Ai eu te pergunto…
Tu quer morrer, para virar semente?
Eu juro que gostaria de perguntar para cada pessoa que romantiza a morte das minhas irmãs. Se elas trocariam de lugar com quem levou tiros no corpo para virar semente.
Essa semana, para muitas de nós mulheres negras e periféricas, foi bem difícil. Ver uma galera desfilando com adesivos de Marielle. Como se aquilo fizesse elxs serem anti-racistas. Como se aquilo anunciasse que as pessoas brancas se preocupam com as mortes das pessoas negras. É foda, porque na vida real fico imaginando quantos casos de assassinatos de mulheres acontecem a cada minuto na periferia. E será que essas pessoas se importam?
Quantos adesivos vimos de Claudia, que foi arrastada pela pm há 5 anos atrás? Por que não vimos? Será que ela não era uma bandeira válida para muita gente?
Eu fico puta! E conversando com várias amigas, ficamos putas mermo. Com a romanização que muitos fazem do caso de Marielle. Dói, sabe? Por que poucas de nós, mulheres negras da favela de Recife, conhecia Marielle antes dela morrer. Isso talvez diga um pouco sobre a invisibilidade que temos quando estamos vivas. Como pode eu não ter nem escutado o nome de uma das mulheres mais foda, pelo que conheci depois de sua morte. sim ela era muito foda, Ela era uma planta viva. Mas não era interessante, para muitos, que essa planta viva fosse mostrada para outras mulheres negras se fortalecer.
São várias pessoas atualizando suas capas no Facebook, postagens no Insta, camisetas e outras coisas. Estão mostrando Marielle morta.
Enquanto você que cobra por “Quem matou Marielle?” já parou para pensar se na sua contribuição capitalista e racista, será que você não ajuda a matar várias outras todos os dias? Pois para mim, vejo Marielles muito além das mulheres que estão na política de partido.  Para mim, vejo Marielles na casa dos outros, limpando chão. Vejo Marielles vendendo cachorro-quente, na rua. Vejo Marielles no sinal, vendendo água. Mas porquê essas você não vê?
Vamos parar de ser hipócritas! Ouço a galera falar do enredo da Mangueira, escola de samba. Sim, caraí, foi foda mermo! Enredo da porra! Mas porquê não vejo o mesmo alvoroço pela poesia de Adelaide, mulher preta que se garante fazendo o movimento no Trombone? Será que é porque ela está viva? Cadê a emoção pelas palavras da preta?  Cadê a galera que anda ai emocionado com a letra da Mangueira comprando o Livro de Joy Thamires, mulher negra poeta marginal sapatão que escreve enrendo de várias de nós da favela.
Para gente que se reconhece, de verdade estas duas e várias outras mulheres negras escrevem enredos que duram não só no carnaval, mas enredos que nos salvam no nosso dia a dia quando leio ou escuto elas.
As pessoas privilegiadas escolhem qual luta quer ter. Por quem lutar? Ou na verdade, qual personagem que eles vão usar para ganhar carimbo de anti racista?
Parem, carai. De ficar por aí só falando de semente. Eu não quero que as minhas amigas, pretas fodas, virem sementes. Quero elas vivas, para colher os frutos das lutas diárias delas.
Marielle, eu queria ter conhecido viva. A morte dela me dá um recado: eu não posso passar despercebida. Eu não quero ser lembrada enquanto morta. Eu não quero que exaltem a minha morte, quero que exaltem a minha vida! A vida das minhas!
Por isso, afirmo aqui: estamos muito ligadas. Não vamos deixar que seja romantizada nossa morte. Não vamos passar pano para quem tira foto com plaquinha de Marielle, mas na vida, 24 horas por dia, apaga, entra na mente, humilha várias delas que estão espalhadas por aí.
Também queremos justiça, óbvio. Na verdade, vivemos, nessa sociedade, desejando que um dia essa palavra funcione, para quem é preta e nasceu na favela. Queremos saber quem fez isso com ela. E que pague por essa fuleragem! O mundo perdeu uma mulher foda, porra! O mundo perde mulheres fodas o tempo todo.
Ei feminista, mulheres ricas: a polícia que te dá bom dia, chuta a porta da casa das minha, então parem de dizer que nossas dores são iguais, parem! E os machos, então: parem de se passar! Os machos brancos principalmente, não achem que podem atulizar capa de facebook de Marielle: para! É feio e VIOLENTO.
Fico perguntando qual é o pior… uma morte de uma preta ser esquecida e ela virar número rapidinho. Ou uma morte de uma preta virar marca de roupa tipo C&A onde essa galera usa e abusa da gente viva e morta. Dói!
Minhas irmãs negras não vão precisar morrer para virar semente. Pois, elas já plantam  sementes, desde de sempre.
Nos vejam, enquanto estamos vivas!
Nos divulguem, enquanto estamos vivas!
Falem de nós, enquanto estamos vivas!
PAREM de usar nosso corpo e imagem! Que já usam o tempo todo, até depois da morte. PAREM!
Isso não é um apelo, isso é um AVISO
Estamos de olho nessa galera escrota!