Jamais aprendemos a morrer

[aviso de gatilho: dor, morte, genocídio]

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A morte

De quatro em quatro dias, Iku vinha à cidade de Ilê-Ifé munida de um cajado e matava indiscriminadamente as pessoas. Nem mesmo os Orixás podiam com Iku.

Um cidadão prometeu salvar as pessoas. Para tal, confeccionou uma roupa feita com várias tiras de pano, em diversas cores, que escondia todas as partes do seu corpo, inclusive a própria cabeça, e fez sacrifícios apropriados. No dia em que Iku apareceu, ele e seus familiares vestiram as tais roupas e se esconderam no mercado.

Quando Iku chegou, eles apareceram pulando, correndo e gritando com vozes inumanas, e Iku, apavorado, fugiu deixando cair seu cajado. Desde então, Iku deixou de atacar os habitantes de Ifé.

Diferente do que os brancos dizem, nossos mortos lutam e falam através de nós, e conosco. 

A morte tem sido a tônica na nossa existência, desde os tempos idos, na invenção da raça. Hoje, falamos com as mães, com as filhas, com as irmãs de Maria Célia de Santana (73), Viviane Soares (40) e Kathlen Romeu (24). Somos suas vozes, suas lágrimas, revolta e corpos. 

Nós, as Blogueiras Negras, nos solidarizamos com as famílias dessas mulheres negras, tiradas de nós pela mão do Estado. 

A morte não deveria interromper o curso dos nossos sonhos, das nossas expectativas de vida e sorte. A morte deveria, como nos conta o Itan, ser negociada com os vivos; a morte precoce não deveria ser o destino da “humanidade errante”.

Mas ela nos ronda. Todas as vezes que lemos, estarrecidas, a noticiários e matérias de jornais sangrentos, toda vez que nos damos conta de que podia ser uma de nós, sentada na esquina da rua, conversando com a vizinha, percebemos a morte no nosso encalço. A morte não natural, mas a provocada. A morte premeditada, querida e planejada, que ousamos denunciar genocídio. Para conversar aqui conosco, evocamos Mbembe, Hill Collins, Stewart e hooks, velhos-contemporâneos que nos oferecem um olhar sob essa névoa de morte e vida. Não apenas para ouví-las, mas para entender o que seria a saída. O que esperamos enquanto vivemos?

Mbembe tem chamado esta sociedade, imersa em morte, de Necrópole Universal. Em seu recente artigo “O Direito Universal a respiração, o filósofo abre nossos olhos, mentes e corpos para o absurdo da iminência do fim, descrevendo o nosso tempo como:

“(…) caracterizado por compromissos novos e ruinosos com formas de violência tão futuristas quanto arcaicas”

Tempos de brutalismo¹, em que o poder se expressa pela força bruta, pela força da morte. E quando a gente anda do lado da morte, respirando morte, a gente precisa começar a olhar para de quem são as mortes. Para os corpos-alvo. Tão difícil e doloroso quanto se reconhecer no espelho! 

Nossas mortas somos nós, expostas a toda violência diária direcionada em forma de bala, de covid ou de fome. Corpos pulsantes, preenchidos de sonho, de potência de vida, de brilho e de histórias de mulheres negras: o renascimento das mães que dedicaram a vida para suas filhas, também é interrompido nesse ciclo necrófago, onde a morte engole a morte e as mulheres negras viram zumbis, mortas-vivas chorando corpos de suas outras mulheres-espelho.

E Mbembe vem e diz: “nessas condições, uma coisa é se preocupar à distância com a morte de outrem. Outra é tomar consciência, repentinamente, da própria putrescibilidade, e ter de viver na vizinhança da própria morte, a contemplá-la como possibilidade real”.

Assim vivemos nós, humanidade errante, corpos fronteiriços, condenadas da terra, malquistas y primeiras na lista do plano da eugenia. Nós, as mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres trans, refugiadas, mulheres privadas de liberdade e todas as Outras na visão deles. Nosso corpo vive a acordar na mira das diversas mortes as quais podem ser submetidas a existência.

O que nos resta, companheiras? Uma pausa para o silêncio.

A cura

Nos recusamos a ser obituários. Covas sem vida, sem retorno. Como dissemos, nossos mortos caminham conosco, e não temos medo. Somos porque eles foram e sempre serão. E Mbembe mais uma vez sussurra ao nosso ouvido: “a hora da autofagia está se aproximando e, com ela, o fim da comunidade – porque dificilmente haverá comunidade digna desse nome quando dizer adeus, isto é, recordar os vivos, não for possível (…) Pois a comunidade, ou o em-comum, não se assenta somente na possibilidade de dizer adeus, isto é, em poder ter um encontro com os outros que seja único, honrado novamente, a cada vez. O em-comum depende também da possibilidade, sempre retomada, da partilha sem condições de algo absolutamente intrínseco, isto é, incontável, incalculável, e portanto inestimável.”

Apesar do rastro de morte, a vida precisa estar plena em nós, afinal, ainda temos nosso corpo e através dele podemos clamar por Justiça. A única que nos socorrerá, a única a qual confiamos com letra maiúscula – a Justiça que vem através da vida vivida em honra das que nos foram tiradas. A plena vida que elas devem exalar através de nós, que não vamos esquecê-las, mas continuaremos a lutar para que mais nenhuma de nós precise ser tomada de nós.

E Maria Stewart em Patricia Hill Collins² vem nos reanimar: 

Lutem pela defesa dos seus direitos. Conheçam as razões que as impedem de ter acesso a eles. Insistam até levá-las à exaustão. Tentar talvez nos custe a vida, mas não tentar certamente nos levará à morte”

A gente sabe que nossa vida não termina com a morte. E por isso, precisamos continuar. Respirando, parando, chorando. E continuando! Porque ainda temos muitas outras de nós com quem ensinar e aprender, porque ainda somos filhas, irmãs, mães, avós. Porque a liberdade plena e o bem viver ainda é razão pra seguir. Nossa utopia negra. 

Ainda temos nosso corpo e temos umas as outras. E a exemplo das mães negras que perderam suas filhas, e das famílias que com o luto ainda tem fôlego para gritar por Justiça, nós somos um corpo forte, que ainda tem fogo e queima por desejo de vida.

Uma vida em comum, onde só possível junto. Onde a falta de uma é sentida por todas, e a potência de cada uma transforma a vida de muitas. Uma vida que sabe que:

assim como dificilmente haverá humanidade sem corpo, a humanidade também não poderá conhecer a liberdade sozinha, fora da sociedade (…)” (Mbembe, 2021).

E nós fazemos parte desta sociedade. Queiram os eugenistas ou não! Temos o direito a vida, a respirar, a comida e felicidade. Lutaremos até a exaustão para que todas nós sejamos livres, no sentido mais amplo da palavra. A liberdade traduzida nas palavras de bell hooks em Collins, nos relembrando que “como sujeito, toda pessoa tem o direito de definir sua própria realidade, estabelecer sua própria identidade, dar nome a sua própria história” e nos trazendo a humanidade de volta.

Em detrimento da negação dessa humanidade, viveremos. Em honra de todas as nossas que foram e em respeito das que ainda ainda estão e das que virão, seguiremos. Porque há em nós o fogo da vida e da Justiça por tempos melhores e porque a esperança das mulheres negras nos anima, afirmamos:

Jamais aprendemos a morrer.

Referências: 

  1. Brutalisme. Achile Mbembe. Paris. La Decouverte, 2020.
  2. Pensamento Feminista Negro. Patricia Hill Collins. Tradução Jamile Pinheiro Dias. São Paulo. Boitempo, 2019.

Vídeo 1: Zé Manoel, Adupé Obaluae

Vídeo 2: Quema, Daniel Bazán, Jr (letra)

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