O ciclo da desigualdade

Quando ouvimos falar em desigualdade, logo pensamos nas coisas que são mais visíveis e que estão frequentemente sendo discutidas. Mas, qual a raiz da desigualdade? Onde ela nasce?

Eu sou fruto de um ciclo miserável que é bem comum na extrema pobreza a qual gera desigualdade do Brasil. Fui muito cedo para um abrigo em São Paulo e desde minhas primeiras memórias eu já sabia que eu era diferente.

Conheci a minha mãe aos 7 anos, em um presídio. Fui visitá-la para dar início a reintegração de uma criança abrigada à família. Muito cedo eu conheci o lugar (cadeia) ao qual eu já estava predestinada, por causa de um ciclo infeliz de pobreza e zero perspectiva de mudanças. Eu não gostava de ir lá, era pesado o ambiente, tinha que passar por revista e depois ter que ir embora e ver que minha mãe continuaria lá, me devastava.

 Com o conhecimento e experiencia de vida que tenho hoje, entendo que um presídio, não é um lugar para se levar uma criança, porém, para os adultos, a criança ela não tem que escolher, ela não sabe o que sente e tem que obedecer. A criança sabe sim, a criança chora, fica traumatizada, a criança pede socorro e não é ouvida.

     Na escola, eu sempre fui muito diferente. Negra, careca (No lar onde eu morava havia muitas crianças e era quase impossível, manter todas sem piolhos, ainda mais com a maioria negra de cabelo crespo. Então os cabelos eram “Joaozinho”), eu era magrela, banguela, feia, sem mãe, morava em um abrigo, parecia um menino e mais alguns motivos fáceis para que as crianças fizessem Bullying comigo.

Mas apesar de tudo isso, eu sempre era a criança mais inteligente da sala, o que não teve muito mérito, porque com o tempo, para me defender dos xingamentos, me tornei uma criança muito agressiva. As outras crianças achavam que tinham o direito de me bater porque eu não tinha família para me defender, apanhei por um tempo, mas aprendi que se eu revidasse, eles paravam, porque normalmente eu era mais forte e mais agressiva. E assim foi, perdi a chance de ser conhecida por ser a inteligente e fiquei conhecida como a agressiva. Mais uma vez aqui, a criança sendo machucada e pedindo socorro.

Lá pelos meus 14 anos, foi a fase da minha vida em que eu vi as crianças que moravam comigo, definindo suas personalidades e o que seriam no futuro. Nessa fase, é tanto pedido de socorro não ouvido, é tanto sofrimento acumulado, que o mais próximo das crianças nascidas nesse ciclo miserável, é continuar no ciclo. Muitas das minhas amigas tiveram filhos muito cedo, porque encontraram um “carinha legal” que não era tão legal assim, outras desistiram da escola, até porque não conseguiam se desenvolver e porque continuar estudando? Muitos seguiram o caminho das drogas, a gente cresce sendo tão desvalorizado e ridicularizado, que em qualquer oportunidade de mostrar que somos bons em algo, queremos mergulhar de cabeça, e nesse cenário meus amigos, a oportunidade mais recorrente, e  para alguns a única é a do mundo do crime, muitos sabem que o crime não compensa, mas é obrigado e viver no crime porque não tem outra saída.

Alguns tiveram a sorte da adoção, poucos, até porque a adoção tardia é quase impossível aqui no Brasil, criança grande dá trabalho. Raras foram as crianças que no meio disso tudo, conseguiram se apoiar no menor fio de esperança e viver uma vida fora do ciclo, essas são as crianças Outliers, essa sou eu.

As pessoas enchem a boca para falar de quem teve uma vida difícil e conseguiu “vencer”, mas na verdade, na maioria das vezes elas falam isso, para penalizar as que não conseguiram. Eu digo para vocês que é quase impossível conseguir viver diferente do que tudo o que a vida vai jogando nas suas costas.

Me disseram que eu ia ser bandida, que eu teria muitos filhos antes dos 20 anos, que eu não tinha jeito, que eu era terrível, que ninguém aguentava me ter por perto, me excluíam, riam da minha miséria, me tratavam como uma coitada que já tinha perdido, diziam que eu iria morrer cedo, que eu seria uma ótima faxineira, ou que eu ia virar a tia da merenda. Diziam que eu era fedida, feia e que nunca iria me casar, porque ninguém ia ser doido de fazer isso. O tempo inteiro me jogavam em um lugar de inferioridade e me obrigavam a aceitar isso. Como que alguém rodeado disso consegue sair ileso e virar um exemplo? Chega uma hora em que você começa a acreditar no ciclo de vida do qual você veio e começa ver sentido nele. Então, por favor, não julgue nem condenem aqueles que não conseguiram.

Mas existem os curiosos, os desafiadores, o que irão olhar para cara de todas as pessoas que o desejaram mal e irão dizer, você estava errado, eu consegui. Tem aqueles que darão tudo para conseguir fazer diferente, alguns não conseguem, e se rendem ao ciclo do destino no meio do caminho e tem aqueles que depois de muito sofrimento e persistência, conseguem. Mas tem que persistir mesmo, é humilhante, cansativo, as vezes falta esperança, dói e vem aquela vontade de simplesmente não tentar mais. PORQUE TEM QUE SER TÃO DIFICIL, só estamos tentando ter o mínimo e ser diferente, mas, quem liga?

E não termina, nós temos que aprender a lidar com a nossa história para o resto da vida, precisamos aprender a viver com a desigualdade, precisamos o tempo inteiro mostrar que somos capazes duas vezes mais. A gente consegue ser diferente, mas o mundo não consegue enxergar você de forma diferente, por mais que você se esforce.

O ciclo de vida miserável e desigual é real, devastador, também é desumano, mas não é invencível. Não para os pontos fora da curva.


Imagem destacada Pexels

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