Céu negro, constelação bi

As diversas formas de ser bissexual nas declarações de personalidades negras.

Publicado originalemente na CABINE plataforma de arte negra LGBT. Editado por Bruno F. Duarte

visibilidade bi está em uma crescente a ponto da pauta ser cada vez mais discutida e o 23 de setembro — dia da visibilidade bissexual — ganhar mais espaço e ser de fato visível entre os esforços da comunidade LGBTQI+. Mas afinal, o que é mesmo a biafetividade/bissexualidade pra além dos estereótipos?

Entender minha biafetividade, tendo vivido a infância nos anos 90 e a puberdade/adolescência nos anos 2000 foi, no início, como montar aqueles quebra-cabeças gigantes, que eu nunca na verdade terminei. Diferente de muitas famílias, a minha sempre foi muito pra frentex na questão LGBTQI+. Eu tinha muito próximos familiares e tias/os (amizades da minha mãe) lésbicas e gays. Fui algumas vezes com minha mãe na parada, quando ainda era “Parada GLS”. E cresci ouvindo uma afirmação positiva das pessoas gays e lésbicas com quem convivi desde muito cedo. Mas muitas vezes vi a bissexualidade ser colocada num lugar pejorativo. “Corta pros dois lados”, “Quem diz que é bi é porque não tem coragem de se assumir gay ou lésbica”, entre outras coisas.

De lá pra cá, entre me esquivar da hipersexualização pelos homens por ser bi e negra e ser chacota de algumas amigas lésbicas, vejo uma mudança significativa em pouco tempo. Chegamos ao “momento” onde aquela máxima comum impera quando vamos falar de biafetividade — O “B” de LGBTQI+ não é de biscoito. E não foi por acaso que isso aconteceu. Em uma sociedade em que ser bi significou durante muito tempo — dentro e fora da comunidade LGBTQI+ — ter vergonha de assumir a homoafetividade, ser indecisa, ser vetor de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) para a comunidade les-bi, ser aquela que não assume o relacionamento quando está com uma mulher (o que infelizmente é uma realidade comum, mas não a única), houve uma tendência predominante de silenciar a própria biafetividade.

Pouco a pouco vamos percebendo que não ganhamos nada com isso, acredito que foi também por muita influência dos discursos e ativismos mainstream gay e lésbico, nossos colegas de alfabeto e arco-íris.

Não quero dizer que pessoas bi não têm um histórico ativista. Principalmente as mulheres bi vêm historicamente sendo ativas na comunidade LGBT, a partir dos movimentos les-bi, mesmo que internamente existam mil divergências e desafios. E recentemente vemos cada vez mais grupos que discutem autonomamente a biafetividade/bissexualidade.

Mas pensar em visibilidade requer pensar a possibilidade de discutir a chegada desses discursos a uma superfície e a uma interface discursiva que possa alcançar cada vez mais pessoas. É daí que chego à construção desse texto. Há tantos anos eu sinto, vivo, penso e converso entre amigas sobre biafetividade, mas nunca escrevi. Maturar tem sido importante. Mas é nítida a necessidade de declarações, de escritas e de produção de conhecimento sobre biafetividade, para que cada vez mais a existência plena seja possível.

Curiosamente, esse também é o momento em que conseguimos saber sobre a possível bissexualidade invisibilizada de personalidades históricas, bem como em que artistas no Brasil e no mundo se colocam mais frequentemente enquanto bi. Está nas declarações dessas pessoas as várias visões e formas do seu ser bi, que vão desobstruindo a nuvem que nos impedia de ver essa constelação de possibilidades que nos leva — ao infinito e além — a montar um novo repertório mais popular e acessível sobre vivências afetivas e sexuais para todo o arco-íris.

Pensando e articulando discursos de personalidades negras, elenquei alguns que trazem pontos chave e de deslocamento do imaginário bi.

Ludmilla

“Vim de Duque de Caxias, sou negra, funkeira e bissexual. Olha quantos gigantes eu preciso vencer com uma única arma, que é a minha voz”

Ludmilla, para revista Glamour

Na entrevista que Ludmilla cedeu à Glamour, ela traz também o fato de ser cristã e compara sua história com a de Davi, que na Bíblia enfrenta o gigante Golias com uma pedra. Sou umbandista, mas acho importante quando pessoas católicas e evangélicas se posicionam enquanto LGBTQI+, ampliando as possibilidades de afetividade e sexualidade dentro dessas práticas espirituais. Isso pode fazer com que as lógicas dessas práticas tenham referências mais emancipadas e que ajudam as próximas gerações a terem mais liberdade de ser sem ter que abrir mão de um pelo outro. Numa sociedade baseada no cristianismo, isso é fundamental.

“Precisei abdicar de muitas coisas pra chegar aqui: da minha juventude, do meu tempo e até da minha orientação sexual, que escondi por muito tempo”.

Ludmilla conta que vê como natural a possibilidade de ficar com uma mulher desde o 16 anos e que falou para a mãe, mas só agora decidiu tornar isso visível.

A cantora disse também que vivenciou declínios no campo do trabalho após sua declaração. Ela afirma ter resolvido falar porque acredita ter encontrado a pessoa com quem quer ficar para sempre. E como é importante no sentido dessa ampliação de repertório sobre as bi ver uma mulher negra se afirmar bissexual ao mesmo tempo em que assume o relacionamento com outra mulher.

Uma pena pra quem declinou os contratos profissionais, porque a danada tá aí bem babadeira, com a fanbase tinindo dentro e fora do Brasil.

Mc Rebecca

Cantora

“Vejo tudo com naturalidade. O corpo a cada um pertence e o compartilha com quem achar melhor.”

Mc Rebecca, para Glamour

Famosa pelo funk “Cai de boca”, escrito por Ludmilla, Mc Rebecca é abertamente bi e vem falando muito a partir de uma perspectiva feminista negra. Em entrevista também à Glamour ela fala sobre ler livros como “Quem tem medo do feminismo negro” de Djamila Ribeiro, o que a fez entender melhor algumas dinâmicas. Ela afirma: “Gente, sou mulher, canto funk, negra e mãe! Minha luta é diária!”

Sobre sua bissexualidade, apesar de afirmar que hoje vê com naturalidade, comenta: “no início não foi fácil e hoje tenho isso muito bem resolvido com todos que me conhecem, inclusive minha família”. No twitter, após o lançamento do clipe “Revezamento”, em que aparece com a bandeira LGBTQI+ declarou: “Sou bissexual assumida, e aliás eu revezo sempre né”. Uma frase que no nível superficial deve ser um alívio pra quem acha que as bi organizam em gráficos as relações. Mas acho genial a forma como ela visibiliza uma possibilidade de ser bi em uma frase que naturaliza a orientação, de forma simples e acessível.

Disponível em Glamour e Observatório G

Tessa Thompson

Tessa Thompson, capa da revista Times, Maio de 2019

Atriz

“Eu posso tomar as coisas como garantidas por causa da minha família — é tão livre e você pode ser o que quiser. Eu sou atraída por homens e também por mulheres. Se eu levar uma mulher para casa, [ou] um homem, nem precisamos discutir. ”

Tessa Thompson, para a Net-a-Porter

No ano passado, Tessa Thompson falou sobre sua sexualidade, que foi classificada como bi por ter falado de atração por mulheres e homens. Me identifico muito com essa relação livre com a família. No momento em que consegui falar com minha mãe ela disse exatamente a frase que eu tinha na cabeça: “Você se interessa pelas pessoas”. Com a visibilidade da pauta pansexual, eu tenho tido mais cuidado para repetir essa frase, já que, nesse momento, me entendo enquanto bi. Mas poder estar num ambiente familiar em que as pessoas não se importam também deveria ser o comum. Na entrevista à Net-a-porter, Tessa também fala:

“Quero que todos os outros tenham essa liberdade e apoio que tenho de meus entes queridos (…) Mas muitas pessoas não têm. Então, eu tenho a responsabilidade de falar sobre isso? Tenho a responsabilidade de dizer em um espaço público que essa é minha pessoa? ”

Eu arrisco dizer que temos a responsabilidade sim. Porque é assumindo a responsabilidade de falar de nossas vivências “sem pedir desculpas” que cada vez mais pessoas podem entender e lidar bem com o fato de que existimos.

Karol Conka

Cantora e apresentadora

“As pessoas também têm uma coisa com o bi, né? Como se eu fosse olhar para a bunda das mulheres, sei lá. Não é assim. Acho que as pessoas bi olham muito mais para o ser.”

Karon Conká para Revista Glamour. Foto de Bruno Trindade

Karol Conka também é abertamente bi há um tempo e a fala dela para a entrevista da revista Glamour evidencia essa história da sexualização/objetificação das mulheres bi, potencializada pelo racismo. Ao mesmo tempo em que refuta essa lógica, Karol Conka, traz uma visão ampliada, centrando o ser bi mais na afetividade, no se interessar pelo que a pessoa é, não pelo que o corpo dela tem (nesse caso, a bunda das mulheres, aff.)

Frenchie Davis

Cantora finalista do “The Voice” e atriz da Brodway

“(…) não, eu não sou hétero; nenhum dos caras com quem eu estive me deixou heterossexual, assim como estar loucamente apaixonada por minha parceira agora não me faz lésbica. Eu sou uma mulher bissexual e é o que é.”

Há sete anos Frenchie Davis falou essa frase e até hoje ela reverbera com muita importância, pois traz de uma forma redonda que a bissexualidade não depende de quem é parceira/o atual. Ela depende apenas da pessoa que é bi mesmo, no caso. Parece simples, mas ao mesmo tempo traz uma série de questionamentos.

Para mim (falando a partir da minha biafetividade), além disso, também é importante dizer que estar com uma pessoa de um gênero, não quer dizer que você vai precisar em algum momento estar com uma pessoa de outro porque vai sentir falta.

Muitas vezes, a biafetividade/bissexualidade é mais sobre se relacionar com pessoas de dois gêneros diferentes — pessoas como um todo — do que sobre buceta e pau.

Travon Free

Comediante, escritor, e agora o criador de uma nova série em desenvolvimento com Nossa Senhora Issa Rae e HBO, chamada Him or Her.

Travon Free (divulgação)

“Ter a bissexualidade como uma piada em vários programas de comédia … cria a mesma situação para nós, na realidade, onde as pessoas o conhecem e pensam em você da mesma maneira (…) Encontro isso o tempo todo, onde meus amigos me dizem ‘se não fosse por você, eu não pensaria que isso era real’, e digo a eles ‘bem, isso é lamentável, você não deveria precisar me conhecer para acreditar na identidade de alguém.”

Ainda é pouquíssimo comum ver homens se declararem bi. Quando falamos de homens negros, fica ainda mais difícil, por serem atrelados a uma hipermasculinidade que os limita a paradigmas ainda muito rígidos de sexualidade e afetividade.

Ultrapassar a linha da heteronormatividade para o homem negro ainda é um grande ultraje para a sociedade. E existe um lugar discursivo que, quando aceita que essa linha foi ultrapassada, só aceita que do outro lado dela exista a homossexualidade. O homem que fala que é bi é predominantemente retrucado sobre usar esse rótulo porque não quer de verdade assumir que é gay — e vira chacota.

fala de Travon também me traz um ponto de identificação que é esse lugar constante de ser piada, ou de não ser real. É importante entender e confiar mais no que a pessoa declara de si do que no seu julgamento do que ela é. Pois a sexualidade e afetividade dos outros estaria mesmo aonde? No seu corpo, mente e experiências ou nesse mesmíssimo conjunto, só que dos próprios outros?

Dr. Herukhuti

Fundador do Centro para Cultura, Sexualidade e Espiritualidade, educador, artista e ativista

“Esta antologia convincente (…) é uma contribuição significativa para a literatura disponível sobre homens bissexuais e por eles e amplia nossa compreensão de como a bissexualidade é vivida por homens entre raça, classe, gênero, idade e nacionalidade”

No trecho acima, Dr. Herukhuti fala sobre o livro “RECOGNIZE: The Voices of Bisexual Men” (RECONHEÇA: As vozes de homens bissexuais). Quando falo de ampliar o repertório sobre biafetividade/bissexualidade, e me deparo com esse esforço, penso que estamos no caminho certo e avançando nele. Ver um homem negro liderar essa iniciativa é fundamental, pois, nas palavras do prório Herukhuti, a antologia “(…) desafiará tantos conceitos errados sobre homens bissexuais — por exemplo, nossa existência; as maneiras pelas quais somos visíveis como bissexuais em nossas famílias, comunidades e organizações; o grau em que praticamos monogamia ou poliamor em nossos relacionamentos; as vidas que vivemos; e nossos compromissos com a justiça sexual e de gênero.”

Janelle Monáe

Cantora e atriz

Janelle Moané na capa da Revista Rolling Stones

“Ser uma mulher negra queer nos EUA, alguém que tem relacionamento com homens e mulheres — eu me considero uma mulher foda e muito livre”.

Janelle Monáe inicialmente se identificou como bissexual, mas, nas palavras da própria cantora “depois li sobre pansexualidade e fiquei tipo, ‘ah, essas são coisas com as quais me identifico também.’ Estou aberta a aprender mais sobre quem eu sou.”

Frequentemente tida como uma orientação meramente transicional, durante muito tempo, ser bi foi visto pejorativamente como apenas uma experimentação, um espécie de catapulta que lançaria as pessoas ou de volta para a heteronormatividade (de volta para o passado) ou rumo à homoafetividade.

Ainda que exista muito caroço nesse angu, já que eu e muitas pessoas estamos aqui bem BIZONAS, gratas e sem pedir desculpas, sempre penso como também toda a sociedade tem sido pouco generosa com essa capacidade de experimentação que, em certo nível, a bissexualidade pode ter proporcionado sim pra algumas pessoas. Se alguém falou que era bi e depois falou que era outra coisa, existe uma dimensão que tem a ver com acreditar que essa é uma possibilidade real.

Para muitas pessoas a orientação afetivo-sexual transita. E não vai ajudar ficar pressionando ou chacotando alguém que supostamente você acha que está se colocando novamente no armário, por exemplo. Sabemos que isso também existe e é triste, mas assumir pra si e ficar falando por aí que esse é de fato o caso de uma pessoa x não ajuda.

Dito isso e, de volta para o futuro, a frase de Janelle traz à tona uma característica também possível da bissexualidade/biafetividade — uma possível associação, em muitas literaturas e discursos, com a pansexualidade, pois estamos avançando também na visibilidade com relação às identidades de gênero.

Em algumas referências é possível ver bi como sinônimo de pan. Da minha parte eu entendo como diferentes, mas também entendo que a bissexualidade, durante muito tempo em nosso vocabulário, serviu pra definir o que pansexualidade define mais nitidamente hoje.

Em termos de vivência-discurso, em um mundo em que ou era isso ou era aquilo, a possibilidade da existência bi foi uma das chaves para a possibilidade de outras formas de ser em termos de orientação afetivo-sexual. E, como eu costumo dizer de mim, de repente rumo à pansexualidade, nunca de volta à heteronormatividade enquanto abafamento do ser.

Bonus Track

Há registros de outras personalidades negras enquanto bissexuais. Relatos de tretas de Billie Holiday com a ex que não queria sair na sua biografia, afirmações de que Nina Simone era bi e relatos de amigos de infância e juventude de Malcolm X de que ele se relacionou com homens também.

Por mais que a gente queira muito celebrar a possibilidade de existência bi dessas pessoas, não estão facilmente acessíveis declarações delas mesmas sobre essas condições. O que me faz pensar — “ainda bem que estamos na era da internet e que as pessoas bi estão falando em primeira pessoa sobre sua bissexualidade”. Infelizmente não foi o caso dessas personalidades, que além de serem geniais em seu tempo enquanto pessoas negras, poderiam ter trazido perspectivas diversas de orientação afetivo-sexual, não fosse cistema heteronormativo operando a todo vapor.

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