Escola Maria Felipa é destaque em educação antirracista e afrocentrada

Realizar uma educação antirracista e afroafetiva desde a infância se tornou uma realidade em Salvador, após a fundação da Escolinha Maria Felipa em 2017, pela mulher preta Bárbara Carine, que é doutora no Instituto de Química da UFBA. Ao estabelecer uma educação infantil que traz como central a construção do conhecimento a partir de narrativas negras, indígenas e diaspóricas, a instituição se destaca ao formar crianças emancipadas e conscientes de um mundo diverso, feito por muitas mãos.

Pensada e construída por educadoras(es), a primeira escola afro-brasileira e trilíngue da cidade – português brasileiro, inglês e libras, é um ambiente de formação acolhedora que segue por caminhos opostos aos que fomentam os sistemas de opressões sociais, pensando não apenas em respeitar as diferenças, mas tratar as múltiplas identidades a partir da valorização da sua essência e de uma ancestralidade positivada.

“Precisamos frear esta lógica de aniquilamento, para nos tornar mais vivos e potentes socialmente. Nossas crianças precisam crescer sabendo que pessoas negras não surgem no mundo para serem escravizadas, que essa é uma realidade infeliz e muito recente na nossa humanidade”, afirma Maju Passos, sócia da escolinha desde 2020.

A escola dispõe de uma metodologia que permite o desenvolvimento das crianças não a partir da unilateralidade e sim de uma construção subjetiva saudável que traduz um futuro onde não acredite-se mais em um povo negro e índigena de forma estereotipada e sim debata e impulsione as construções dessas comunidades na ciência, tecnologia, conhecimentos matemáticos, e nas diversas formulações e produções teórico-práticas que sustentaram civilizações.

Todas as abordagens pedagógicas desenvolvidas no ambiente da escola são articuladas aos documentos oficiais do MEC, aos campos de aprendizagem e experiências estabelecidos na Base Nacional Comum Curricular, agrupando à perspectiva afro-brasileira elementos tanto da cultura africana quanto criados em diáspora no Brasil, visando socializar e valorizar tais manifestos com o cuidado de não construir uma visão de história única que retira das pessoas negras a prerrogativa da intelectualidade em outros campos de atuação.

“ Achamos importante que as nossas crianças conheçam a história a partir da narrativa ancestral, saber que já tinham comunidades societárias aqui, antes dos Europeus chegarem, que Pindorama já existia e que não foi uma descoberta portuguesa. Nós tivemos muitos povos com constituições culturais diversas no continente africano que formou o povo brasileiro que é múltiplo, por exemplo”, explica Bárbara Carine, idealizadora da Escola.

Para reconstituir o tempo presente e dar coletivamente novos passos a uma emancipação social, a escola acredita que é preciso abrir possibilidades futuras para a vida das pessoas negras e índigenas, que ainda hoje vivem o genocídio múltiplo, fisíco, dos conhecimentos, matrizes religiosas e memória, trabalhando desde a infância de todas as crianças, inclusive de crianças brancas, os impactos diretos que o racismo pode causar na constituição subjetiva, na personalidade e no psiquismo delas.

“A Maria Felipa não destina a sua educação somente para crianças negras, já que as crianças brancas também crescem acreditando que só elas têm ancestrais, reis, rainhas, cientistas, que só elas são belas e podem estar em espaços de poder. O impacto da educação antirracista é justamente dizer que todas/os/es nós podemos e existimos”, exclama Bárbara Carine.

Durante todo o ano, a escola oferece formações etnico-raciais e gratuitas para a sua equipe de professoras/es e usa este lugar de conhecimento para formar outras/os/es profissionais da educação periodicamente em cursos a baixo custo. “Acreditamos que quem trabalha no interior da escola é um educador(a), por isso todas as nossas formações são coletivas e direcionadas também para a equipe da portaria, limpeza, do setor psicológico, que são envolvidas a pensar uma emancipação humana”, afirma Bárbara.

Escola Maria Felipa
A escola nasceu em 2017, após Bárbara Carine, idealizadora e consultora pedagógica da instituição, adotar a sua filha e pensar sobre sua educação. No caminho encontrou locais que não valorizam as raízes epistemológicas africanas e ameríndias, bem como a estética e cultura destes povos. Ao perceber que a escola pautada em uma perspectiva decolonial, que contribuísse para o desenvolvimento humano não só da sua filha, mas de todos as alunas(os), não existia, Bárbara aprofundou os dois anos anteriores à fundação em pesquisas e entrevistas com militantes e pesquisadoras(es) da temática étnico-racial e pedagógica.ica étnico-racial e pedagógica.