Como uma mulher negra e moradora de Cohab de um subúrbio da Região Metropolitana do Recife, sempre me perguntei onde tinha alguém parecida comigo nos espaços de representação de poder, principalmente nos espaços de mídia, arte e comunicação. E como todo mundo, quase nunca achei e se achei, não foi de uma forma positiva.

Ao entrar no curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco o que eu achava acabou sendo estatisticamente comprovado: Quase não se tem registro de artistas negros (menos ainda negras, não se fala sobre História e Cultura da Arte Africana e Afro-diaspórica e grande parte de tudo que aprendi foi produzido por artistas homens, brancos, abastados e gringos ocidentais.

Então como quase uma motivação de vida, onde eu pude nesse curso, usando desse espaço de legitimação que é a Academia, enfiar arte preta goela abaixo.

Ela precisa conhecer e admitir quem invisibiliza há séculos!

Percebi que todas essas histórias, representações do cotidiano e de momentos singulares de negros e negras na América dependeram das mãos e olhos de outrem, ou seja, esteve sob o controle de artistas como Modesto Brocos (1852-1936), cujos registros visuais foram necessários para se saber sobre questões étnico-raciais e populares, mesmo sendo na visão de pessoas que não vieram daqueles espaços sociais.

Esse interesse por questões culturais foi de segundo grau, em boa parte estimado e filtrado pela valorização européia das culturas entendidas então como primitivas, além de não estar isento de preconceitos, nem imune a mistificações e tolhimentos. Prevalecia então, um olhar não-neutro de opiniões, embutido de rótulos – em que aos negros e negras eram atribuídos instintos animalizados, desregramentos morais e ausência de normas sociais. Por conseguinte, imagens cheias de estereótipos de afrodescendentes e da escravidão circulam em livros didáticos, revistas, jornais, na grande mídia.

Para ilustrar tudo o que eu digo, trago um trabalho feito para a disciplina de Leitura de Obra de Arte em que a professora nos pediu para fazer uma análise técnico-poética de alguma obra que escolhêssemos. Escolhi uma de Brocos por ser muito polêmica, e dá muito pano pra manga.

Gerou muitas discussões na sala, pessoas brancas em seu costumeiro local de privilégio viram coisas nunca antes pensadas por elas e as pessoas negras se identificaram, agradeceram e sorriram. Pensei que esse texto não poderia morrer ali, só pra passar na cadeira. Então resolvi compartilhar aqui, espero que gostem, e se possível discutam com seus amigos e amigas, compartilhem! Estamos vivos e vivas!

informações básicas:

Redenção de Can
Modesto Brocos, 1895
Da coleção de Museu Nacional de Belas Artes
Dimensões físicas: 199 x 166 (cm)
Óleo sobre tela

Eu vejo. Como na ordem da leitura de um livro, preta velha com lenço segurando o crespo, tem o rosto e as mãos erguidos ao céu, como quem agradece por uma benção alcançada.

Ao seu lado, uma mulher jovem de pele dourada sentada, olha com ares de ensinamento maternal para a criança, apontando o dedo em direção à senhora. A criança tem o corpo e o rosto voltados para a avó e levanta a mão direita para ela, como quem acena. Na mão esquerda, uma laranja.

À direita, um homem branco sentado, com o corpo voltado para a mulher, tem o rosto ligeiramente virado para a esquerda e um olhar oblíquo e dissimulado, de malandragem.

Há um contraste tremendo entre as pontas: Mulher, homem, preta, branco, senhora, jovem, até os fundos contrastantes para destacá-los.

O título do quadro, por sua vez, alude a um episódio da dominadora Bíblia , descrito no Gênesis: em linhas breves, Noé é flagrado nu, em momento de embriaguez, pelo filho Cam, que tira onda do patriarca e expõe sua nudez aos irmãos, Sem e Iafet. Estes recriminam tal atitude, cobrindo o corpo do pai, e tratando de não olhá-lo. Já sóbrio, o velho lança uma maldição sobre o filho de Cam, Canaã, condenado a tornar-se escravo dos tios e primos. O castigo é estendido ao conjunto da descendência camita.

A passagem também me remete a história do castigo do irmão amaldiçoado Caim, que parte pro outro lado do mundo para recriar o mal do Homem.

Será que essa senhora, que se parece tanto com minha vó quando botava o lenço pra lavar roupa, seria descendente de Can? É castigo ser negra como a noite? O dilúvio veio com água sanitária?

As coisas clareiam e menos se esclarecem.