A primeira semana de Pele Negra, Máscaras Brancas – primeiro espetáculo da Cia de Teatro da UFBA encenado por uma diretora negra, Onisajé (Fernanda Júlia) – teve suas sessões esgotadas e muita gente voltando para casa. A montagem segue em cartaz até 14 de abril, de sexta à domingo, às 19h, no Teatro Martim Gonçalves. A entrada é gratuita.

A encenação, composta majoritariamente por negros e negras, traz na codireção Licko Turle, professor visitante da UNIRIO. O elenco é formado por dez atuantes que foram selecionados em audição: Iago Gonçalves, Igor Nascimento, Juliette Nascimento, Manu Moraes, Matheus Cardoso, Matheuzza Xavier, Rafaella Tuxá, Thallia Figueiredo, Victor Edvani e Wellington Lima.

A ficha técnica traz ainda Thiago Romero e Tina Melo na direção de arte -cenário, figurino, maquiagem; Luciano Salvador Bahia, na direção musical; Edileusa dos Santos, na coreografia e preparação corporal; Nando Zâmbia, no desenho de luz; Joana Boccanera, na preparação vocal; e produção de Luiz Antônio Sena Jr., da DAGENTE Produções.

Aldri Anuncianção, dramaturgo do espetáculo, explica que Pele Negra, Máscaras Brancas se baseia em tese homônima de Frantz Fanon e é uma obra de ficção que se vale de quase todas teorias e ainda traz personagens analisadas pelo psiquiatra e filósofo. A obra fanônica se constitui numa leitura obrigatória para aqueles que discutem, estudam e lutam contra o racismo.

Enredo

Espetáculo – Peles Negras, Máscaras brancas

O dramaturgo declara que sua obra é distópica ao perpassar três períodos – 1950, 2019 e 2888 – para falar sobre como o processo de colonização construiu sofrimentos psicológicos em corpos negros. Ao trazer essas três instâncias de tempo, que dialogam entre si, Pele Negra, Máscaras Brancas “tem um pessimismo ao pensar e repensar feridas provocadas pela colonialidade”.

“É irônico também ao abordar um presente ultrapassado que traz feridas que persistem – racismo, rejeição as diversidades e outras subjetividades que podem se perpetuar caso não as enfrente”, comenta Anunciação.

Os Condenados da Terra” é outra obra de Frantz Fanon utilizada como referência na dramaturgia. Pele Negra, Máscaras Brancas apresenta a ferida da subjetividade negra. Os Condenados da Terra apresenta uma proposta de ação sobre essa subjetividade falhada ou estragada do negro pela colonialidade.

Para a construção do tempo da narrativa, o dramaturgo usa o conceito do Tempo Espiralar, da Leda Maria Martins. Um estudo que avalia a temporalidade na filosofia africana. “O tempo ocidental é plasmado nas palavras e tem uma articulação de início-meio-fim. Já no tempo africano o passado e o futuro dialogam resultando num presente”, realça.

Trazer o tempo-espaço de 2888 não foi uma escolha à toa, tem uma relação com o ano de 1888, ano em que ocorre a abolição brasileira, muito embora a peça não traga o Brasil como espaço dramatúrgico. “A dramaturgia traz um diálogo da contemporaneidade com o futuro, por isso, conceituo esta peça como uma obra distópica, no sentido de imaginar um futuro perverso, intensificado nos seus conflitos”.

A montagem traz o próprio Frantz Fanon como personagem no ano de 2019 defendendo novamente sua tese de doutorado, rejeitada pela banca examinadora no ano de 1950 – Pele Negra, Máscaras Brancas, obra que atualmente é referência mundial para discussão sobre o racismo. Dois artistas interpretam esta personagem, Victor Edvani – ator preto e cisgênero – e Matheuzza Xavier – atriz, transgênera e preta.

O QUE: Espetáculo Peles Negras, Máscaras brancas

ONDE: Teatro Martim Gonçalves, R. Araújo Pinho, 292, Canela, Salvador

QUANDO: 05, 06, 07, 12, 13 e 14 de abril, às 19h