Manifesto por um feminismo negro autônomo e coletivo

“O fato é que, enquanto mulher negra, sentimos a necessidade de aprofundar nossa reflexão, ao invés de continuarmos na reprodução e repetição de modelos que nos foram oferecidos […] Lélia Gonzáles.

Já faz um tempo que percebemos   uma disrupção com o discurso da representatividade e a forma com que ele tem sido utilizado como um instrumento de legitimação de projetos individuais que são encapsulados nas pautas políticas voltadas a questão de raça, gênero e sexualidade. Há uma certa tendência de alguns Feminismos Negros contemporâneos alcançar lugares onde somente a capa de revista, a entrevista na televisão golpista ou o prêmio de melhor do ano designam quem é A voz do Feminismo Negro.

O que de fato significa ter galgado espaços de representatividade dentro de uma sociedade capitalista e ultraliberal onde a ode ao indivíduo é a ordem filosófica? Por que sempre parecerá recalque quando os Feminismos Negros questionarem a ideia de representatividade em detrimento de uma visão coletiva e de grupo para as mulheres negras?

Não há um problema em si com a representatividade midiática, ao contrário: é inegável o avanço justamente por conta das construções dos movimentos sociais, no que diz respeito a dupla Política & Representatividade. O entrave está ainda na manutenção de grande parte da hierarquia que acentua assimetrias – sejam elas ainda de classe, sexualidade, identidade de gênero – tudo em nome da visibilidade. Ao que nos diz Muniz Sodré: “a visibilidade – o plano das aparências – não é um requisito simples, pois se suscita os problemas do reconhecimento social e do valor humano. Logo é uma questão de natureza ética”.

É aqui que residem nossos questionamentos: quem tem mais ou menos valor? Quais são os corpos visibilizados? Qual é a classe das capas de revista? Pode ela ser heterogênea? Pode a representatividade ser numerosa? Coletiva? 

Segundo o pensamento de Patricia Hill Collins,  socióloga negra norte-americana, os corpos negros são lidos a partir de imagens de controle, ideologicamente manipuladas para naturalizar e justificar o racismo. É também Collins que irá nos alertar para os perigos da voz única, pois a presença dos mesmos corpos, nos mesmos lugares não necessariamente significam que estamos representadas, as vezes são apenas um mecanismo de controle. Para além dos perigos do reforço do estereótipo, ousamos dizer que a representatividade oca também é nociva a construção coletiva de mulheres negras. Uma representatividade oca pode ser conceituada como a representação individual que não se comunica com as agendas materiais dos movimentos políticos e estratégicos que o indivíduo diz representar.  Assim, discursos progressistas encapsulados nas pautas voltadas a questão de raça, gênero e sexualidade também podem ser considerados discursos ocos quando são voltados apenas para projetos individuais que capitalizam recursos a partir de uma suposta representatividade. Suposta porque não são reconhecidos pelos movimentos sociais que dizem representar e também não retornam qualquer contrapartida que auxilie na consolidação das agendas centrais desses movimentos. É quando a representatividade não faz dupla com a política e as imagens se colocam a serviço dos sistemas hegemônicos, [capitalismo, imperialismo, racismo, etc].

Eis a nossa crítica: os Feminismos Negros ou os Movimentos de Mulheres Negras não devem estar dispostos a reproduzir modelos que apenas contribuem para a manutenção de um status quo e de uma representatividade sem sentido, sem valor coletivo. Como Lélia Gonzáles aponta, sentimos necessidade de  aprofundar a discussão, de fazer mais, de ir além. A representatividade oca e única para nós, é pouco! Queremos ser muitas, múltiplas. Queremos ser vozes, no plural.Queremos ser um projeto revolucionário, autônomo, que permaneça independentemente de quem ocupa a capa da revista, o sofá do programa matinal.

Os processos de inferiorização aos quais grupos subordinados são submetidos estão conectados com estratégias que visam manter esses setores da população excluídos do mercado de trabalho, da educação formal e dos processos mais básicos de reconhecimento de cidadania. 

No Brasil, Sueli Carneiro diz que os meios de comunicação se constituem num espaço de interferência e agendamento de políticas do movimento de mulheres negras (CARNEIRO, 2003, p. 125).

“As mulheres negras vêm atuando no sentido de não apenas mudar a lógica de representação dos meios de comunicação de massa, como também de capacitar suas lideranças para o trato com as novas tecnologias de informação, pois a falta de poder dos grupos historicamente marginalizados para controlar e construir sua própria representação possibilita a crescente veiculação de estereótipos e distorções pelas mídias, eletrônicas ou impressas” (CARNEIRO, 2003, p. 126).  

Destaca-se a importância da mídia (jornal, revista, rádio e tv) e da internet para ecoar as vozes das mulheres negras, denunciando o racismo, o mito da democracia racial e as violências contra a mulher negra. Ao mesmo tempo, disseminando informações positivas sobre a identidade racial negra, compromisso com a agenda democrática, justiça social e a luta antirracista.  

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente prá uma festa deles, dizendo que era prá gente também. Negócio de livro sobre a gente, a gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até prá sentar na mesa onde eles tavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. (…) Só que tava cheia de gente que não deu prá gente sentar junto com eles (…) Tinham chamado ela prá responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa prá falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba. (…) Foi aí que um branco enfezado partiu prá cima de um crioulo que tinha pegado no microfone prá falar contra os brancos. E a festa acabou em briga… (…) Agora, aqui prá nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. (…) Não é a toa que eles vivem dizendo que ‘preto quando não caga na entrada, caga na saída’” (GONZALEZ, 1984)  

Ter voz, portanto, é uma ferramenta central para resistir aos processos de dominação articulados pelas elites dominantes. Ter voz não significa apenas manejar uma imagem, um lugar onde se enuncia, mas sobretudo e para tudo está associado ao poder de modificar a realidade. E talvez seja isso que realmente identifique uma voz, uma representatividade aliada à sua ação política, para além da simbologia e da ideia apenas como discurso. As Vozes dos Feminismos Negros, portanto, não deveriam ser capturadas pelas mesmas dinâmicas de controle, ao contrário, elas precisam resgatar o potencial revolucionário da resistência de mulheres negras. As Vozes são as atrizes principais nas transformações reais e concretas em busca de uma sociedade sem as opressões e os poderes que tenta controlá-las. São as vozes que aparecem, por exemplo, no #JulhoDasPretas, mas que gritam o ano inteiro somadas a Outras Vozes.

Ser “A voz”, a única pessoa negra falando em um espaço onde só falam os homens brancos ou a única convidada negra a acessar espaços de privilégio social que normalmente não acessamos, não significa que estamos cumprindo com o papel de representar a negritude. É preciso questionar isso. Às vezes, isso só significa que nossa trajetória individual, nosso nome e corpo estão sendo utilizados para estampar produtos que geram lucro para o mercado, que adota a lógica de consolidar estereótipos que desumanizam, coisificam e controlam mulheres negras. 

Ao nos permitirmos sermos interpeladas como “A voz” de uma coletividade múltipla, formada pelos mais diversos fazeres políticos e as mais variadas trajetórias, permitimos que as lógicas do poder hegemônico controlem não só os instrumentos que são utilizados por essas coletividades para exigir seus direitos e articular suas estratégias de luta, como também despotencializamos aquilo que há de mais central no movimento de mulheres negras: o reconhecimento da pluralidade de táticas que articulam resistências.

Para além disso, essa desconfortável posição evidencia o tamanho da segregação racial e o quanto pessoas negras não são bem-vindas nos espaços. Quando apenas um grupo selecionado de pessoas negras pode estar presente em um local, o significado pode ser que estas pessoas, na verdade, não fazem parte daquele espaço e ali estão em razão de uma estratégia de controle das demandas e reivindicações da coletividade negra.

Nós somos mais que uma voz, um nome, uma figura pública. Somos muito mais que a representatividade oca articulada em pautas individualistas que não dão conta da dimensão política da trajetória de resistência das comunidades negras. Nós não precisamos de uma única voz feminista negra – como já apontava Collins antes de Adiche – que fale por nós e que se auto-proclame enquanto vanguarda revolucionária.  O que está historicamente colocado para nós é uma atuação coletiva que nos possibilite autonomia política e emancipação social. Qualquer indivíduo negro só chega onde está porque é suportado por uma comunidade. A coletividade é um valor que afro-brasileiros herdaram de seus antepassados africanos e não pode ser engolido pela plasticidade e estética da representatividade moderna, que, sim, importa, mas não a qualquer custo.

Nossa multiplicidade é o valor agregado da qualidade do que conseguimos produzir em micropolíticas, nas esferas mínimas de poder e no macro. É anti-feminista o pensamento individual, do sucesso e do triunfo solitário, da superação das barreiras como se fossem apenas questões meritocráticas, vitórias umbiguistas acima de uma estrutura que oprime e mata. Os Feminismos Negros não são a hegemonia nem podem corroborar com isso, pois caso sim, fazem parte da mesma raíz que as opressões e imagens de controle.

Somos um movimento social coletivo onde vozes multiplicam-se, ouvem-se, ressoam e não podem ser silenciadas, porque são múltiplas, porque são plurais. Somos escrita coletiva. Somos Blogueiras Negras.

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