Essa é a pergunta que não quer calar, que ecoa, retumba e volta a ressoar, em qualquer lugar que estivermos, pode esperar que alguém irá respirar fundo, olhar perdidamente para horizonte e olha ela lá. É a indagação que está nas redes sociais de esquerda e direita, claro que com viés e interpretações diferente. Ela faz morada nos grupos de whatsap e se materializa em todas as bocas estejam elas nos bares, nos jogos de várzea, no culto, nas giras, nos espaços institucionais, nas alcovas…

Pensando no que foi esse ano, começando pelo final, o processo eleitoral e o balanço dos estragos deixados por ele, desde o resultado das eleições até as feridas deixadas nas relações pessoais, fica fácil imaginar que será um ano de superar as fissuras deixadas ao longo do caminho, haverão de ser dias de reconstruir, seja pessoalmente ou socialmente, as perspectivas, não sem dor e sem luta, de que temos possibilidades.

Resgatando a concepção marxista “a prática é o critério da verdade”, será o ano de nos colocarmos a prova revendo nossa percepção da sociedade e principalmente a nossa atuação nela. Serão dias de refletir quão distantes estão o discurso e o privilégio, seja ele qual for da prática empática que precede a disposição de fazer com que a fala e a realidade estejam pari passu.

Considerando a abertura da Caixa de Pandora e o seu efeito em homens e mulheres que se diziam bons, de bem e tementes a Deus, o ano que se aproxima também será um momento de reavaliação da fé, aquele átimo de segundo que os princípios básicos que moralmente vem guiando a humanidade saem do nosso inconsciente direto para o espelho nos dizendo o quanto equivocados estamos quando traduzimos a Divindade a partir dos nossos interesses, necessidades e interpretações.

Essa Fé a qual me refiro está longe der ser aquela que comunga, nas suas mais várias interpretações católicas, pentecostais e neopentecostais, kardecistas, umbandistas, budistas, candomblecistas e afins apenas aos domingos, nas giras, nos templos e nos centros espíritas, na intenção de barganhar com a Divindade justiça para o outro, ignorando a ignomínia resultante de tal ato e misericórdia para si.

Entre a crença e a realidade sempre existe a literalidade da interpretação, o que acabou resultando num abismo de dogmas políticos que se fundiram ao inconsciente coletivo necessitado de salvação, demonizou um símbolo de ascensão social e pariu uma quimera a parir do senso comum sem considerar o senso crítico.

Os dias que se avizinham exigirão de nós mais compreensão das interpretações alheias do que propriamente criticas a elas e sinceramente isso serve para a polarização posta entre esquerda e direita. Serão dias que o empate valerá mais que a vitoria e os troféus, porque nos trará de volta a uma realidade que deixamos para trás quando passamos a afirmar que nossa verdade pode se sobrepor a dor do outro, nos colocando num patamar de igualdade.

Para o alvorecer do próximo ano recomendo uma receita, que a mim parece infalível. Coloque no caldeirão da própria consciência sua capacidade de escutar e compreender, a disposição de engolir alguns sapos e alguma empatia pelos que pensam diferente de você.

Acrescente doses cavalares de paciência, tolerância e respeito. Misture tudo com boa vontade e o fermento da coragem, coloque para crescer na prateleira da esperança que felizmente ainda acalentamos, principalmente em dias que a previsão é de chuvas e trovoadas.

Aqueça o forno e no explodir dos fogos coloque a massa para assar certo de que esse bolo há de crescer para ser saboreado com luta nossa de todo dia e dividido entre os que se mantiveram de mãos dadas.
Se não esquecermos os ingredientes e nem diminuirmos a receita, tenho fé, sobreviveremos.

Imagem destacada: Noozhawk