos feito para que nossas crianças conheçam sua história?
 Qual é a contribuição que temos dado para que elas saibam sobre ancestralidade? Para que elas acessem diferentes saberes e diferentes culturas? Como temos estimulado a questão racial duramente a infância? É possível fazer isso sem perder a doçura, a leveza – trazendo o lúdico?

Devemos incentivar as crianças pequenas a conhecerem a história Africana, a conhecerem mais da música, da corporeidade, dos desenhos, das brincadeiras e dos jogos africanos e afro-brasileiros. Podemos contar sobre heróis negros e apresentar danças com influências negras. Podemos levá-los para jogar capoeira junto conosco ou ainda tocar tambores com eles.

“O conjunto de experiências vividas por elas [pelas crianças] em diferentes lugares históricos, geográficos e sociais é muito mais do que uma representação dos adultos sobre esta fase da vida. É preciso conhecer as representações de infância e considerar as crianças concretas, localizá-las nas relações sociais e etc., reconhece-las como produtoras da história” (KUHLMANN, 2001).

Mas ainda assim, ainda que saibamos a importância de fortalecer nossas crianças desde cedo, é preciso saber o quanto distante de nossos espaços, história e práticas (enquanto povo negro) estamos. Que adulto negro você é? Fora as dores e as experiências de racismo, quais as experiências positivas e as vivências que valorizam a sua identidade negra? O que você conhece e pratica de Cultura e Arte Negra para poder oferecer?

É tarefa árdua, de nós adultos, curar nossas dores, descolonizar nossos pensamentos e práticas e entender a importância de se conhecer. Precisamos entender os caminhos que nos trouxeram até aqui e, assim, assegurar que crianças negras tenham, desde a primeira infância, respeito, que sejam valorizadas, estimuladas e amadas como crianças negras.

HELMS, Janet E. Black and White racial identity: theory, research and practice. New York, Greenwood Press, 1990
KUHLMANN, Moysés Jr. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto Alegre: Medição, 2001, p. 54, 2° edição.
Práticas pedagógicas para igualdade racial na educação infantil – Vários autores, São Paulo, CEERT, 2011.

Imagem de destaque: Renata Santos