Uma linda imagem circulou pelos mensageiros no início dessa noite: “ninguém solta a mão de ninguém”. O grande legado das urnas é uma rede ampla pelo direito à vida em primeiro lugar, mas também pela terra, moradia, educação, saúde, sexualidade, corpos. Pelo direito de manifestação política e de credo, de discurso, de imprensa. O nome disso talvez seja democracia, aquilo que nos tem negado desde que os povos da terra e os que fomos sequestrados aqui estamos.

Recriamos Áfricas, através de laços familiares, políticos, econômicos, arte, cultura, poder e de afeto. Do sequestro fizemos nações e do próprio Atlântico também fizemos caminho e ida e volta. Somos muitas e somos fortes. Sabemos de onde viemos e quais lições foram herdadas dos nossos ancestrais, a quem louvamos e reverenciamos agora é sempre. O caminho até aqui foi pavimentado com sangue e suor, retroceder nunca foi uma opção viável ou imaginada.

Alguns dizem que estamos de volta à 1964. Se declaram perplexos com resultado das urnas que vai tornando o governo dos justos uma realidade indigesta, quando o nome de deus é usado para justificar a morte anunciada dos direitos de ir e vir, de andar tranquilamente na favela onde nascemos. É o assombro de quem tem o privilégio de se surpreender com o ódio que marca nossa sociedade. É o delírio de quem acredita de que supremacistas são os outros, em outros países, em outras timelines.

Mas para a grande maioria que sangra nas comunidades, à margem dos igarapés, vias expressas e cidades, esse é apenas mais um capítulo da História. Temos certeza no futuro. Da luta somos filhas, netas, tataranetas, quadrinetas. Sabemos o que fazer e pelo caminho que nos foi ensinado, seguiremos. Agora mais do que nunca, porque é exatamente nos momentos de crise que enxergamos oportunidades de existir e resistir.

O território onde as leis são feitas é um campo crucial dessa disputa, velha conhecida. Quem legisla determina quem vive e quem morre, quem pode ir e vir e quem terá mais uma vez seus privilégios reconhecidos e protegidos. É aqui que a guerra de braço com branquitude se torna ainda mais cruel, sangrenta. O Racismo é Institucional!

Do ponto de vista da população negra, o que estamos vivendo evidencia esse fenômeno, mas não é de modo algum novidade. Um dos exemplos foi o modo como o voto foi desenhado nesse país. Era preciso ter uma renda superior a 200 mil réis para votar e 400 mil réis para ser eleito. A população negra foi excluída do exercício legislativo sem que fosse preciso usar a palavra “raça” na lei.

Em mais um momento de grave insegurança democrática, precisamos voltar nossa atenção para o legislativo, sem jamais subestimar o alcance do executivo. Tem sido nas câmaras onde os ditos “homens bons” tem se aquartelado para manter seus privilégios, seus espaços de poder e desenhar o genocídio das populações negras, indígenas, proteger os interesses do capital e os bons costumes patriarcais.

Entender essa dinâmica como coringa na estruturação dos retrocessos tem sido o nosso esforço. Quem são as pessoas que fazem as leis nesse país? Elas estão preocupadas com as pautas levantadas por aqueles que defendem os direitos humanos? Qual é o papel das câmaras em tempos de insegurança política e institucional? Elas nos representam? Ainda é possível falar em igualdade de gênero e raça? E quanto tempo vai levar?

COMO FORAM AS ELEIÇÕES

Como mulheres negras, inclusive de tantos outros grupos silenciados, sabemos que todo ponto de tensionamento também proporciona uma oportunidade de ação. E não estamos falando de um retrato, mas de um movimento qualificado e intencional que vai se concentrando desde antes da abolição e ganha contornos ainda mais nítidos com a organização política de mulheres negras que, não por acaso, ganharam destaque também como candidatas esse ano.

Não podemos acreditar que esse fenômeno é uma resposta recente à onda conservadora, mas também ao trabalho secular que tem sido feito incessantemente por gerações de mulheres negras anônimas nas carvoarias, chãos de fábricas, lavando a roupa da casa grande, entoando cânticos na boca dos tambores. Nas universidades, nos quilombos, carinhando suas crianças. Nos ministérios e nos palcos, na escrita laboriosa, nas fronteiras das terras e do pensamento.

De Antonieta de Barros até mulheres como Leci Brandão, Luiza Bairros e Benedita da Silva, passando por Beatriz Nascimento, Lélia González, Marielle Franco e agora Robeyoncé Lima, Áurea Carolina, Erica Malunguinho, Erika Hilton, Renata Souza, Dani Monteiro, Talíria Petrone, Monica Francisco, nós mulheres negras estamos construindo um projeto de nação que se tornou ainda mais evidente durante esse pleito.

Nossa luta é herdeira e presença de mulheres como Dandara de Palmares, Luiza Mahin, Maria Zeferina, Zacimba Gaba, Nã Agontimé. Das mães sagradas que dedicam sua vida aos voduns, inquices e orixás, caboclos e encantados. Daquelas que esperam silenciosas nos pontos de ônibus quando ainda é madrugada, que correm seus olhos por entre livros e se colocam diante de arranha-céus.

Desconhecemos heróis imperiais, duques, ditadores e bandeirantes e aqueles que nos dizem que não somos potência, inteligência, estratégia, força e humanidade. É por isso que não podemos deixar de lado a compreensão de que temos um grande desafio pela frente e o seu tamanho é o mesmo da oportunidade de mudança. Alguns estão dizendo que o brasileiro não sabe votar, talvez desavisados pela inspiradora resistência que aconteceu nas urnas no Nordeste.

Essa região que tem vontade separatista secular, cantada pela Revolta Olodum e vivida longamente nas batalhas de Antônio Conselheiro, sonhada em Palmares por Zumbi e Dandara, na Bahia dos Malês e na Conjuração Baiana, Balaiada. O Nordeste e seu jeito peculiar de resistir, de dizer da sua fortaleza, de forjar mulheres negras batalhadoras, migrantes e construtoras de cidades inteiras! Sua terra fecunda que alimenta homens e mulheres urbanas, mandacaru de vida.

A gente sabe ensinar. E esse lugar é exemplo da reviravolta democrática que esperava um país dilacerado pela intolerância e ódio. Somente o Nordeste (e parte do Norte) elegeram quem seria a resposta ao fascismo. Esse pleito presidencial radiografou quem somos as esperançosas, as lutadoras, as que continuam acreditar na mudança de uma vida melhor. Elegemos candidaturas de mulheres negras trans, feministas e expulsamos das casas de legislaturas os conservadores brancos e velhos. Conquistas!

Continuamos falando de representatividade. De colocar os nossos rostos nos espaços de poder nas câmaras, fazendo leis e a reação a esse movimento tem sido monstruosa. Dois casos emblemáticos, entre muitos que não vamos esquecer, são o de Marielle Franco e de Mestre Moa do Katendê. A todo momento mais um episódio de racismo, Lgbtfobia, transfobia. Não existirá uma única bandeira deles em pé enquanto formos mortas pela nossa cor, credo, sexualidade, gênero e classe.

Uns ainda se perguntam o que estava acontecendo, porque podem se dar ao luxo de desconsiderar o fato de que somos um país escravocrata, racista, genocida. Essa imensa massa conservadora não é fenômeno recente, mas sim o retrato fiel de uma nação que tem sido resistente a qualquer ideia de mudança baseada em direitos humanos como valor, solidariedade e igualdade entre os povos. Pra gente não foi surpresa e permanecemos preparadas.

Eis o grande ponto de atenção nessas eleições: Na verdade não se trata de uma disputa que se concentra na figura de um homem, mas na aceitação ou repulsa do projeto que que estamos construindo. É por isso que, mais do que nunca, não estamos votando contra ou a favor dessa ou daquela candidatura, mas sim na possibilidade de continuarmos existindo ou não.

Sabíamos que os tempos que se aproximam seriam assustadores, seja qual for o resultado das eleições. Nosso sentimento a todas que hoje se sentem inseguras e a todas que têm sido vítimas dessa escalada vergonhosa da violência. O que nos conforta é a certeza de que temos sido vitoriosas nessa guerra, que não é de agora. É a confiança na herança que nossas mais velhas deixaram em nossas mãos e que estamos protegendo e transmitindo às gerações futuras.

Os próximos passos já foram definidos antes.

Para além disso, precisamos juntas mensurar  qual é nosso poder político nesse momento.

Que as tramas que nos irmanam se tornem cada vez mais coesas agora que o projeto continua o mesmo. Temos muito trabalho pela frente. Que a representatividade seja a ferramenta pela qual construiremos a paridade de raça e gênero nos espaços de poder. Porque ela é muito mais que uma miragem que o capital avalia como sendo passível de ser apropriada num comercial de televisão. Muito mais que visualidade, não é Roseane Borges?

Estamos em luta por nossas vidas em primeiro lugar mas não somente, queremos igualdade de raça e gênero, retomar aquilo que é nosso. Seguir com a luta de nossos antepassados pelo direito à vida, de professar as nossas crenças, ocupar nossas terras com dignidade, ter educação, moradia e justiça, de poder contar as nossas histórias, de sermos protagonistas de nossas narrativas afetivas, culturais e políticas.

E apesar de todo e qualquer panorama desfavorável, aproveitaremos toda e qualquer oportunidade como objeto de luta. Tivemos muitas mulheres negras eleitas em todo país, duas mulheres indígenas eleitas pela frente parlamentar indígena. E tantas outras que mesmo não eleitas, agora carrega consigo um precioso capital político que fará toda diferença nas ações que já desenvolviam em suas comunidades. O nosso tempo já chegou e não refaleceremos diante dos obstáculos.

Desde muito sabemos que a luta não se faz sozinha. Como Blogueiras Negras é nisso que acreditamos desde o primeiro dia porque assim nos ensinaram nossas mães e as mães dos nossas mães, avós e bisavós em sua luta pela terra, pela comida, pela segurança de suas filhas e filhos, pela moradia, pela justiça, pela educação, pelas ruas, pela escrita.

Não acreditamos em mitos, muito menos no poder da pólvora. Somos feitas de palavras, que viajam ao pé do ouvido e ecoam nas praças, através dos tambores dentro e fora das cidades e das redes sociais. Nossa resistência é no asfalto e também onde moram as árvores e o sagrado. Declamando e em silêncio mas sempre tecendo planos, banhadas pelo amor de nossas senhoras.

Nós sabemos o que fazer.