Interseccionalidade no Brasil, revisitando as que vieram antes

Feministas negras brasileiras aplicam a interseccionalidade mesmo antes do seu conceito ter ganhado vida pelas mãos de Kimberlé Crenshaw, denunciando a ausência das mulheres negras nas agendas políticas do movimento de mulheres e do movimento negro e além de evidenciar que as mulheres negras estão sempre em situação de desvantagem quando comparadas as mulheres brancas e aos homens negros e brancos, tais situações eram descritas como múltiplas discriminações, dupla discriminação, tripla discriminação, mosaicos, e agora definimos o tal fenômeno como interseccionalidade. 

A estadunidense feminista negra Kimberlé Crenshaw (2002) conceituou interseccionalidade como uma associação de sistemas múltiplos de subordinação, sendo descrita de várias formas como discriminação composta, cargas múltiplas, como dupla ou tripla discriminação, que concentra problemas e busca capturar as consequências estruturais de dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. 

Trago algumas intelectuais negras brasileiras para dialogar comigo sobre o conceito interseccionalidade no contexto nacional. É por meio da lente de Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Angela Figueiredo que meu olhar se amplia no sentido de evidenciar as interações do racismo, do sexismo e outras opressões correlatas e suas intensidades nas trajetórias de vida das mulheres negras brasileiras. 

Início com o artigo “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira” (1983) de Lélia Gonzalez que nos apresenta o lugar da mulher negra que vivencia os atravessamentos do racismo e do sexismo. “O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo”. Lélia destaca que o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira e sua articulação com o sexismo produzem efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Em sua análise ela vai discorrer sobre as mulheres negras em relação as noções de mulata, doméstica e mãe preta na sociedade brasileira, que são invocadas para definir a mulher negra a depender do contexto em que somos percebidas. Desta forma Lélia antecede o que chamamos de interseccionalidade, ao traçar as experiências das mulheres negras na conjugação das opressões.

Em “Nossos Feminismos Revisitados” Luiza Bairros (1995) anuncia que a experiência da opressão sexista é dada pela posição que as mulheres ocupam numa matriz de dominação, na qual raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos, pois se configuram mutuamente, formando um mosaico, que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade. No artigo, Luiza Bairros questiona sobre o racismo e o sexismo estruturados na sociedade que é atravessada por profundas desigualdades sociais, sendo uma questão recorrente não resolvida em totalidade nos “vários feminismos que interpretam a opressão sexista com base num diferenciado espectro teórico político-ideologico de onde o movimento feminista emergiu”, ela ainda questiona o pensamento feminista que tenta definir a mulher com base em experiências tidas como universais. 

Neste sentido, Luiza Bairros (1995) lança mão do que traz a teoria do ponto de vista feminista refletindo que não existe uma identidade única pois a experiência de ser mulher se dá de forma social e historicamente determinadas, ela considera essa formulação particularmente importante, pois permite pensar em relação aos movimentos negros e de mulheres negras brasileiros que a partir “das diferentes formas da experiência de ser negro (vivida através do gênero) e de ser mulher (vivida através da raça) o que torna supérfluas discussões a respeito de qual será a prioridade do movimento de mulheres negras, a luta contra o sexismo ou contra o racismo’? – já que as duas dimensões não podem ser separadas do ponto de vista da reflexão e da ação política uma não existe sem a outra”.

Sueli Carneiro (2006) colabora em seu artigo “Raça e etnia no contexto de Beijing” (IV Conferência Mundial sobre a Mulher/1995) quando expõe ao dizer que: “Este novo olhar feminista e antirracista – ao integrar em si, tanto a tradição de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres – representa uma nova identidade política, decorrente da condição específica do ser mulher negra”, vale destacar que nesta Conferência, os diversos movimentos de mulheres (não brancas) reivindicaram as suas pautas sobre as opressões de direitos humanos sofridas por conta da sua origem étnica/racial. Pois, era entendido o racismo como uma forma de violência e violação dos direitos das mulheres, uma vez que suprimido as desigualdades relacionadas ao sexismo e da ideologia patriarcal, ainda haveria desigualdades entre mulheres, dado que o racismo continuaria a atuar de forma arbitrária.   

Na III Conferência de Durban contra o Racismo em Durban/2001 os movimentos de mulheres negras estiveram presentes para garantir as pautas no enfrentamento as desigualdades de raça e gênero, alertando sobre as múltiplas formas de exclusão causadas pela conjugação perversa do racismo e do sexismo resultando numa espécie de asfixia social com desdobramentos negativos em todas as dimensões da vida (Sueli Carneiro, 2002).

A discriminação interseccional vem sendo enfrentada, fundamentalmente, pelas mulheres negras brasileiras sendo um desafio para a construção de uma prática feminista reveladora, reflete Luiza Bairros (2001). Isso é o resultado de uma trajetória marcada, “por um lado, pela consolidação de um movimento de mulheres negras que, desde os anos 1980, tem afirmado a intersecção da raça e do gênero como centro de sua agenda política, e, por outro, pelos compromissos assumidos pelo movimento feminista a partir de Beijing. As discussões propostas pelas mulheres negras, no que tange às suas especificidades nos sistemas de produção e de reprodução, têm contribuído para desfazer, ainda que lentamente, as abordagens que invisibilizam as mulheres racialmente discriminadas” (Artigo: III Conferência Mundial contra o racismo). No entanto, em uma entrevista Luiza Bairros faz uma análise entre Beijing e Durban e descreve o seguinte: “Mas acho que não se compara com Durban, porque aí as questões de gênero não são o ponto de partida para a discussão sobre as mulheres negras. O ponto de partida é a questão racial mesmo. Em minha opinião, se você especifica o racismo, tem uma possibilidade maior de dar conta das questões das mulheres negras mais do que quando você especifica o sexismo. Nesse sentido, para nós, Durban é muito mais definitivo do que Beijing, não tenho dúvida” (Feminismos e antirracismo: entraves e intersecções. Entrevista com Luiza Bairros, ministra da Seppir). 

Neste sentido Sueli Carneiro (2003) ainda afirma que um feminismo negro dentro de um contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais e racistas, têm como seu principal articulador o racismo e seu impacto ao interagir com as relações de gênero, pois nestas sociedades ele determina a própria hierarquia de gênero. Desta forma, Sueli Carneiro contribui dizendo que a luta dos movimentos de mulheres não deverá estar vinculada somente a reivindicação contra as desigualdades históricas de gênero, mas também com a mesma intensidade deverá lutar pela superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. 

A ocorrência do racismo e do sexismo e suas intensidades sobre pessoas e grupos populacionais vai impactar de forma simultânea, sincrônica, não sendo possível separá-los ao longo da experiência concreta de cada indivíduo ou povo. É a isto que chamamos de interseccionalidade, nos diz Jurema Werneck (2005). Ao mesmo tempo a interseccionalidade como forma de análise categórica e histórica, permite visibilizar o que as mulheres negras experimentam neste lugar, de não ser uma mulher branca e nem um homem negro. 

A vivência do racismo é diferente para homens e mulheres, por exemplo, os jovens negros estão mais impostos a violência física institucional ou não, enquanto que as mulheres são mais vulneráveis a outro tipo de violência, principalmente, as que estão relacionadas as representações sobre o corpo.. Pois as singularidades vividas pelas mulheres negras não são parecidas com as mulheres brancas quando são atingidas pelo sexismo e não é parecido com o homem negro quando eles são atingidos pelo racismo.

Nas trajetórias das mulheres negras há um entrelaçamento de várias estruturas de opressão e desigualdades, sendo que raça e gênero são os principais fatores responsáveis que conduzem às diferenças de classe; por isso que as intervenções políticas e sociais para as mulheres negras devem ter como base as suas intersecções. Visto que, todas as opressões se articularão ao mesmo tempo, em um só corpo (negro feminino), se intercruzando, interseccionando e determinando as condições de vida, sua oportunidade de escolarização, de ascensão no mercado de trabalho, o acesso a melhores empregos e renda, ao ensino superior e aos serviços de saúde. 

As feministas negras introduziram novos desafios teóricos, metodológicos e políticos, explicitando diferenciações na identidade das mulheres e nos fatores de subordinação aos quais estamos submetidas, demonstrando como mecanismos políticos e ideológicos produzem experiências distintas de opressões. Racismo e sexismo se articulam e são vivenciados de forma desigual entre as mulheres, não só porque são mulheres, mas em virtude de sua raça e de outros marcadores sociais.

A interseccionalidade é uma ferramenta teórica e metodológica que estilhaça o espelho da mulher universal, transformando em prismas de mulheres no universo, que como um abebê de Oxum permite que todas as mulheres, qualquer mulher, sejam vistas diante do reflexo. Pela lente da interseccionalidade, termo cunhado por feministas negras, ninguém fica de fora.

Referências

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171–188, jan. 2002. 

GONZALEZ, Lélia. “Racismo e sexismo na cultura brasileira”. In: SILVA, L. A. et al. Movimentos sociais urbanos, minorias e outros estudos. Ciências Sociais Hoje, Brasília, ANPOCS n. 2, p. 223-244, 1983. 

Bairros, Luiza. Nossos Feminismos Revisitados. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, ano 3, nº 2, 1995, pp.458-463 

CARNEIRO, Sueli. Raça e etnia no contexto de Beijing. In: O livro da saúde das mulheres negras : nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas/Criola, 2000. p. 256. 

CARNEIRO, Sueli. A batalha de Durban. Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 209, 2002. 

BAIRROS, Luiza. III Conferência Mundial contra o racismo. Rev. Estud. Fem., Florianópolis , v. 10, n. 1, p. 169-170, Jan. 2002. 

ALVAREZ, Sonia E. Feminismos e antirracismo: entraves e intersecções: Entrevista com Luiza Bairros, ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 20, n. 3, p. 833-850, Dec. 2012.

CARNEIRO, Sueli. “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”. In: ASHOKA EMPREENDIMENTOS SOCIAIS; TAKANO CIDADANIA (Org.). Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Editora, 2003. 

WERNECK, Jurema. Algumas considerações sobre racismo , sexismo e a tecno-eugenia. “Um Mundo Patentado? La privatización de la vida y del conocimiento”, p. 1–10, 2005. 

FIGUEIREDO, Ângela. Dialogando com os estudos de gênero e raça no Brasil. In: Raça: novas perspectivas antropológicas / Livio Sansone, Osmundo Araújo Pinho (organizadores). – 2 ed. rev. Salvador: Associação Brasileira de Antropologia: EDUFBA, 2008. 

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