Um encanto testemunhar estórias! Existem estórias, que a história desconhece. Que tremendas estórias (que grandes contadores de histórias não viabilizam), histórias e mais histórias de estórias não contadas, muito além disto, não exaltadas. Nossos e os não nossos, têm o direito de saber que muitos grandes nomes, estão a trabalhar e a fazer crescer conhecimentos e competências por onde quer que passem.

Aqui vos apresentarei Alinta Sara, uma historiadora e pesquisadora nascida na Ile de la Réunion, uma ilha não muito distante de Madagascar. Ela em sua delicadeza, nos mostra que o estudo, cultura, conhecimento e claro o amor, são o que sara o mundo. E todos os desassistidos, sem oportunidades, por meio da educação são e serão sempre mais fortes. E eis que a faço conhecer para seguir com a força do empoderamento e da importância que há em viabilizar estórias, suas ramificações e poder, pois representatividade importa!

Há um encanto em desvendar estórias. Particularmente as estórias que a história (tradicional, induzida, vista e contada por um ponto de vista imperialista), não nos conta. A supremacia direciona sua ideologia sempre, para se manter ‘suprema’. E há inúmeras estórias por ser descobertas e contadas.

Por isso que individualmente, rumo ao coletivo, temos que nos empoderar, pois o coletivo liberta, já o isolamento, escraviza. E assim, com poder de nós por nós, tantas estórias poderão sim, ser contadas e testemunhadas.

Encontrei uma delas numa cena de Londres, onde numa Roda de Samba bem brasileira, conheci Alinta Sara.

Ela é filha de Alphonso Sara, professor de letras clássicas (Francês, Latim e Grego) nascido na Guinea Conakry e de Genevieve Sara, funcionária da empresa de telefonia (Francesa), nascida na Ilha da Martinica.

Quando completou 5 anos, mudo-se da Ilha de La Réunion com seus pais, e foi viver na Martinica. Mas faz questão de ressaltar que em todos os seus aniversários sua mãe preparava uma comida da Ile de La Réunion. Ainda assim, tornou-se uma “Martinicana” por excelência e ávida por conhecimento, particularmente no que diz respeito a África e a diáspora africana nas Américas. Especialmente Latina e Central.
Dos 5 aos 18 anos viveu na Ilha da Martinica. Após este período, foi viver na França, em Toulouse, onde ingressou na universidade. Ao chegar em Toulouse, viu o preconceito, e ali sofreu com o preconceito racial. Este mal que vivenciou, o racismo que sofreu, veio por parte do corpo docente.
Infelizmente passou por isto quando em vários momentos foi discriminada por uma professora. Teve seu sotaque avaliado com espanto, como se uma moça advinda do Caribe não pudesse falar o idioma francês tão bem falado. Insinuando que o francês falado por ela era um francês de um nativo, ou seja, de um branco. Também teve trabalhos mal avaliados, onde viu que uma colega de classe não negra, com trabalho com mesmo conteúdo de informações, era sempre avaliada com notas superiores as dela. Sem nenhum filtro, viu bem de perto o racismo.

Há no ato de racismo, uma artimanha do racista de inúmeras vezes ser ‘sutil’, e discriminar de maneiras que muitas vezes inviabilizam o atingido por seu racismo e atos discriminatórios, de se posicionar. Em se tratando de um educador, muito complexo, porque tem se a priori que ele tem o conhecimento que será transmitido, o saber, e os alunos, ali estão para aprender. Então a avaliação deste profissional, quando racista, pode ser tida unicamente como o parecer de um professor e isto encobrir a atitude racista que motivou sua avaliação.

Esta inteligente e querida mulher, pôde provar que sua prova de equivalência fora mal avaliada. Teve condições de debater que estava sim sendo prejudicada por aquela professora que ao final do curso não lhe garantiu notas para sua equivalência. A nota que ela havia alcançado e lhe foi negada a equivalência foi exatamente a mesma nota de uma outra aluna, branca, e que atingiu a equivalência. Munida desta evidência, conseguiu por fim ter sua equivalência expedida. Assim, se graduou e pós-graduou em Toulouse.

Quando terminou sua graduação na França, decidiu mudar para a Inglaterra, num programa na área de educação. O Comenius, programa europeu para ser assistente de língua nos países da Europa. Alinta decidiu que seria professora na Inglaterra e entrou no programa de professores de línguas estrangeiras para atuar na Grã-Bretanha. Alinta fala quatro idiomas: Francês, Inglês, Espanhol e Português. Em setembro de 2004 foi para a cidade de Liverpool, onde viveu sua primeira experiência em terras britânicas.
Alinta é arte em movimento, ela é juntamente a pesquisadora Nigeriana Aminat Lawal Agoro, fundadora da Bokantaj, que em creole significa diálogo e é um empreendedorismo na area de artes. Plásticas, fundamentalmente. De arte e cultura.

O Bokantaj foi fundado por elas por entenderem a necessidade de se buscar as similaridades que cidadãos da diáspora africana tem, que existem diferenças claro, mas fundamentalmente para exaltar e pontuar o que há em comum, de se resgatar as conexões entre África e a diáspora africana, e fazer isto através da cultura.
Pós-graduada em História da Arte ela une sua carreira como professora de língua em Londres a projetos artísticos para o Bokantaj.

A Bokantaj faz uma intersecção entre arte/cultura e educação e trabalha com pesquisa de arte, eventos e workshops.
Eis que vos apresento uma mulher tenaz, que tem na arte uma forte aliada de sua tenacidade e determinação, e é certo de que sem a arte, não pode seguir.

Alinta tem projetos que caminham simultaneamente ao de arte, como sua parceria no Projeto ‘Mais amor entre nós’, idealizado pela jornalista baiana Sueide Kinté, que esteve em Londres em Outubro de 2018 para um workshop de autocuidado para mulheres. Também está desenvolvendo um projeto para um evento sobre Colorismo e suas facetas.

Há indícios de que projetos que resgatam origem, ancestralidade, a quebra de conceitos pré estabelecidos de beleza, entendimento, auto-afirmação, tem uma inegável ‘’poção’ que sara. Sim, pois advém do amor, do ímpeto de não se calar entorpecido pelos desmandos de quem apregoa sua supremacia e de tudo que de maneira intrínseca está relacionado nestas relações de poder, pois há a necessidade de se fazer valer, quando nos é imposta a condição de expectadores de nossa própria história. Tomada, domada, contada, direcionada, por mãos alheias, e é isto que sara no olhar, nas palavras, no empoderamento e na força de Alinta.

Uma força que sara!

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