Quisemos escrever sobre a visita do Quilombo do Carmo em São Paulo e que recebe esse nome por causa de uma ordem carmelita que dirigia as terras como se reencontra um amigo após uma longa viagem. E também foi assim. Mas breve, muito breve, a realidade da resistência se fez igualmente urgente. Acontece dia 24, o Dia da Consciência Negra, organizado pela comunidade, com palestras e visita à casa grande.

Todos podem colaborar com esse momento, que vem sendo preparado com muito carinho. Inclusive através de uma deliciosa feijoada. Momentos de confraternização, de afeto e de construção coletivas a que estão convidados a participar todas as pessoas. Ali se respira liberdade no sorriso, no cafezinho e nas trocas sempre de dignidade.

Nosso abraço a todas, todos e todes que nos acolheram e estão construindo resposta a quem questiona como essas comunidades atravessam o tempo e o espaço. A resposta é simples: preservando sua essência guerreira através do uso de ferramentas políticas, tecnológicas e narrativas para salvaguardar seus territórios, aqueles que são a terra mas também são o campo o direito e da vida.

A mais sagrada das instituições brasileiras

Uma estória que começa com um grupo de sete escravizados que são levados para aquele território e que se transformaria numa comunidade ainda maior, que enviaria 60 outros escravizados para trabalhar em fazendas da região por 20 anos. Seu objetivo foi cumprido, mesmo que nem todos tenham retornado: a terra foi adquirida de papel passado pela comunidade.

Porém, nem mesmo 1200 anos de trabalho e da vida de pessoas documentado pelo laudo antropológico que comprovam as “negociações” entre a comunidade e seus escravizadores, sua ocupação secular, quase 400 anos de escravização das populações negras nesse país e 130 anos de uma abolição de fachada tem sido argumentos jurídicos de alguma valia.

O Racismo Institucional, a mais sagrada das instituições brasileiras, permanece inabalável. Para a comunidade os ataques acontecem não apenas no reconhecimento da terra mas em diversas frentes. A pressão imobiliária, empresarial e política se materializa inclusive pela atividade ferroviária na terra, com vagões da ALL Operações Ferroviárias, que acontece há décadas sem que o Quilombo fosse sequer consultado.

Mais uma vez, a comunidade procura parceiros de diversas frentes para conhecer seu território e sua luta. O convite feito às Blogueiras Negras faz parte desse movimento continuado que se dirige à ativistas, coletivos, organizações do terceiro setor e veículos de imprensa. E o mais importante, pessoas que possam caminhar nessa jornada que se faz ocupando territórios de chão e de mentes.

O patrimônio

À caminho da ocupação, uma solene placa anunciando o “Patrimônio do Carmo” reconhece oficialmente a presença de um invasão de alto luxo em terras quilombolas, Patrimônio do Carmo. Um dos exemplos mais escandalosos de apropriação política e narrativa, que coloca a branquitude endinheirada como guardiã daquelas terras. Nada mais revoltante.

E ainda que a ideia do que é ser quilombola seja ampliada e fale de pessoas e ciclos, práticas, costumes, tradições, laços afetivos, culturais, vínculos políticos, tecnológicos e econômicos e até espirituais na cidade quanto na área rural, sabemos como população negra muito bem o que não é uma ocupação tradicional. O que implica na tarefa urgente de retomar nossos direitos através de ações coletivas.

É exatamente isso que o Quilombo do Carmo propõe e faz. Inclusive questionando o discurso “ecológico” da invasão que fica em terras públicas que se caracteriza pelo loteamento ali feito. Afinal, quem preserva a terra? O saber ancestral das comunidades tradicionais ou a máquina de vender casas para um mercado predatório? Pode um projeto servir ao genocídio da população negra e ao mesmo tempo ser ecológico? Isso é desenvolvimento?

Casas de alto padrão, dentro e fora dessas estruturas privatizadas são um modelo alienígena e predatório que servem apenas para ampliar privilégios e acessos. Não é coletividade, não é viável ou sustentável. Um jeito de fazer uma não cidade e sua não cidadania que dialogam com outra das maiores e perversas instituições brasileiras, a propriedade privada. Aquela que é defendida a todo e qualquer custo como um dos pilares fundamentais da sociedade brasileira.

Muito característica de uma sociedade racista que pune os povos tradicionais pela queda de uma única árvore como crime ambiental, uma das maiores ameaças jurídicas a essas populações. A criminalização pode se dar pelo simples ato de se construir em alvenaria ou ainda pela presença de crianças com suas famílias. Existir se torna uma contravenção.

Ao Quilombo de Carmo são negadas todas as possibilidades de humanidade e autodeterminação. Ao mesmo tempo, as condições que ali são impostas servem para criminalizar uma luta digna por direitos. Mas a tecnologia é preta, é antiga, tem raiz: a comunidade existe e resiste. É como a árvore que se enverga mas não se arranca.

Uma terra sem amos

Enquanto pequenas tocanguiras impedem ou permitem nossa passagem, parecem nos indicar que é preciso atravessar uma pequena capoeira para nos colocarmos diante de uma empena que resiste em pé quase como um milagre. Sobre a qual ainda é possível ler as linhas escritas pelas vidas que amassaram aquele barro. Que ali resistiram.

Do lado de fora desenhando um sem número de mãozinhas que se colocaram uma lado da outra, unidas, formando um tapete de notas musicais: Eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui, nós estamos aqui. Do lado de dentro, unidas em desespero, arranhando tanto quanto podem para quem sabe alcançar a liberdade sequestrada por paredes tão impiedosas quanto uma pequena porta mata- burro que os aprisiona.

Tiro meu celular da bolsa e começo a gravar enquanto escutamos eu, Alex e seu Jesus (quilombola, um dos zeladores do patrimônio material e imaterial da comunidade) ouvimos Isaque da Cruz, filho de uma terra sem amos, falar com a destreza de quem compreende com facilidade a importância e o poder das palavras, da certeza de que sabemos quem somos e para onde vamos: “aqui não há lideranças, somos todos responsáveis pelo Quilombo”. 

Alguns diriam que se trata de inovação política. Mas para quem está na terra se trata de seguir o caminho que foi ensinado há muito. Em respeito a todos que nessa terra já pisaram e ainda hão de pisar, pela força da Ancestralidade que se faz viva em cada criança que nasceu e nascerá na terra de seus pais, mesmo que as queiram impedir.

Imagem: Quilombo do Carmo